MGF Além Fronteiras. “Sempre foi nosso objetivo criar e ter umas Jornadas com temas além do habitual”

A 3.ª Edição das Jornadas MGF Além Fronteiras vão realizar-se nos dias 27 e 28 de abril, em formato híbrido, em São Félix da Marinha (Vila Nova de Gaia). Mafalda Borda d’Água é Presidente da comissão organizadora da Associação MGF Além Fronteiras, aborda, em entrevista, alguns dos temas que serão discutidos, como dependência de ecrãs e violência doméstica.

Qual a relevância deste evento para os internos de formação específica de MGF?

Sempre foi nosso objetivo criar e ter umas Jornadas com temas “além do habitual”, daí também a escolha do nosso nome, que nos caracteriza e que é a nossa identidade. Assim, com as Jornadas MGF Além Fronteiras pretendemos realmente abordar temas do nosso dia-a-dia que não costumam ser falados noutros congressos, de modo a capacitar os médicos de família na abordagem holística e mais completa ao doente. Deste modo, este evento torna-se não só relevante para a formação de qualquer médico interno de formação específica de MGF, como também para a atualização de conhecimentos de médicos especialistas em MGF. Consequentemente, planeamos ir ao encontro das expectativas dos médicos internos e especialistas em MGF, proporcionando oportunidades para alcançar os seus objetivos formativos durante e após o internato médico.

“… a dependência virtual é certamente um tema pouco abordado em consulta, devido à limitação do tempo, apesar de ser bastante frequente na nossa população”

Vão abordar diversos temas. Um deles tem a ver com a dependência virtual no jovem. Quais são os principais desafios que os médicos de família enfrentam perante este problema de saúde?

O primeiro desafio pretende-se no tempo para abordar este tema na consulta. Depois na falta de formação nesta área, já que é um tema relativamente recente e que na nossa formação é pouco discutido. Além disso, é sempre um desafio quando temos que informar as crianças e os jovens que existe um tempo limitado de exposição diária a ecrãs (3h/dia) e como isso pode ser prejudicial, quando nós próprios estamos facilmente 8h/dia à frente de um computador. Ou que devem praticar mais exercício físico e até socializar, quando nós próprios estamos também cada vez mais sedentários e com pouco tempo para estarmos com outras pessoas, dado a nossa exigência e carga horária profissional diárias.

Portanto, os desafios e as dificuldades existem, claramente. E, por isso, penso que esta sessão sobre a dependência virtual irá certamente ser uma sessão diferente e interessante, onde vamos conseguir capacitar mais os médicos de família a estarem mais atentos a esta problemática e também saberem lidar com ela, ganhando assim mais competências nesta área, de modo a prevenir e a diminuir a sua prevalência.

Deveria haver mais tempo para falar com os jovens e também ajudar a família a lidar com este problema?

Claro. O tempo em consulta é o principal desafio. E, sendo a adolescência, na minha perspetiva, uma fase crucial na vida de cada pessoa, era importante que os médicos de família tivessem realmente tempo em consulta para abordar tudo que aquilo que aprendemos na nossa formação e que deve ser realmente falado e discutido numa consulta de saúde infanto-juvenil. Apenas deste modo é possível prevenir o aparecimento de patologias e de comportamentos de risco – não fosse a Medicina Geral e Familiar a medicina mais preventiva “de todas” -, e de diminuir tanto a sua incidência, como a sua prevalência.

Como tal, a dependência virtual é certamente um tema pouco abordado em consulta, devido à limitação do tempo, apesar de ser bastante frequente na nossa população. Consequentemente, é também necessário tempo para ajudar a família a lidar com este problema, bem como saber que estratégias e recursos existem para auxiliar as famílias a lidar com esta situação e ainda saber quando e como referenciar. Além disso, era também preciso tempo para dar formações nas escolas e aos encarregados de educação, e ainda à população em geral, de modo a aumentar a literacia em saúde.

