No atual contexto de pandemia, a Direção-Geral da Saúde recomenda que todos os doentes que chegam aos hospitais sejam considerados suspeitos de COVID-19. «O médico, quando aborda o doente, deve estar com equipamento de proteção», lembra a Prof.ª Catarina Fonseca. «Depois de asseguradas as condições de segurança, o doente com suspeita de acidente vascular cerebral deve ser avaliado para determinar se existem alterações ou défices neurológicos, seguindo-se a realização de exames de imagem que comprovem e suportem, ou não, o diagnóstico».

A especialista realça que, neste momento, «apesar de ser essencial identificar corretamente e proporcionar os melhores cuidados de saúde aos doentes com COVID-19, também é importante não esquecer outro tipo de patologias que têm uma elevada morbilidade e mortalidade». Nesse sentido, e apesar de ser uma altura difícil, «não podemos descurar o tratamento do acidente vascular cerebral, que não só é possível de ser prevenido como tratado».

Hoje em dia «não existe qualquer evidência de que os doentes com acidente vascular cerebral, por terem a COVID-19, não beneficiem dos tratamentos preconizados, como a trombólise endovenosa ou a trombectomia mecânica».

Hipertensão arterial é o principal fator de risco

Ao nível da prevenção, existem limiares, estabelecidos nas Normas de Orientação Clínica, a partir dos quais se deve começar a tratar a hipertensão arterial, principal fator de risco para o acidente vascular cerebral. «Num indivíduo que já sofreu um AVC, esses valores são geralmente mais baixos».

A Prof.ª Catarina Fonseca assinala que, «dependendo do escalão em que a pessoa se encontra, poderá haver indicação para utilizar uma combinação fixa de anti-hipertensores mas, geralmente, começa-se com apenas um fármaco, seguido de monitorização para verificar se, de facto, o doente mantém os valores de pressão arterial controlados».

Neste âmbito, «é fundamental assegurar a adesão terapêutica». Antes de adicionar outro anti-hipertensor, «temos de ter a certeza que o doente toma o medicamento como nós o prescrevemos».

Técnicas não invasivas revolucionaram o tratamento do AVC

Em 2015 «verificou-se a introdução da trombectomia mecânica em doentes com oclusão aguda de grande vaso intracraniano e, hoje em dia, apesar de não ser uma indicação formal, também nas tromboses da artéria basilar». Até então «fazíamos trombólise endovenosa, com janelas fixas, ou seja, até às 4 horas e meia de evolução».

Na atualidade, «considera-se que não existem janelas estanques no tempo, uniformes para todas os doentes, o que fez com que avançássemos muito no caminho da medicina personalizada».

Quando um indivíduo chega ao hospital com sintomas de acidente vascular cerebral, «mesmo que já esteja um pouco fora das janelas temporais estabelecidas nos ensaios clínicos, com a utilização de métodos de imagem cerebrais avançados, tais como a ressonância de difusão ou TAC de perfusão, é possível saber se ainda existe tecido que pode ser salvo e se os doentes podem beneficiar de trombólise endovenosa (até às nove horas) ou de trombectomia mecânica».

No que diz respeito aos sobreviventes, as preocupações major são «evitar a recorrência do acidente vascular cerebral» e «a reabilitação do doente».

Além de fármacos anti-trombóticos, destinados a impedir a recorrência de AVC, a especialista assinala a importância da adoção de estilos de vida saudáveis, bem como o controlo da hipertensão arterial, da glicémia e dos lípidos, através da utilização, sempre que necessário, de fármacos anti-hipertensores, anti-diabéticos e estatinas, respetivamente.

Em contrapartida, no domínio da reabilitação, e apesar do elevado número de ensaios clínicos, «não existem fármacos que tenham mostrado melhorar, de facto, a plasticidade neuronal ou a reabilitação motora».

SO

ler mais