29 Out, 2018

O que há de novo na gestão dos sintomas da Esclerose Múltipla

Da farmacologia ao papel dos hábitos saudáveis, tecnologia e realidade virtual

20th MS Nurse International Workshop – “A generation of evolution in MS nursing”

 

A enfermagem como área basilar nos cuidados aos doentes com Esclerose Múltipla

 

Na gestão da doença e do doente com EM é fundamental a existência de um modelo integral e em rede e, nesse aspeto, os enfermeiros assumem, cada vez mais, um papel que é essencial e basilar. Precisamente para celebrar “Uma geração de evolução na enfermagem na Esclerose Múltipla (EM)” foram muitos os profissionais de saúde que se reuniram, no passado dia 9, em Berlim, Alemanha, para a 20.ª edição do MS Nurse International Workshop.

Médicos, enfermeiros e doentes partilharam os seus conhecimentos e experiências sobre esta patologia, que tem crescido na sua complexidade, nomeadamente em termos de novos alvos de tratamento, de tecnologias que permitem estabelecer um diagnóstico mais eficaz e ainda na personalização na abordagem terapêutica.

“O que há de novo na gestão dos sintomas da Esclerose Múltipla”

 

Da farmacologia ao papel dos hábitos saudáveis, tecnologia e realidade virtual

 

“Quando pensar que esgotou todas as possibilidades lembre-se disto: Não esgotou.” Foi com esta citação, do inventor Thomas Edison, que a enfermeira Trudy Campbell, diretora da Unidade de Investigação em Esclerose Múltipla Halifax, da Universidade de Dalhousie, Nova Escócia, Canadá, inspirou a audiência do 20th MS Nurse International Workshop.

Numa comunicação intitulada “O que há de novo na gestão dos sintomas da Esclerose Múltipla”, a também enfermeira no Departamento de Neurologia do QEII Health Sciences Center e professora adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade de Dalhousie, começou por salientar que “quando estamos perante os nossos doentes devemos sempre pensar se existe algo mais que possamos fazer para melhorar a sua vida, nomeadamente com soluções farmacológicas, educacionais e tecnológicas”.

Segundo a especialista, este é “um caminho e um trabalho que ainda temos que fazer”. Na sua opinião, “é preciso olhar para além do NEDA (nenhuma evidência de atividade da doença) e independentemente da definição de NEDA de cada unidade de saúde, lembrar que existe um outro lado do doente que precisamos de conhecer, porque mesmo que alguém pareça muito bem, muitas vezes não significa que esteja bem”.

Para a enfermeira Trudy Campbell, “os sintomas neurológicos visíveis e invisíveis podem ser igualmente incapacitantes”, considerando que “na generalidade existe uma falta de consciência que o impacto cumulativo dos sintomas é mesmo muito importante e que temos que ter em conta todos eles para melhorar a qualidade de vida do doente”.

Além disso, como sublinhou, “as estratégias farmacológicas e não farmacológicas usadas em combinação produzem maior eficácia”.

Defendendo a “necessidade de tratamentos que sejam eficazes na melhoria da funcionalidade e qualidade de vida dos doentes”, Trudy Campbell lembrou que “a EM é o principal motivo para os sintomas do trato urinário inferior (STUI), LUTS do inglês Lower Urinary Tract Symptoms, na população neurológica” e que “uma pessoa em cada 10 tem LUTS na altura do diagnóstico da EM e passados 10 anos 100% têm LUTS, seja nos sintomas de armazenamento ou de esvaziamento”.

Como evidenciou a também professora universitária, “no final do dia, o mais importante é aliviar a pessoa, prestando cuidados individualizados para sintomas que são pessoais, porque cada um é um só”. Sabemos que são várias as formas de controlo sintomático, que incluem  medidas conservadoras, agentes farmacológicos, dispositivos médicos e escolhas de estilo de vida, mas, como observou, “as opções de um modo de vida mais saudável são muito mais paliativas para os doentes, principalmente na fase inicial da doença”.

Por isso, recomendou, “é importante que todas as enfermeiras estejam informadas sobre os assuntos, sejam eles científicos ou mais práticos, que digam respeito à EM”, até porque, como sublinhou, “nós, as enfermeiras, temos como papel interpretar informações para ajudar na decisão dos tratamentos que foram cientificamente demonstrados como seguros, eficazes e relevantes”.

O que há de novo?

Após enumerar as dificuldades sentidas na gestão sintomática, a especialista elencou algumas das imensas novidades relativamente ao tratamento dos sintomas da EM, nomeadamente soluções farmacológicas, educacionais e tecnológicas, ilustrando com estudos científicos realizados.

  • Exercícios para fortalecer a musculatura do pavimento pélvico

Segundo a oradora, os exercícios para fortalecer a musculatura do pavimento pélvico “têm demonstrado benefícios modestos, sendo que “o uso de mecanismos intravaginais para a estimulação nervosa da área apresentou um resultado mais positivo do que os exercícios por si só”. Contudo, como advertiu, os estudos nesta área ainda são com uma população muito pequena.

