25 Ago, 2022

“O acesso a Consultas de Nutrição no SNS é manifestamente insuficiente”

Em entrevista, a coordenadora da Licenciatura em Ciências da Nutrição da NOVA Medical School considera que o acesso no SNS ainda é limitado, "não só por a procura ser maior que a oferta, como também pelo facto de a procura ser ainda inferior à real necessidade".

Qual a dimensão do excesso de peso e obesidade em Portugal? Como têm estes indicadores vindo a evoluir e como nos comparamos com os países europeus?

Em Portugal, os dados do último Inquérito Nacional de Saúde (2019), divulgados pelo INE, indicam que 53,6% da população adulta portuguesa apresenta excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade), sendo que a obesidade afeta 1,5 milhões de pessoas (16,9%). A evolução do excesso de peso e da obesidade em Portugal entre 2005 e 2019 mantém uma tendência crescente, sendo a pré-obesidade mais prevalente no sexo masculino (42,2% vs 31,9%) e a obesidade no sexo feminino (17,4% vs 16,4%).

A estimativa padronizada para a idade, que permite uma comparação mais rigorosa entre países, apresentada no relatório da OMS “WHO European Regional Obesity Report 2022”, mostra que a prevalência de excesso de peso e de obesidade na população adulta portuguesa é inferior à média da Europa dos 13, Europa dos 14 e à média dos países da região Europeia da OMS.

Em Portugal dados de 2019 do COSI indicam que das crianças entre os 6 e os 8 anos apresentavam 29,7% apresentavam excesso de peso e 11,9% obesidade. Nos últimos 11 anos, o estudo COSI Portugal (2008 a 2019) tem vindo a demonstrar uma tendência ligeiramente invertida na prevalência de excesso de peso (incluindo obesidade). De 2008 para 2019 verificou-se uma redução de 8,2 pontos percentuais na prevalência de excesso de peso infantil (37,9% para 29,7%). Relativamente à prevalência de obesidade, verificou-se igualmente uma diminuição, de 15,3% em 2008 para 11,9% em 2019.

“A prevalência de excesso de peso e de obesidade na população adulta portuguesa é inferior à média da Europa”

A nível europeu, e de acordo com o relatório da OMS “WHO European Regional Obesity Report 2022” entre 1975 e 2016, a prevalência de excesso de peso e obesidade nas crianças dos 5 aos 19 anos de idade aumentou quase três vezes nos rapazes, e mais do que duplicou nas raparigas. O estudo COSI, demonstrou que 29% dos rapazes e 27% das raparigas entre os 7-9 anos vivem com excesso de peso ou obesidade.

Em crianças com menos de 5 anos de idade, 8% vivem com excesso de peso (incluindo obesidade). A prevalência é maior entre os 5 e os 9 anos, com 30% das crianças a viver com excesso de peso (incluindo obesidade). A prevalência diminui transitoriamente nos adolescentes, nos quais um quarto vive com excesso de peso (incluindo obesidade).

É preciso continuar o trabalho de sensibilização que tem vindo a ser feito no sentido de promover uma alimentação saudável e um estilo de vida mais ativo? Para além disso, que outras ações são necessárias de modo a combater a obesidade?

Estaremos a falar de estratégias de prevenção das doenças mais associadas aos estilos de vida adotados nos últimos 50 anos, além da obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, o cancro, entre muitas outras. É emergente intervir ao nível da literacia em saúde e muito particularmente em alimentação. Dar ao cidadão competências de modo que, de forma consciente, tome decisões, faça escolhas. Mais do que explicar o que é alimentação saudável, o cidadão deve compreender que escolhas de hoje, estilo de vida de hoje, tem necessariamente implicações na saúde de amanhã. E, sobretudo, de acordo com as suas vulnerabilidades, poder prevenir e adotar medidas que potenciam a sua saúde. Na verdade, somos um país onde vivemos mais anos, mas ainda não com saúde.

Para isto seria necessário ter os licenciados em Ciências da Nutrição em vários setores, desde influenciadores de políticas na área da produção primária, da indústria alimentar, da restauração coletiva, a mais licenciados a exercer nutrição clínica, tanto ao nível da prevenção, nos cuidados primários, como ao nível da intervenção nutricional nos doentes em internamento hospitalar ou em ambulatório, e ainda ao nível do desporto.

O mind set da população ainda não está centrado no cuidado e na prevenção”

 

A DGS identificou a alimentação como prioridade quando criou um dos programas prioritários, o PNPAS (Programa Nacional Promoção de Alimentação Saudável) e mais recentemente um outro para o exercício físico. Este esforço deve ser acompanhado de um alinhamento em vários setores.

Como avalia o acesso a consultas de nutrição em Portugal? O que se poderia fazer para melhorar este aspeto?

Este ponto é crítico. O acesso a Consultas de Nutrição no Serviço Nacional de Saúde é manifestamente insuficiente. Não só por a procura ser maior que a oferta, como também pelo facto de a procura ser ainda inferior à real necessidade.

O mind set da população ainda não está centrado no cuidado e na prevenção. A sociedade funciona com o recurso aos cuidados de saúde num registo de ‘direito’ à saúde e menos num registo de dever do cuidado da saúde. Idealmente uma Consulta de Nutrição devia permitir estudar de forma precisa e individual as condições de cada indivíduo para que este seja capaz, com as competências necessárias, de adotar um estilo de vida condizente com os seus padrões de saúde… Estaremos no caminho, mas ainda distantes de lá chegar!

