26 Mai, 2026

“A diminuição da obesidade só será possível com três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes”

Um estudo britânico indica que as taxas de obesidade estão a estabilizar, inclusive em Portugal. Mas para Gil Faria, médico, investigador e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é preciso olhar para os resultados com alguma cautela. Em entrevista, alerta que não se pode parar de lutar contra a doença e que ainda há muito trabalho pela frente, nomeadamente a implementação do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade.

“A diminuição da obesidade só será possível com três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes”

O estudo recente, liderado pelo Imperial College de Londres, e publicado na revista “Nature”, refere que as taxas de obesidade estabilizaram e até diminuíram em vários países, incluindo Portugal. O que contribuiu para esta diminuição?

Esta é uma boa notícia, mas deve ser lida com prudência. O estudo mostra que, em alguns países de elevado rendimento, incluindo Portugal, o crescimento da obesidade abrandou, estabilizou ou poderá até ter começado a inverter-se ligeiramente, sobretudo em crianças e adolescentes. Mas não significa que o problema esteja resolvido. Significa apenas que talvez algumas medidas implementadas estejam a começar a produzir efeito.

Provavelmente, contribuiu uma combinação de fatores: maior consciência pública, políticas de alimentação escolar, taxação de bebidas açucaradas, melhor literacia alimentar, maior pressão social para ambientes mais saudáveis e alguma mudança nos padrões de consumo. Portugal tem tido programas na área da alimentação saudável e prevenção da obesidade infantil e isso pode estar a ter impacto.  Mas há um ponto essencial: não podemos confundir estabilização com vitória. Se um incêndio deixa de alastrar, continua a haver fogo.

Apesar destes resultados, a obesidade continua a ser uma preocupação?

Sem dúvida. Continua a ser uma das maiores ameaças à saúde pública em Portugal. Segundo o INE, mais de metade dos adultos portugueses tem excesso de peso ou obesidade: 37,3% com excesso de peso e 15,9% com obesidade. Nas crianças, o estudo COSI Portugal 2022 mostrou 31,9% com excesso de peso e 13,5% com obesidade. Estes números não são marginais, são estruturais. E existem outros estudos que demonstram prevalências superiores.

Mesmo que a curva esteja a estabilizar, estamos ainda num patamar demasiado alto. Milhões de pessoas continuam expostas a maior risco de diabetes, hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, doença hepática metabólica, infertilidade e vários tipos de cancro. A obesidade não deixou de ser preocupante, porque cresceu menos. Continua a ser preocupante porque já cresceu demasiado.

“Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas”

Esta é uma doença associada a muitas outras comorbilidades. Como vê, atualmente, a abordagem clínica da obesidade? Já existe maior apoio multidisciplinar?

A abordagem está a mudar, mas ainda não mudou o suficiente. Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como uma falha individual. Hoje sabemos que é uma doença crónica, complexa, biológica, social e ambiental. Por isso, não pode ser tratada apenas com uma folha de dieta ou com a frase “tem de fazer exercício”.

A boa notícia é que Portugal publicou o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, que prevê uma resposta mais estruturada, com equipas multidisciplinares, articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares, acompanhamento nutricional, psicológico, médico, farmacológico e cirúrgico, quando indicado.

Mas a implementação ainda é difícil. Uma coisa é produzir regulamentos. Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas. E, no global, o número de profissionais disponíveis e treinados para tratar a obesidade ainda não é suficiente para as necessidades.

“O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica”

Em termos de acesso ao tratamento, seja farmacológico ou cirúrgico, é o mais adequado ou ainda há muito trabalho a fazer?

Ainda há muito trabalho a fazer. Muito mesmo. Temos hoje tratamentos eficazes: fármacos antiobesidade, cirurgia metabólica, intervenção nutricional, apoio psicológico e programas estruturados, mas a existência de tratamentos não é o mesmo que garantir acesso.

No caso dos fármacos, o acesso continua limitado pelo custo, pela ausência de comparticipação e pela escassez. No caso da cirurgia metabólica, o problema é igualmente grave: muitos doentes com indicação cirúrgica continuam sem acesso em tempo útil, apesar da cirurgia ser a intervenção mais eficaz e custo-efetiva para a obesidade moderada a grave. Continuamos a estimar que apenas 1% dos doentes com indicação para cirurgia consegue atingir esse tratamento.

E aqui temos de ser claros: o doente com obesidade não é menos doente. Não pode ser tratado como alguém que “pode esperar” indefinidamente ou que não “merece” o tratamento. Negar acesso ao tratamento não poupa dinheiro ao SNS.

 

De futuro, pode-se esperar uma diminuição da obesidade?

Pode, mas não acontecerá por acaso. A diminuição da obesidade só será possível se combinarmos três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes. Precisamos de melhores políticas públicas, alimentação escolar saudável, cidades que promovam movimento, combate aos alimentos ultraprocessados, diagnóstico mais cedo e equipas preparadas para acompanhar a pessoa ao longo da vida.

Os novos fármacos podem ajudar. A cirurgia continuará a ser fundamental nos casos mais graves, mas nenhuma solução isolada resolverá uma doença tão complexa. Tal como este estudo da Nature comprova, a melhor forma de travar a obesidade é o elevador social: sociedades com maior desenvolvimento económico estão mais capacitadas para combater a obesidade.

O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica, séria, tratável e profundamente influenciada pela sociedade em que vivemos.

Maria João Garcia

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