Qual a importância da vacinação em idade infantil?

É fundamental. Esta pandemia já está a ter consequências, nomeadamente, soube-se hoje [terça-feira] com o aumento dos casos de sarampo. As doenças infecciosas contra as quais vacinamos em Portugal (de entre as quais, o sarampo é a mais mediática) não desapareceram, não estão eliminadas. Se não vacinarmos, vão reemergir.

Para além do sarampo, falamos de doenças como a tosse convulsa, a meningite meningocócita ou pneumocócia. Os agentes que as causam (bactérias ou vírus) continuam a existir na comunidade. Isto significa que, se a taxa de imunização baixar, vamos ter muito mais pessoas suscetíves à infeção e daí ser mais provável ocorrerem surtos.

O sarampo, que é uma doença altamente contagiosa, tem vindo a reemergir na Europa, a tosse convulsa nunca desapareceu totalmente. Começámos a vacinar grávidas há uns anos para proteger os casos mais graves de tosse convulsa em bebés.

Agora, se deixarmos de vacinar grávidas e recém-nascidos, vamos ter uma janela muito longa para o surgimento de tosse convulsa, sarampo, etc.

Quais são as recomendações relativas à vacinação neste quadro de pandemia?

A recomendação geral é a de manter o esquema de vacinação proposto pelo Plano Nacional de Vacinação, nas datas que o PNV propõe. Portanto, são para manter as vacinações dos 2,4,6 e 12 meses. É fundamental. A doses dos 18 meses e dos 5 anos são doses de reforço e essas podem atrasar-se um pouco. Quem tem vacina para fazer aos 18 meses, se fizer aos 19 não traz grandes problemas. Obviamente que não é benéfico que se atrase muito essa dose de reforço.

No que diz respeito às doses no primeiro ano de vida, se estas não forem administradas, perde-se a oportunidade?

Se não se fizer a vacina aos 6 meses e se fizer aos 8, não há que repetir todas as doses anteriores. O que acontece é que, quando a criança não faz as doses no timing adequado, não fica protegida.

Em relação às vacinas que não se incluem no PNV, como a do rotavírus, estas devem continuar a ser feitas também?

Sem dúvida, nenhuma vacina é dispensável. Ao contrário, por exemplo, da vacina contra a meningite B, a vacina do rotavírus não pode ser atrasada. A primeira dose tem de ser dada até aos 3 meses e a última até aos 6 meses. Se a primeira dose não for feita antes dos 3 meses, já não se poderá fazer mais tarde. É essa a recomendação internacional.

O risco de não vacinar é sempre superior mesmo perante a atual pandemia?

Claramente. Os serviços de saúde estão organizados para garantirem uma separação entre os doentes Covid e os não-Covid. As crianças que vão ser vacinadas vão para um circuito não-Covid, em que a vacinação é feita por marcação, há um número limitado de pessoas na sala de espera. O risco é muito baixo e os benefícios são muito altos. Sem dúvida que se justifica que as crianças continuem a ser vacinadas.

Que papel podem ter os médicos no apelo à vacinação?

Têm de ter um discurso positivo de apelo à vacinação, explicando às pessoas temos muitas vantagens em vacinar. O risco é mínimo. Há coisas que não podemos deixar de fazer.

Tem sido levantada a hipótese de poder existir uma relação entre a vacina BCG e o Covid-19? Parece-lhe que se pode fazer essa associação?

Quando há algo que não percebemos tentamos inventar muitos teorias para o explicar. Esta é mais uma teoria mas, nesta altura, é pura especulação. Não quer dizer que daqui a uns meses, eu não possa estar a dizer o contrário se algum estudo surgir a mostrar uma relação. Mas, nesta fase, é especulativo.

Há muitos fatores que influenciam a infeção por Covid-19. Alguém acha que Portugal teve melhores resultados do que Espanha [no combate à pandemia] por causa da BCG? A verdade é que nós tomámos medidas que os espanhóis tomaram mais tardiamente ou não tomaram.

A própria OMS não aceita essa relação e não há uma recomendação formal para usar a BCG no combate a outras doenças.

TC/SO

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