Mesmo na doença de Alzheimer, há uma categoria cognitiva que “resiste”: a dos alimentos

A Cognição alimentar é resiliente. É pelo menos isso o que revelam os resultados de um estudo realizado por investigadores da Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati de Trieste, Itália (SISSA), publicado hoje numa edição especial do prestigiado "journal Brain and Cognition"

Foto: Brian Fuller

A Cognição alimentar é resiliente. É pelo menos isso o que revelam os resultados de um estudo realizado por investigadores da Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati de Trieste, Itália (SISSA), publicado hoje numa edição especial do prestigiado “journal Brain and Cognition”, totalmente dedicada à neurociência cognitiva dos alimentos. O estudo dirigido por Raffaella Rumiati, especialista em categorização semântica de alimentos, analisa os deficits léxico/semânticos da categoria dos alimentos em indivíduos com doenças neurodegenerativas como a de Alzheimer.

Os resultados alcançados mostram que o conhecimento sobre os alimentos é mais preservado do que outras categorias de estímulos, mesmo no caso de síndromes graves. Mais: que a perceção de ingestão calórica condiciona a capacidade de uma pessoa se recordar do nome de um alimento; que quanto mais calorias o alimento tiver, melhor preservado será em termos cognitivos.

Raffaella Rumiati, sugere que talvez seja por ser tão crucial para nossa sobrevivência, que o conhecimento lexical e semântico relacionado com os alimentos é relativamente bem preservado, mesmo em doenças que levam a um declínio geral na memória e cognição, como o Alzheimer e a afasia progressiva primária.

A investigadora e a sua equipa da SISSA, em colaboração com Caterina Silveri da Universidade Católica Agostino Gemelli, de Roma, observaram o fenómeno ao testar o desempenho cognitivo de dois grupos compostos por indivíduos com doenças neurodegenerativas e um terceiro grupo de pessoas saudáveis, em tarefas associadas ao reconhecimento visual de alimentos e compreensão.

“Não é surpreendente que os alimentos resistam até mesmo ao declínio cognitivo generalizado” confessa Raffaella Rumiati, para logo acrescentar: “é fácil imaginar o quanto a pressão evolutiva terá condicionado o aumento da capacidade dos processos cognitivos associados ao reconhecimento rápido daquele que será, provavelmente, o estímulo mais importante para a sobrevivência”. Outro facto revelado pelo estudo que apoia a supremacia da “cognição alimentar” foi o de que que nos três grupos – pacientes e controle – a informação sobre os alimentos ter sido melhor processada do que a “não alimentar”. O que Rumiati associa ao facto de os nomes dos alimentos serem adquiridos no início da vida.

No decurso do estudo, o grupo de investigadores descobriu um outro aspeto interessante: a perceção da ingestão calórica de cada alimento é proporcional à força com que reconhecemos os seus nomes. Quanto mais calórico é o alimento, melhor preservado é. “Este fenómeno pode estar intimamente relacionado com o que referi atrás: quanto mais nutritivo for o alimento, mais importante será reconhecê-lo”.

O trabalho de Rumiati e colegas surge da necessidade de expandir o conhecimento sobre o assunto: “Pode parecer estranho, mas a verdade é que não há muitos estudos sobre cognição alimentar. E o tema só começou a cativar a atenção da comunidade científica nos últimos anos…. O que justificou a edição especial da revista Brain and Cognition”, conclui Rumiati.

Informação bibliográfica:
Brain and Cognition
Volume 110, December 2016, Pages 120–130
Raffaella I. Rumiati, Francesco Foroni, Giulio Pergola, Paola Rossi, Maria Caterina Silveri

http://dx.doi.org/10.1016/j.bandc.2016.08.007

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