“… há certamente um maior número de casos de violência doméstica nas famílias portuguesas e na lista de utentes de cada médico de família do que os números oficialmente publicados”

A violência doméstica é outro tópico em destaque. EM MGF deve-se investir mais na identificação de casos?

Penso que sim, até porque há certamente um maior número de casos de violência doméstica nas famílias portuguesas e na lista de utentes de cada médico de família do que os números oficialmente publicados. Mas não deve ser só em MGF. Seria importante investir-se em qualquer área da Medicina, nos estudantes de Medicina, nos enfermeiros, nos estudantes de Enfermagem, etc. É importante capacitar os profissionais de saúde nesta área e rastrear estas situações; conhecer e estar atento a sinais de alarme; aprender a abordar e a falar sobre o tema; conhecer o nosso papel e a nossa função como médicos de família e/ou como profissionais de saúde; saber que recursos existem e saber como podemos ajudar a vítima de violência doméstica e os demais envolvidos. E, mais uma vez, referindo-me novamente à MGF, durante a nossa formação, esta temática não é abordada, pelo que há certamente muitos médicos internos (e até especialistas), que infelizmente tal como eu, desconhecem a melhor forma de gerir estas situações em consulta e que podem sentir-se perdidos na sua abordagem.

 

Quais as principais dificuldades que se enfrentam na prática clínica para ajudar as vítimas?

Pessoalmente, a principal dificuldade é na abordagem prática destas situações. Por exemplo, não saber legalmente como posso defender a vítima de violência doméstica em causa; não saber legalmente qual é o meu papel; não saber como ajudar realmente a vítima e sentir que não posso/consigo fazer nada ou quase nada; não saber que recursos existem; não saber se até poderei (ou deverei) fazer uma queixa ultrapassando a confidencialidade médica, etc. Portanto, são uma data de questões que muitos médicos se podem deparar no seu dia-a-dia, que nunca viram esclarecidas, e, por isso, esta mesa-redonda poderá ser uma ferramenta útil na prática clínica diária de muitos médicos de família.

“… a ideia é manter estes eventos, no formato online, de forma a chegar mais longe e a mais pessoas”

A Associação tem tido várias iniciativas. Vão manter a realização de eventos em diferentes regiões do país?

Fundamentalmente, a Associação MGFAF nasceu com o intuito de valorizar a dinâmica entre todos os seus membros e contribuir para a melhoria da formação do Internato Médico de MG e da qualidade dos cuidados de saúde primários prestados à população portuguesa. Por isso, sim, a ideia é manter estes eventos, no formato online, de forma a chegar mais longe e a mais pessoas. E digo “pessoas” referindo-me tanto a médicos, através das Jornadas MGF Além Fronteiras e dos Cursos Além Fronteiras, bem como à população geral, através do Projeto Saúde Além Fronteiras, que surgiu com o principal objetivo de promover a literacia em saúde, desmistificando alguns mitos e aproximando também os utentes dos médicos de família e dos cuidados de saúde primários.

Assim, temos realizado sessões gratuitas de Educação para a Saúde, as “Conversas Certeiras” do Projeto “Saúde Além Fronteiras” num ambiente descontraído e informal, sobre variados temas de saúde em geral, com interesse para todos. É um espaço onde todos podem colocar as suas dúvidas, esclarecer mitos e factos, fazer comentários, sem medos ou tabus. Todas as sessões até agora realizadas aconteceram em formato online e em direto, em língua portuguesa, sendo que todos os interessados acedem à mesma através da nossa página do Instagram (@mgfalemfronteiras). Todas as “Conversas Certeiras” são gravadas com a devida autorização dos seus interlocutores e são posteriormente partilhadas nas nossas redes sociais para poderem ser vistas e revistas em diferido. Normalmente estão sempre dois profissionais de saúde à conversa, um médico pertencente à Comissão Organizadora (médicos internos de MGF) e outro profissional por nós convidado.

LUSA

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