As Consultas de Nutrição fora do Serviço Nacional de Saúde são uma opção. Falta fazer ainda muito no acesso, por disponibilidade de nutricionistas, mas também, ou sobretudo, pela necessidade de reconhecimento por seguradoras da importância dos serviços prestados e respetivo impacto em índices de saúde. O que até pouparia muito a seguradoras! Sobre este tema, dois tópicos a reforçar: a necessidade de identificar o nutricionista pelo seu registo na Ordem dos Nutricionistas, identificado sempre com um número da Ordem; a elevada expectativa que todos temos com a recente criação da especialidade de Nutrição Clínica dentro da Ordem dos Nutricionistas e da recente eleição do colégio de especialidade. A criação da Licenciatura de Ciências da Nutrição numa escola médica, NOVA Medical School, em 2018, está alinhada com uma visão de formação de profissionais de saúde preparados para tratar e prevenir os principais problemas de saúde da atualidade. Para trabalharem em equipa, para articularem e discutirem ideias. Muito importante poder intervir quer com terapêutica farmacológica (médico), quer com terapêutica não farmacológica, como é a nutricional (nutricionista).

Considera que é necessário formar um maior número de nutricionistas em Portugal e melhorar a qualidade da formação destes profissionais?

Para esta pergunta existem duas respostas. Considerando as vagas, podemos não ter de licenciar mais, mas claramente melhor. Por outro lado, onde o nutricionista acrescenta valor é nas necessidades que não estão ainda reconhecidas nas mais diferentes áreas da sociedade. Assim, considero que são necessários mais e melhores profissionais, capazes de criar valor, diferencial e com isso, e de forma natural, criar as oportunidades que acontecerão por imposição da própria sociedade ou por conquista dos que já são ou dos que serão nutricionistas.

“Considero que são necessários mais e melhores profissionais”

Recordo que o mercado de trabalho que temos hoje era ainda uma quimera há uns poucos anos atrás. São os nutricionistas que já têm colocação no mercado de trabalho e académico que muito podem e devem contribuir para a responsabilidade de criar mais oportunidades, e não o contrário. A formação universitária dos nutricionistas deve ser cada vez mais exigente. Seja em ambiente público, seja privado. A qualidade das licenciaturas deve ser pautada por uma maior exigência. Como? Criando ambientes de investigação, de saber pensar e de saber fazer, com as oportunidades de treino em ambiente clínico, de indústria, de saúde pública ou comunitária, de restauração coletiva, de desporto, e de muitas outras que vão surgindo. As necessidades da sociedade de hoje podem não ser as de amanhã. Os nutricionistas que terminam a licenciatura em Ciências da Nutrição devem também ter competências na área do empreendedorismo e ainda da sustentabilidade. Precisamos sobretudo de formar os próximos de líderes de opinião.

De que forma a Nutrição enquanto ciência pode ajudar a criar uma sociedade mais saudável?

Se pensarmos nas prioridades identificadas nos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, conseguimos compreender de forma objetiva e clara o quanto as Ciências da Nutrição são parte da solução.

Acabaram recentemente a formação os primeiros alunos do curso de Nutrição da Nova Medical School. Quais os motivos/razões que levaram a NOVA criar uma licenciatura nesta área, que a Prof.ª coordena? que necessidades se pretendem colmatar?

Houve razões institucionais e razões pessoais. No que se refere às institucionais, enquanto escola de Ciências Médicas, era estratégico alargar a oferta formativa, não só a médicos, mas também a nutricionistas. Assim, a NOVA Medical School abraçou a inovação ao criar a oportunidade de formar dois profissionais em paralelo, que falam a mesma linguagem, que são capazes de no mesmo doente trabalhar de forma sinérgica através de fazer uma intervenção médica farmacológica e de uma intervenção no estilo de vida..

Na expectativa de que este ambiente de colaboração, desde o ensino, proporcione aos futuros médicos o reconhecimento das competências do nutricionista e permita a estes últimos sentirem-se mais capacitados a implementar diariamente cuidados integrados, prestados em equipa. Paralelamente, esta presença visa aumentar os conhecimentos médicos em alimentação e em nutrição. Esta tem sido a minha área de investimento desde que fiz a agregação na faculdade de medicina do Porto em 2010. Nos Estados Unidos da América este tema foi explorado nos anos 80 do século passado. No entanto, a discussão na Europa chegou só neste século. Em Portugal, ainda não temos um claro investimento na formação dos médicos na área da nutrição. Não é que devam fazer intervenção. Mas devem conhecê-la e estarem mais bem preparados para identificar a necessidade e o impacto que poderá ter. Da mesma forma, os estudantes de Ciências da Nutrição estudam farmacologia. Não para fazerem a prescrição de fármacos, mas para servirem adequadamente as pessoas a que prestam cuidado, conhecendo as interações alimento-medicamento e compreendendo o quadro clínico na sua totalidade. No que diz respeito a razões pessoais, quando em 2016 decidi abraçar o desafio de vir para a NMS ensinar Nutrição, não vim apenas leccionar no mestrado integrado de medicina (o que já fazia desde 1995 na Faculdade de Medicina do Porto). Vim, acima de tudo atrás de uma visão estratégica de futuro no ensino da saúde, na qual acredito e que é corporizado no projeto de desenvolvimento da NMS.

SO

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