24 Abr, 2017

Portugueses podem estar a consumir vitamina D em excesso

Devido a um forte aumento do consumo de medicamentos para o tratamento do défice de vitamina D, por parte dos portugueses, o Infarmed, a Direção-Geral de Saúde (DGS) e o Instituto Ricardo Jorge (INSA) vão avançar com uma avaliação "firme e rigorosa" do diagnóstico e tratamento da doença

Segundo um comunicado divulgado pela  Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), dados recolhidos pela entidade, mostram uma duplicação dos encargos entre 2015 e 2016, valor esse que quintuplica em dois anos, passando de 1,1 milhões de euros para 5,7 milhões [de euros], incluindo medicamentos com e sem comparticipação.

Já o financiamento no Serviço Nacional de Saúde (SNS) aumentou de 779 mil euros para 2,1 milhões num ano, segundo a mesma entidade.

“Estes valores, só por si, não permitem concluir que há um sobretratamento do défice de Vitamina D”, sublinhou o Infarmed.

Assim, o Infarmed, em colaboração com a DGS e o INSA, está a averiguar quais as razões que justificam este “aumento anormal” da utilização de medicamentos contendo vitamina D.

Segundo o Infarmed, esta investigação está a ser efectuada em diversas vertentes, desde logo, relativamente às metodologias utilizadas na determinação dos níveis sanguíneos de vitamina D, à racionalidade clínica na prescrição de medicamentos com vitamina D, e às práticas promocionais daqueles medicamentos por parte das empresas farmacêuticas.

O Infarmed alerta que os medicamentos com vitamina D, como qualquer medicamento, não são isentos de efeitos adversos e devem ser utilizados apenas quando existe clara indicação clínica.

Estudo alerta para défice de Vitamina D na população portuguesa

No final do ano de 2016, foram publicados dois estudos que alertavam para o défice de vitamina D nos portugueses. Mas, segundo a Infarmed  a discrepância de valores nos resultados publicados nos dois estudos diferentes é o que justifica uma avaliação profunda e esclarecedora nesta área.

Um dos estudos foi liderado por uma equipa multidisciplinar de investigadores do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e do Centro Hospitalar e Universitário do Porto – Hospital de Santo António (CHUP-HSA), no qual concluiu-se que cerca de 78% da população tem insuficiência de Vitamina D.

Porém, publicado na revista internacional Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, o estudo liderado por Andreia Bettencourt, estudante de do Doutoramento em Ciências Biomédicas e investigadora do Laboratório de Imunogenética e da Unidade Multidisciplinar de Investigação Biomédica (UMIB) do ICBAS, alerta ainda para a elevada prevalência de deficiência grave de Vitamina D, que afeta quase metade (48%) da população estudada.

Para a realização deste estudo, que caracteriza pela primeira vez os níveis de vitamina D numa população adulta saudável em Portugal, foram investigados 198 indivíduos (dadores de sangue) do Norte de Portugal, com idades entre os 18 e os 67 anos. Os indivíduos entre os 36 e 50 anos apresentavam mais deficiência vitamínica, e foi encontrada uma correlação negativa entre os índices de massa corporal e os níveis de Vitamina D, Ou seja, quanto maior o índice de massa corporal, mais baixos são os níveis de Vitamina D. Não foram encontradas diferenças entre os géneros.

Por sua vez, a percentagem de pessoas com insuficiência de Vitamina D flutua ao longo do ano, apresentando no Verão o valor mais baixo (62%), e atingindo no Inverno valores de cerca de 95%. Ainda assim, os valores encontrados no verão são surpreendentemente altos, sugerindo que apesar de Portugal ser um país com muito sol (a principal fonte de produção da vitamina) e grande exposição solar, muitas pessoas não se expõem os 10 a 15 minutos diários considerados suficientes para serem mantidos os níveis ideais de Vitamina D.

A falta de vitamina D está associada a maior risco de infeções, doenças auto-imunes, oncológicas e cardiovasculares. O estudo alerta por isso para a necessidade de implementação de uma estratégia eficaz para prevenir a sua deficiência e insuficiência.

LUSA/U.PORTO/SO/CS

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