Dia Mundial da Asma. Por uma doença mais controlada

Na data em que se assinala o Dia Mundial da Asma, Pedro Martins, imunoalergologista do Hospital Dona Estefânia, chama a atenção para a importância da toma continuada da medicação e “não apenas nos momentos de crise asmática”.

O especialista pede para que se “deixem de lado os mitos que existem sobre os corticoides inalados” pois, garante, os fármacos para o tratamento da asma “apresentam um bom perfil de segurança”.

A asma é uma doença inflamatória crónica das vias aéreas que, em indivíduos suscetíveis, pode originar episódios recorrentes de pieira, dispneia, aperto torácico e tosse, sobretudo no período noturno ou no início da manhã. Os sintomas desta patologia, cuja prevalência é mais elevada na população infantil e juvenil, estão geralmente associados a uma obstrução generalizada das vias aéreas que até pode ser reversível espontaneamente, mas num número significativo de casos é necessário recorrer ao tratamento farmacológico para manter os doentes com a doença controlada.

Foto Pedro MartinsSegundo Pedro Martins, especialista em Imunoalergologia do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, o controlo da asma com a terapêutica correta é fundamental. Afinal, frisou o clínico “um doente asmático com a doença não controlada pode vir a gerar várias complicações decorrentes do mau controlo da própria doença”, complicações essas que são muitas vezes responsáveis por deslocações ao Serviço de Urgência.

Asma associada a outras patologias

A prevalência das doenças alérgicas tem aumentado de forma generalizada, com especial destaque para o aumento do número de diagnósticos de rinite alérgica, cujos últimos dados apontam para que atinja cerca de 500 milhões de pessoas em todo o Mundo.

Além desse facto, é igualmente constatado que existe uma estreita ligação entre a asma e a rinite alérgica, com os dados epidemiológicos a apontarem para que aproximadamente 80% dos asmáticos tenha também diagnóstico de rinite alérgica e cerca de 40% dos doentes com rinite alérgica seja também doente asmático.

Os doentes com alergias respiratórias são também suscetíveis ao desenvolvimento de alergias a alguns medicamentos, nomeadamente anti-inflamatórios não-esteroides e são igualmente afetados com frequência por “alergias alimentares ou eczema atópico, que é uma doença que coexiste com outras patologias alérgicas”, alertou o médico.

Terapêutica considerada segura

No que diz respeito ao tratamento da asma, Pedro Martins deixa a garantia que os medicamentos indicados para controlar a patologia são, de uma forma geral, seguros. “Existem várias terapêuticas, mas as mais eficazes, atualmente, são os corticoides inalados”, explicou, sublinhando que estes fármacos “são considerados seguros, embora pontualmente possam ter alguns efeitos secundários, principalmente se a técnica inalatória, não for a mais adequada”. Nessa medida, para o especialista é fundamental o ensino e formação dos doentes para que estes possam aprender as técnicas inalatórias corretas e assim conseguir otimizar o tratamento.

O especialista referiu ainda a importância da toma continuada da medicação e “não apenas nos momentos de crise asmática” e esclareceu que está na hora de se deixar “de lado os mitos que existem sobre a medicação com corticoides inalados” pois, assegura novamente, os fármacos deste grupo terapêutico “são seguros”.

Para a administração da terapêutica são utilizados broncodilatadores, cuja atuação pode ser de curta ou de longa acção. Apesar de não ser frequente, os broncodilatadores podem induzir palpitações, mas mudando o broncodilatador, conseguimos habitualmente uma diminuição deste tipo de queixas”, referiu Pedro Martins.

Especial cuidado com a asma na criança e no idoso

Os dois grupos que podem sofrer mais sequelas decorrentes das crises de asma são as crianças e os idosos. De acordo com o médico, nos últimos tempos tem sido tema de discussão o facto de uma criança ao ter episódio agudo “uma parte do pulmão acabar por ficar lesada” e assim sendo, “as crises que a criança vai tendo na fase inicial da vida, são determinantes”, na história natural da patologia.

É de salientar que a asma é particularmente frequente na criança, atingindo em Portugal cerca de 8,4% da população com idade inferior a 18 anos, e neste grupo a base da doença é habitualmente alérgica. No entanto, embora a alergia seja a principal causa da doença, por criar a hiper-reactividade brônquica, não é o único fator que desencadeia sintomas. Estes também podem ser desencadeados por infeções virais, pelo exercício físico, por variações climáticas, por fatores psicológicos ou por fatores considerados irritantes, como o fumo de tabaco ou determinados alimentos.

A genética também parece desempenhar um papel importante nesta doença já que os filhos de pais com doenças alérgicas respiratórias aparentemente têm mais propensão para eles próprios desenvolveram também patologias do foro alérgico.

Já no caso dos idosos, a preocupação dos clínicos está relacionada com o facto de estes doentes terem na maioria dos casos comorbilidades associadas, que levam à polimedicação, e alguns indivíduos podem já ter desenvolvido alguma limitação motora que dificulte a administração da técnica inalatória. Este cenário, nas palavras do clínico, “levanta grandes desafios, pois os fármacos devem ser adequados a este tipo de características, o que pode não resultar tão bem com alguns dispositivos”.

A par dessas limitações, a população com mais idade é, por vezes, mais sensível à terapêutica, como por exemplo aos corticoides inalados, podendo desenvolver mais facilmente alguns efeitos adversos.

Prevenção é a melhor estratégia

Atendendo aos números que apresenta, a asma é considerada um verdadeiro problema de Saúde Pública, pois além de se tratar de uma das doenças mais frequentes entre as crianças e jovens, a tendência da prevalência e da incidência desta patologia é de crescimento. E além de ser uma das principais causas de deslocação ao Serviço de Urgência nestes grupos etários, a asma é igualmente causadora de sofrimento a vários níveis, não só no condicionamento da atividade diária do doente, mas também causa impactos extensivos às famílias e grupos de pertença do doente, influenciando de forma particularmente negativa a qualidade de vida de quem convive de perto com esta patologia.

“O doente com asma não controlada é um doente com má qualidade de vida, tem mais idas às urgências, maior risco de internamento e em última instância com maior mortalidade”, sublinhou Pedro Martins, para quem “não há melhor estratégia de prevenção das crises asmáticas do que o tratamento adequado”, concluiu

SO/CS

 

 

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