19 Jun, 2024

Redes socias: quando afetam o nosso amor próprio

Artigo de Catarina Lucas, psicóloga e diretora do Centro Catarina Lucas, sobre o impacto das redes sociais.

A par do processo de expansão tecnológica, a forma como comunicamos e nos relacionamos alterou-se de forma muito significativa, tornando fácil e rápida a conexão a qualquer pessoa, em qualquer local. Apenas com um clique conectamo-nos ao mundo.

A tecnologia veio para ficar e não lhe podemos fugir, por isso, é quase obrigatório que nos ajustemos a ela e que retiremos benefícios. As redes sociais desempenham um papel relevante até em termos profissionais, sendo um recurso importante na forma como as empresas se relacionam e comunicam com os seus clientes, ou até como realizam os seus processos de recrutamento.

Se por um lado, esta facilidade de acesso e comunicação parece ser uma enorme vantagem, permitindo manter laços mesmo quando se está longe ou reviver amizades antigas, por outro lado, parece ter trazido também um vazio, configurando um paradoxo. A socialização e o contacto direto foram gradualmente substituídos pelas conversas, reuniões, jogos e até consultas online. Isto faz com que, aparentemente, estejamos rodeados de pessoas, quando na prática estamos sozinhos e fechados no nosso mundo.

Na população mais jovem, este impacto parece fazer-se sentir ainda com mais intensidade. Têm sido observadas dificuldades no relacionamento interpessoal e na socialização, parecendo existir uma perda de competências nesse domínio. Por exemplo, no campo amoroso e afetivo, quando existe interesse em se aproximar de alguém, usar a via online parece mais fácil. Contudo, surge depois a dificuldade em fazer esta aproximação numa situação real. As competências de socialização encontram-se muitas vezes diminuídas, sendo que as interações virtuais acabam por reforçar a manutenção destes comportamentos de isolamento. Nesta população é comum haver uma rede social com muitos “amigos”, mas na realidade, esse jovem se encontrar muitas vezes isolado.

Além do isolamento, há outro aspeto que tem gerado preocupação e que se prende com a comparação, induzindo nas pessoas um sentimento de inferioridade, motivado pela discrepância entre aquilo que cada um tem ou é e aquilo que é observado nas redes sociais. Este comportamento tem vindo a ser associado a um agravamento de quadros depressivos e de ansiedade, sendo um fenómeno que tem implicações severas na autoestima e no autoconceito das pessoas.

Tendencialmente, a imagem que vemos nas redes sociais é sempre de alegria, festas, férias, pessoas que cumprem treinos, planos alimentares, que praticam yoga, brincam com os filhos, entre tantas outras coisas que nós, por muito que nos esforcemos, não conseguimos sequer ficar perto. Não se trata apenas de pessoas bonitas ou felizes, trata-se também de pessoas que parecem ter tempo para tudo, ser muito saudáveis e disciplinadas, ser altamente motivadas, ter empregos interessantíssimos, ser excelentes pais e ter a casa sempre em dia.

É um mundo que não corresponde à realidade, pois no mundo real os problemas existem. Não acordamos arranjados, discutimos com os outros, não temos tempo para cozinhar e muito menos para fazer desporto. Há todo um lote de exigências que as redes sociais nos vendem, como se para sermos bem sucedidos tivéssemos que as cumprir todas. Quando tal não acontece gera-se um sentimento de culpa, de frustração, de inadequação e de inferioridade. Se não conseguimos ser e fazer aquilo que os outros mostram ser capazes de fazer, então assumimos que algo de errado se passa connosco, porque deveríamos ser capazes.

É também nas redes sociais que os discursos motivacionais proliferam, numa positividade tóxica que nos diz que “podemos tudo”, “está nas nossas mãos” ou “com persistência conseguiremos alcançar o sucesso”. Só que o mundo não é assim. Não, não podemos tudo. Não, não conseguimos tudo. Não se trata de limitar ou condicionar os nossos sonhos. Trata-se sim, de algum pragmatismo e realismo. As oportunidades não são as mesmas para todos, não somos todos iguais, não estamos todos no local certo e na hora certa e não temos todos as mesmas aptidões. É importante entender isto para evitar a frustração de algo que não foi alcançado, quando todos nos diziam que “podíamos tudo”.

Vendem-nos ainda discursos que somos a pessoa mais importante, que aquilo que os outros dizem não importa e outras ideias similares, levando-nos a acreditar que sozinhos conseguimos tudo, como se não fosse na relação com o outro que crescemos e somos amados.

É preciso ter cuidado e bom senso na utilização das redes sociais, porque na realidade cada um escolhe o que publica, bem como a imagem que quer transparecer aos outros. Lembremo-nos que muitas dessas imagens são estrategicamente pensadas e construídas para cumprir determinados objetivos. Muitas destas pessoas também têm frequentemente pensamentos difíceis de gerir, sentimentos de solidão mesmo quando estão em grandes eventos e rodeadas de pessoas. Trocariam tudo isso por sentirem que pertencem a um grupo, que os outros se preocupam e que está tudo bem em mostrarem-se tal como são. O mostrar a sua vida nas redes sociais surge com um mecanismo de satisfação imediata pelos likes e comentários elogiosos que elevam a autoestima ou até mesmo como um emprego. Mas, no fim do dia, o vazio torna-se cada vez maior.

A comparação é sempre algo injusto, na medida em que comparamos a nossa vida apenas num aspeto em específico (o que é mostrado), sem ter em conta todas as outras variáveis. Comparamos o nosso pior com o melhor das outras pessoas. A verdade é que nas redes sociais não temos acesso a tudo o que se passa na vida dos outros. Os seus pensamentos, sentimentos, problemas, dores. Todos temos a nossa história e é rara a partilha do desafio, do que é mais difícil, do que dói.

Assim, é importante alargar a nossa consciência para o que está por detrás do ecrã, compreendendo que as partilhas nas redes sociais são apenas uma parte da história de quem partilha, geralmente a parte que não gera medo e não envergonha.

 

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