
Diana Pereira Alexandre, 0396N, e Ana Raimundo Costa, 0451N - Nutricionistas especialistas em nutrição clínica, Fundação Champalimaud
O papel da nutrição no cuidado da pessoa com ostomia: mais do que alimentação, uma estratégia terapêutica
Uma ostomia derivativa ou de eliminação é uma abertura cirúrgica no abdómen que exterioriza uma parte do intestino, permitindo a recolha das fezes num saco coletor fixado à parede abdominal. As causas mais comuns que levam à necessidade de uma ostomia desta natureza são o cancro colorretal, as doenças inflamatórias intestinais como a Doença de Crohn, e a doença diverticular.
A presença de uma ostomia derivativa tem implicações na alimentação, sobretudo na fase inicial, para evitar a obstrução do estoma e para que o intestino tenha tempo de curar e de ser restabelecido o trânsito intestinal. A dieta deve ser restrita em resíduo, fracionada em refeições de pequeno volume e com hidratação adequada. adequada.
Embora não exista uma dieta única para as pessoas com ostomias, como cada organismo reage de forma diferente, existem cuidados alimentares específicos que devem ser individualizados de acordo com o tipo de ostomia, os sintomas gastrointestinais e a tolerância alimentar de cada um.
Para quem tem uma ileostomia (a derivação é feita no intestino delgado — íleo) a alimentação pode tornar-se mais complexa e diferente do habitual, com restrições impostas pela ocorrência frequente de diarreia e pelos movimentos e ruídos involuntários do intestino, causando desconforto e algum constrangimento, sobretudo no início.
Nas primeiras semanas após a cirurgia, a alimentação deve ser restrita em resíduos, isto é, nos alimentos que contêm fibra insolúvel (não solúvel em água e que passa no trato gastrointestinal sem ser digerida, acelerando o trânsito intestinal), como é o caso dos cereais integrais, cascas e sementes das frutas, vegetais de folha verde escura, vegetais crus, frutos oleaginosos e sementes. Outros alimentos ricos em fibra e cuja fermentação no intestino pode formar gases, distensão abdominal e cólicas são os brócolos, couves, leguminosas, a evitar consoante o seu efeito.
A digestão da lactose (açúcar do leite e derivados) também pode causar sintomas gastrointestinais adversos e ser necessário restringir. A ingestão de água e de infusões em quantidade adequada ao longo do dia é fundamental para prevenir a desidratação, já que é comum ocorrer diarreia. Comer devagar e mastigar ativamente os alimentos facilita a sua digestão.
Passado o período inicial, os alimentos retirados e que sejam fundamentais para uma alimentação saudável, devem ser introduzidos gradualmente, um a um, para testar a tolerância.
Para quem tem colostomia (a derivação é feita no cólon), são menos as restrições alimentares e o risco de desidratação ou de perdas nutricionais é menor, uma vez que parte do cólon permanece funcional, permitindo absorção de água e de sais minerais e uma consistência fecal mais formada.
Embora seja mais rápido retomar uma alimentação igual ou próxima do padrão habitual do que no caso da ileostomia, é à mesma necessário identificar a tolerância individual aos alimentos que provocam gases, ou que alteram a consistência das fezes.
A alimentação pode ter, também, um impacto psicológico para a pessoa com ostomia. O receio de complicações, fugas ou desconforto pode levar a restrições alimentares excessivas, resultando em perda de peso e de massa muscular e comprometendo o estado nutricional, particularmente em pessoas já vulneráveis.
Neste contexto, o acompanhamento nutricional especializado deve integrar os cuidados multidisciplinares à pessoa com ostomia, promovendo autonomia alimentar e otimizando o estado nutricional e a qualidade de vida.
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