16 Abr, 2020

Mais de 60% dos casos suspeitos em profissionais de saúde sem vigilância ativa

Apenas um quarto realizou o teste nas primeiras 24 horas, revela um inquérito da Escola de Saúde Pública.

Os dados dizem respeito ao primeiro questionário feito aos profissionais de saúde pelo Barómetro Covid-19, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), que decorreu entre os dias 02 e 10 de abril e obteve 4.212 respostas de médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, assistentes operacionais, farmacêuticos, nutricionistas, psicólogos e os profissionais dos laboratórios.

Destes, 36,7% trabalham em áreas dedicadas ao tratamento de doentes ou suspeitos covid-19, nomeadamente em cuidados de saúde primários (39,1%), urgências (31,8%), enfermarias (21,7%), Cuidados Intensivos (12,6%) e em outros locais (19,5%).

“A realidade concreta aponta para que mais de 10% de todos os infetados sejam profissionais de saúde que, para além de constituir um grupo de risco específico quando a doença é contraída na prestação de cuidados aos doentes pode, na atual fase pandémica, também constituir potencial risco para os seus contactos”, afirma Florentino Serranheira, coordenador do estudo do Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP.

O estudo observou 13,6% de casos suspeitos, com destaque para os enfermeiros (35,1%) e os médicos (18,9%).

“No entanto, apenas 38,6% foram submetidos a vigilância ativa por parte das entidades responsáveis, os Serviços de Saúde Ocupacional e/ou as autoridades de saúde, destacando-se que, entre os que trabalham em área de doentes covid-19, somente 40% foram vigiados de forma ativa”, sublinha.

34.1% dos participantes não fez a automonitorização diária dos sintomas, medida que consta desde 21 de março das orientações da Direção-Geral de Saúde.

No grupo dos assistentes operacionais essa percentagem atinge 46,7%, representando também 15% de casos suspeitos.

Dos testados (73,3%), apenas um quarto fez o teste nas primeiras 24 horas, sendo que quase 30% o fez mais de 72 horas após a suspeição, alguns dos quais a trabalhar em área dedicada
à covid-19. Foram positivos 64 profissionais de saúde.

Relativamente às condições de trabalho, o estudo destaca a ausência de apoio dos Serviços de Saúde Ocupacional em mais de um terço dos inquiridos (38,4%), o que, segundo Florentino Serranheira, “é revelador das fragilidades organizacionais em Saúde Ocupacional, ou mesmo a sua inexistência”.

A disponibilidade de equipamentos de proteção individual, como máscaras, viseiras, luvas, é classificada como moderada para 47,7% dos profissionais e como insuficiente para 30,5%.

Quando analisadas as respostas dos profissionais que trabalham em áreas covid-19, quase metade considera a disponibilidade destes equipamentos mais adequada e 24,7% insuficiente.

“A presença de fadiga é referida como moderada a elevada por 76,7% dos profissionais que, apesar do elevado nível de pressão em que se encontram (65,1%), ainda se sentem em condições para tomar decisões rápidas no contexto da prestação de cuidados (87%) e afirmam poder contar com um bom suporte dos colegas (84,6%)”, refere o estudo.

Apenas 2,2% dos inquiridos apresentam níveis de ansiedade normais, com 68,8% a apresentar valores acima dos considerados normais.

Os médicos são os que apresentam maiores níveis de ansiedade, embora essa diferença não seja significativa. Em áreas dedicadas ao novo coronavírus, os valores mais elevados são reportados nos cuidados primários (35,4%) e nas urgências hospitalares (18%).

SO/LUSA

 

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