  • Inibição da fosfodiesterase

Um pequeno estudo com uma coorte de EM, com o inibidor da fosfodiesterase tipo 5, revelou uma diminuição da bolsa retovesical (RVP) e uma melhoria do fluxo máximo, considerando a preletora que “esta é uma área que requer mais investigação”.

  • Canabinoides

De acordo com a especialista, existem já muitos estudos sobre esta área de investigação que demonstram “uma diminuição da contratilidade do músculo detrusor e que existe uma redução dos LUTS tanto pelo uso do extrato de canábis como pelo ingrediente ativo na marijuana (THC) em comparação com o placebo”.

ü  Tratamentos intravesicais com toxina botulínica para a hiperatividade do detrusor neurogénico (NDO – Neurogenic detrusor overactivity)Quando falamos em toxina botulínica A, sabemos que existe uma diminuição significativa da incontinência urinária, uma melhoria da qualidade de vida através da inibição da atividade detrusora. Contudo, “existe um aumento do risco de retenção urinária e de ter de usar o cateterismo intermitente”, observou a enfermeira.ü Neuromodulação para a NDO através da estimulação nervosa da tíbia

Seja através da sua forma percutânea ou transcutânea a emissão de impulsos pode ter influencia na função da bexiga. De acordo com a oradora, são necessários de 50 a 20 tratamentos e possivelmente outros no futuro à medida que os efeitos se vão perdendo. Citando um pequeno estudo com 43 pessoas com incontinência fecal e que usaram este método de estimulação nervosa, Trudy Campbell informou que “estes revelaram menos problemas com a sua incontinência”, defendendo ser interessante “continuar a investigar esta área”.

  • Neuromodulação sacral para a NDO

Relativamente à estimulação do nervo sacral, também denominada neuromodulação sacral, a preletora salientou tratar-se de um método “muito eficaz, demonstrando ter uma taxa de sucesso de 84% na NDO e uma melhoria superior a 50% nos sintomas de esvaziamento da bexiga ou no uso de cateteres”. Contudo, este método “também levanta problemas no seu uso em geral pois precisa de ser realizada em centros especializados”.

  • Opções cirúrgicas

Quanto tudo falha, existem algumas opções cirúrgicas, como o aumento da bexiga, a cistectomia ou o desvio urinário.

  • Devices que ativam o nervo perianal

Sabe-se que os doentes que usaram este tipo de aparelhos conseguiram um melhor controlo na micção dos que os doentes que não os usaram, pensando-se que estes mecanismos possam ser realmente ser eficazes. “Esperamos ver mais novidades a este nível”, disse a enfermeira.

  • Realidade virtual

O uso da realidade virtual começa também a ser aplicado à Medicina e segundo Trudy Campbell, embora existam poucos estudos que medem o impacto dos exercícios de treino para melhorar a marcha e o equilíbrio em oposição ao tradicional treino feito com fisioterapeutas, “aqueles que se conhecem mostram que os doentes melhoraram significativamente a sua marcha e equilíbrio ao usar a realidade virtual, tendo um enorme impacto na qualidade de vida”.

  • Estimulação da língua

A estimulação elétrica da língua provoca um aumento do fluxo nervoso da área do cérebro responsável pelo equilíbrio. De facto, “este dispositivo, que me foi apresentado por um doente meu, pode ser usado no trabalho de reabilitação física ou cognitiva, usando o conceito da neuroplasticidade”, referiu a profissional.

  • Estimulação magnética transcranial

Está já disponível nos EUA para o tratamento da enxaqueca e, de acordo com a enfermeira, “poderá funcionar tendo como alvo determinadas áreas do cérebro” e, nesse caso, “ser benéficas para muitos sintomas da EM”. Contudo, foi realizado para já um único estudo, numa população pequena.

  • Intervenções psicológicas e mindfullness para a fadiga

Nesse aspeto que tanto incomoda os doentes, a oradora considera que as intervenções psicológicas são a primeira linha de terapia contra a fadiga relacionada à EM, recomendando ainda que “devem ser prescritos exercícios de mindfullness aos doentes e exercícios de relaxamento”.

Já quanto à suplementação com vitamina D3, foi citada uma metanálise que demonstra que “não há evidência” de que tenham qualquer papel na redução da fadiga.

CAIXA

“Prescrever estilo de vida”

“Tratar o doente como um todo e estar atento a todos os sintomas faz parte do nosso papel enquanto enfermeiros”, sumarizou Trudy Campbell. Desta forma, e para garantir um bom estado geral do doente ou de determinados sintomas, a enfermeira considera ser necessário começar a “prescrever estilo de vida”, pois, como afirmou, “uma boa alimentação, exercício e o envolvimento social e intelectual podem melhorar a função cognitiva”.

“Hábitos nutricionais saudáveis e exercício estão associados a menos fadiga, melhor sono, redução da dor e melhoria do humor e ausência de controlo nas fases mais progressivas da doença”, reforçou.

Teresa Mendes

PT/NONNI/0918/0052d

Aprovado em: 10/2018

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