31 Jul, 2020

Pandemia pode ter impulsionado casais a procurar ajuda para as disfunções sexuais

O Urologista conta como tem sido seguir os doentes em tempos de pandemia e de como o confinamento pode ter obrigado os casais a enfrentarem as dificuldades sentidas na vida sexual.

Fazendo uma análise casuística, que disfunções sexuais são mais prevalentes no campo da Urologia?

No campo das disfunções sexuais masculinas mais prevalentes na Urologia reconheço que é, claramente, a disfunção eréctil, seguida pelas disfunções ejaculatórias, em particular a ejaculação prematura.

Nos últimos anos, temos assistido a um aumento da procura de consulta de Urologia por queixas associadas a uma diminuição do desejo sexual, quer tendo por base um hipogonadismo, quer por outros fatores.

Como foi seguir os doentes com disfunções sexuais durante as semanas em que a pandemia obrigou à redução da atividade clínica para centrar as atenções no acompanhamento de doentes COVID-19 ou a situações consideradas urgentes?

Durante o período mais crítico da pandemia, o acompanhamento dos doentes com estas patologias ficou um pouco para segundo plano. O acompanhamento de doentes já seguidos em consulta por motivos de disfunção sexual limitou-se, em grande parte, na renovação de receituário, ficando a resposta a novos casos comprometida, quer por limitação dos próprios serviços, que dirigiram os seus esforços para a pandemia, quer por inibição dos próprios doentes que demonstraram o receio de deslocar-se a uma instituição hospitalar por medo de contágio.

Quais foram os relatos dos doentes nesse período? Notaram um agravamento do quadro clínico, fosse a causa da disfunção sexual orgânica ou psicológica?

Tendo por base de análise a renovação do receituário, houve casos em que ocorreu um aumento da atividade sexual. Obviamente que este dado não permite generalizar conclusões.

Por outro lado, os doentes já acompanhados por disfunção sexual, referiram um agravamento das suas dificuldades neste período, devido a um receio de contacto com novos parceiros sexuais, por medo de contágio, ou devido a um componente psicogénico associado a toda a incerteza que se viveu nesse período.

Notou alguma diminuição de novos diagnósticos de disfunção sexual ou de casos suspeitos enviados pelos médicos de família ou de outras especialidades?

Sim, claramente durante este período ocorreu uma diminuição da referenciação de novos casos, muito provavelmente devido a uma secundarização da prioridade atribuída a estas patologias, tendo por base os motivos já referidos anteriormente.

Com o retomar da denominada atividade não-COVID, tem notado o crescimento da procura da consulta de Urologia para os casos de diagnóstico e tratamento de disfunções sexuais?

Sim, noto claramente um aumento da procura de consulta de Urologia tendo por motivo uma disfunção sexual. Pela minha análise dos casos, penso tratar-se de doentes em que esta patologia já estava presente de forma latente antes da pandemia e que, devido ao confinamento e uma convivência diária exigida a muitos casais, a problemática se tornou mais evidente, não podendo os membros do casal fugir deste problema.

A pandemia e o confinamento parecem ter obrigado muitos casais a procurar ajuda para os problemas relacionados com a sexualidade.

Que mudanças foram feitas no seguimento dos doentes diagnosticados com algum tipo de disfunção sexual que vieram para ficar, pelo menos nos tempos mais próximos? A Telemedicina e o acompanhamento telefónico vieram para ficar?

Penso que a Telemedicina, que antes da pandemia era pouco utilizada, constitui uma ferramenta que com a pandemia se tornou generalizada e que, provavelmente, veio para ficar.

No entanto em termos de acompanhamento de disfunções sexuais, não tenho a certeza da viabilidade da sua utilização generalizada.

A problemática das disfunções sexuais, é algo de muito íntimo e pessoal da vida dos doentes, e penso que estes irão sempre privilegiar o contacto pessoal e presencial com o médico que os vai ajudar.

RV/SO

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