17 Mar, 2017

Merck KGaA aposta na investigação portuguesa

A multinacional alemã desenvolve medicamentos em Portugal e quer continuar a apostar numa relação que também serve de ponte para outros países que têm o português como língua oficial.

A multinacional farmacêutica Merck KGaA considera Portugal um mercado importante, não pela sua dimensão, mas pelas parcerias, porque funciona como ponte para os mercados dos países que também falam português e pelo investimento em investigação. E esta é uma relação para continuar e ser reforçada, garantiu ao SaúdeOnline o presidente da empresa germânica, em Darmstadt, na Alemanha, sede da empresa.

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Stefan Oschmann, CEO da Merck KGaA

“Para além da comercialização dos nossos produtos, temos excelentes parcerias com instituições portuguesas, como o Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica e as fundações Gulbenkian e Champalimaud, particularmente na área das neurociências”, afirmou Stefan Oschmann, apontando que se trata de uma “cooperação que se estende, a partir de Portugal, aos países de língua portuguesa, como o Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor”.
A Merck é o maior grupo europeu de biotecnologia e divide a sua operação em três diferentes áreas: Healthcare, Life Science and Performance Materials. No caso de Portugal, as parcerias são estratégicas para o desenvolvimento de novos medicamentos.
O Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), com o qual a multinacional alemã colabora desde 1997, é o único fornecedor da Merck de cristais de proteínas. Anualmente, produz para a multinacional alemã entre 450 a 600 cristais de diferentes proteínas e seus complexos obtidos através de uma técnica denominada cristalografia de raios-X. Estes cristais são utilizados no desenvolvimento de medicamentos dirigidos a alvos específicos, que podem ser uma proteína de uma bactéria causadora de infeções, ou uma proteína humana envolvida no desenvolvimento de tumores cancerosos ou outras doenças, como a diabetes. A informação estrutural obtida através desta técnica permite desenhar modificações sucessivas à molécula, de uma forma informada e racional, poupando muitos recursos e obtendo, no final, uma molécula altamente eficaz e específica para o alvo terapêutico que se pretende atingir.
No ano passado, o volume de investimento da Merck em projectos de investigação desenvolvidos no IBET ultrapassou o milhão de euros.
Também em parceria com o IBET, está a ser desenvolvido um projeto pioneiro de combate à malária, que conta com um financiamento inicial de 500 mil euros. O objetivo é encontrar medicamentos que atuem na fase hepática da infeção, ou seja, quando o parasita ainda está no fígado, antes de começar a destruir os glóbulos vermelhos do sangue. O projeto conta ainda com a colaboração do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa. Trata-se de um trabalho inovador, uma vez que não existem atualmente modelos laboratoriais que permitam o estudo desta fase do ciclo da infeção.
Questionado sobre se as dificuldades que marcam o setor farmacêutico em Portugal, particularmente no que toca à aprovação e comparticipação de medicamentos e aos prazos de pagamento por parte do Estado poderiam levar a empresa – à semelhança do que já aconteceu com outras multinacionais farmacêuticas – a concentrar as suas operações em Espanha, Oschmann garantiu que essa possibilidade não estava a ser equacionada.
“Temos excelentes relações com as instituições portuguesas, por um lado, e, por outro, pensamos que as especificidades de cada mercado aconselham a existência de uma organização dedicada em cada país”, explicou.
A Merck é a mais antiga farmacêutica do mundo, que no próximo ano comemora 350 anos de existência e que conta, a nível global, com cerca de 50 mil colaboradores.

Ano de sucesso permitiu lucro recorde

A multinacional germânica viu as vendas, o EBIT e o lucro aumentarem a ritmos de dois dígitos, com compras e crescimento orgânico.

