9 Nov, 2021

Hospitalizados por AVC e enfarte diminuíram em Portugal por receio da pandemia

Tendência de decréscimo em 2020 registou-se em outros países como França, Itália, Alemanha, Espanha e Estados Unidos.

O número de pessoas hospitalizadas por enfarte e AVC diminuiu em Portugal em 2020, o que se pode dever ao receio da covid-19 e ao funcionamento da triagem pré-hospitalar, adianta um relatório da OCDE divulgado.

“Essas reduções podem ter ocorrido porque pelo menos algumas pessoas que tiveram um AVC [Acidente Vascular Cerebral] não procuraram atendimento hospitalar imediatamente, devido ao medo de se infetarem com covid-19, ou porque a triagem pré-hospitalar não funcionou bem”, refere o relatório “Visão Geral da Saúde” da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE).

Segundo o documento, entre 2019 e 2020, o número de pessoas hospitalizadas devido a AVC isquémico diminuiu em Portugal, assim como as hospitalizações por enfarte agudo do miocárdio, à semelhança do que aconteceu em países como a França, Itália, Alemanha, Espanha e Estados Unidos.

De acordo com a OCDE, o número de pacientes com AVC isquémico que morreram após a admissão hospitalar também diminuiu na maioria dos países que forneceram dados de 2020, uma redução que foi “significativa em Portugal, sugerindo que pelo menos alguns doentes com AVC podem ter morrido em casa ou em instituições de cuidados prolongados antes de chegarem ao hospital”.

A OCDE comparou também os tempos de espera para três tipos de cirurgia, registando um aumento médio de 30 dias para as cataratas, 58 dias para uma operação à anca e 88 dias para uma intervenção ao joelho em 2020 em relação ao ano anterior, à semelhança do que aconteceu em países como a Nova Zelândia, Suécia, Hungria, Espanha, Irlanda e Eslovénia.

A maior transmissibilidade da variante Delta e diminuição da eficácia das vacinas requer uma “taxa de vacinação muito mais alta do que originalmente prevista para alcançar a imunidade de grupo, se de facto ela pode ser alcançada”, alerta ainda a OCDE, que admite que algumas medidas de saúde pública devem consideradas, mesmo em países com altos níveis de vacinação.

De acordo com a organização, Portugal registou 1.663 mortes de covid-19 por um milhão de habitantes, valor que está na média da OCDE, e está no primeiro lugar da vacinação entre os países desta organização.

No que respeita ao número de casos de covid-19 por cem mil habitantes, Portugal encontra-se também dentro da média, com 10.405.

Já em relação à vacinação contra a covid-19, o documento salienta que Portugal apresentava a maior percentagem da população totalmente vacinada (85,2%), seguido da Islândia (80,5%) e da Espanha (78,6%), enquanto as mais baixas taxas foram registadas na Colômbia (33,6%) e no México (35,4%).

Depois de avançar que nos 38 países da OCDE foram notificadas mais de 110 milhões de infeções e mais de 2,1 milhões de pessoas morreram do vírus SARS-CoV-2 até meados de outubro, a organização adianta que na fase inicial da pandemia “muitos serviços essenciais de saúde foram adiados ou totalmente abandonados”.

“As consultas presenciais de cuidados primários caíram, com o número de consultas com médicos de clínica geral a ter uma redução de 66% em Portugal, cerca de 40% na Austrália, 18% na Áustria e 7% na Noruega em maio de 2020, em comparação com o mesmo mês em 2019”, refere.

Além disso, muitos países da OCDE também registaram reduções de atendimentos de emergência, que diminuíram 28% em Portugal, logo seguido do Canadá (24%) e Reino Unido (21%) em 2020 em comparação com o ano anterior.

Em relação aos recursos humanos no período antes da pandemia, o relatório adianta que o número de médicos variou de menos de 2,5 por mil habitantes na Turquia, Colômbia, Polónia e México e mais de cinco em Portugal, Áustria e Grécia, em 2019.

Em muitos países, há concentração particularmente alta de médicos nas regiões das capitais nacionais, como é o caso de Portugal, mas também da Áustria, República Checa, Grécia, Hungria e Estados Unidos.

De acordo com o relatório hoje divulgado, em Portugal, assim como na Eslovénia e no Reino Unido, as remunerações dos médicos caíram em termos reais entre 2010 e 2019.

“Em Portugal, a redução ocorreu entre 2010 e 2012: desde então, a remuneração dos médicos aumentou, mas permaneceu menor em 2019 do que em 2010 em termos reais”, refere o relatório.

De acordo com o documento, o forte aumento do número de licenciados em medicina desde 2000 reflete o crescimento do número de vagas nas universidades existentes e a criação de novas escolas médicas fora de Lisboa e do Porto.

“No entanto, o crescente número de licenciados em medicina em Portugal suscita preocupações de que tal possa resultar em estrangulamentos, uma vez que nem todos os novos licenciados em medicina poderão encontrar locais de formação de especialidades de pós-graduação para concluir a sua formação imediatamente”, alerta a OCDE.

No que se refere à saúde da população, quase 9% dos adultos dos países da OCDE consideravam ter problemas de saúde em 2019, mas essa percentagem sobe para os 15% em Portugal, sendo mais baixa na Nova Zelândia e Canadá (menos de 3%).

Em média, nos países da OCDE, cerca de três quartos de todos os custos de saúde foram cobertos pelo governo ou por seguros de saúde obrigatórios em 2019.

 Essa participação ficou acima de 80% em 10 países (Noruega, Luxemburgo, Suécia, Alemanha, Japão, França, Dinamarca, Islândia, Países Baixos e República Checa). Por outro lado, em Portugal, Grécia, Letónia e Coreia apenas cerca de 60% de todos os custos foram cobertos por regimes financiados pelo governo, avança o documento.

LUSA

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