“Os alunos de Medicina são atualmente treinados para evitar respostas rápidas e simples”

João Eurico da Fonseca, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), aborda, em entrevista, os desafios mais prementes da Educação Médica, num mundo em que as tecnologias são cada vez mais um auxílio. O responsável vê a mudança com naturalidade, mas alerta para se manter o humanismo. O responsável falou ao SaúdeOnline no âmbito do evento 10th Beyond MEd, que decorre entre 8 e 10 de novembro, em Lisboa.

Quais os principais desafios que enfrentam os estudantes de Medicina?

O ensino da Medicina foi classicamente centrado em grandes hospitais universitários e na transmissão de um conhecimento científico, combinado com uma dose variável de opinião pessoal dos mestres, naquilo que se confunde com um componente de arte.  Assumiu-se que depois desta mescla de conhecimentos técnicos e imersão em enfermarias em contacto com mestres clínicos teríamos como produto final um médico. Mas a Medicina mudou muito. A base científica continua fundamental, mas expandiu-se enormemente, muito para além do que um ser humano pode abarcar e com uma progressão constante que invalida a utilidade de um treino simples de memória. Por outro lado, a medicina atual não se compadece com “laivos artísticos” e está profundamente enraizada na evidência científica que justifica o diagnóstico e a terapêutica. Evidência essa permanentemente em evolução.

 

Os doentes também têm cada vez mais acesso a informação…

A Medicina infiltrou-se na comunidade. Primeiro, através de uma valorização crescente da prevenção e do diagnóstico e tratamento fora do ambiente das enfermarias, reservando os hospitais para as situações agudas e complexas. Segundo, através da enorme acessibilidade a informação médica de qualidade variável acessível a todos através da internet. Os doentes informam-se de forma complementar à interação com o médico e este tem de saber utilizar esta variável para a promoção da saúde e para uma maior efetividade do contacto com o doente. Por isso, o modelo de um médico opinativo e paternalista não encaixa numa nova realidade de uma medicina mais interativa e participada.

“Os estudantes de Medicina têm de se preparar para conviver com a IA no suporte à decisão médica e a novas formas de explorar a imagem em Medicina”

A formação médica atual já tem em conta esta conjuntura?

Os alunos de Medicina são atualmente treinados para evitar respostas rápidas e simples e conseguirem conviver com respostas complexas e incompletas. No fundo, adaptarem-se à incerteza das franjas do conhecimento humano. Perder o medo de fazer perguntas e não ter medo de respostas que deixam ainda mais perguntas no ar.

 

A tecnologia é outra área em que têm de estar cada vez mais preparados?

Os estudantes de Medicina têm de se preparar para conviver com a IA no suporte à decisão médica e a novas formas de explorar a imagem em Medicina, que se encontram neste momento em várias fases de desenvolvimento e expansão e que geram elas próprias mais dúvidas do que certezas.

Paralelamente, para além do conhecimento nuclear técnico (médico e tecnológico), necessitam de solidificar valores fundamentais. É essencial abraçarem e incorporarem os valores primordiais da empatia, compaixão e comportamento inclusivo, respeito pelos outros, honestidade, responsabilidade, credibilidade, profissionalismo e compromisso com a excelência. Os jovens médicos do século XXI têm de ser capacitados com a visão e a flexibilidade necessárias para uma vida profissional e pessoal em que tudo vai mudar, mas sem perderem a alma da prática médica, que é a interação humana.

MJG

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