A farmacêutica Merck KGaA fechou 2016 com resultados positivos, em crescendo, depois de anos de alguma aparente estagnação. “[Foi] um ano de sucesso para a companhia”, afirmou Stefan Oschmann, presidente executivo da empresa alemã, na conferência anual de apresentação de resultados, em Darmstadt, na Alemanha, sede da empresa.
As vendas do grupo cresceram 17%, para 15 mil milhões de euros; os resultados antes juros e impostos (EBIT) aumentaram 18,3%, para 2,18 mil milhões de euros e os resultados líquidos subiram 46%, para um recorde de 1,62 mil milhões de euros.
As previsões da empresa apontam para um desempenho positivo também em 2017, ainda que com um ritmo de expansão mais moderado.
Este bom desempenho da Merck resulta da conjugação de uma evolução positiva nas três áreas de negócio da multinacional: Healthcare (medicamentos), Ciências da Vida (soluções e reagentes para investigação de proteínas e biologia celular, bem como produtos e serviços para o desenvolvimento de agentes biofarmacêuticos) e Performance Materials (de onde se destacam os cristais líquidos, em que a empresa é responsável por mais de 60% da produção mundial).
Mas fica a dever-se, sobretudo, ao impacto da integração da Sigma-Aldrich, fabricante americano de componentes químicos e de técnicas de laboratório, adquirida pela Merck em 2015, por cerca de 17 mil milhões de dólares (cerca de 16 mil milhões de euros), a maior aquisição da história da empresa.
Recorde-se que com a compra, em 2006, da suíça Serono, a Merck tornou-se o maior grupo de biotecnologia da Europa.
Nas áreas de Healthcare e Ciências da Vida, o crescimento orgânico de 4,6%, na primeira área, e de 6,3%, na segunda, em 2016 face a 2015, teve como motor o incremento das vendas – particularmente nos EUA – de produtos para o tratamento da infertilidade, bem como de terapias para carcinomas basocelulares e do Xalkori, fármaco indicado no tratamento de primeira linha de adultos com cancro do pulmão de não-pequenas células comercializado em parceria com a Pfizer.

Merck Logo
Outro contributo veio do fim do pagamento de direitos sobre o Kuvan, medicamento indicado para o tratamento da hiperfenilalaninemia associada à fenilcetonúria – comercializado em parceria com a BioMarin Pharmaceutical – e sobre o Rebif, terapia líder de mercado no tratamento da esclerose múltipla recidivante, comercializado em co-marketing também com a Pfizer.
Mas mais do que os resultados de 2016, são as expectativas para 2017 que animam a gestão de topo da multinacional alemã, particularmente na área farmacêutica, com medicamentos prestes a chegar ao mercado. Um deles é a Cladribina, fármaco para o tratamento da esclerose múltipla, cujo pedido de autorização de introdução no mercado foi já validado pela Agência Europeia do Medicamento (EMA).
Também este ano, a Merck espera poder iniciar a comercialização do Avelumab, um medicamento desenvolvido em parceria com a Pfizer, para o tratamento de pacientes com carcinoma metastático de células de Merkel (CCM). O novo fármaco, recebeu da autoridade americana do medicamento (FDA, na sigla inglesa) as designações de terapia inovadora disruptiva e de medicamento órfão tendo-lhe ainda sido concedido o estatuto de avaliação prioritária, “o que permite prever para breve uma decisão daquela entidade reguladora”, afirmou ao Económico Petra Wicklandt, diretora global de Desenvolvimento Químico e Farmacêutico da Merck. O potencial da nova terapia é enorme: durante a Reunião Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), em junho e 2016, foram apresentados 14 abstracts com dados do Avelumab para sete tipos diferentes de cancro, incluindo duas apresentações orais. Mas é no tratamento do carcinoma metastático de células de Merkel (CCM) que se centra atualmente a aposta da Merck no novo produto. “Como atualmente não existem tratamentos aprovados para este tipo de cancro raro e agressivo, estes dados clinicamente significativos representam um avanço para este tipo de tumores de difícil tratamento”, explicou ao Jornal Económico Luciano Rossetti, Diretor Global R&D da companhia.
O pipeline da companhia, inclui ainda 11 compostos em ensaios de fase I e seis em ensaios de fase II.

Miguel Mauritti – SaúdeOnline

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