2 Ago, 2022

Estudo britânico sobre depressão é alvo de críticas por parte de médicos psiquiatras

Em causa está o papel da serotonina na depressão e, por conseguinte, dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS).

Um grupo de psiquiatras está a contestar um estudo britânico publicado na revista “Molecular Psychiatry” sobre o papel da serotonina na depressão e, por conseguinte, dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS). O estudo foi divulgado pelo Expresso, que falou com a investigadora principal.

A psiquiatra Joanna Moncrieff, docente no University College London, é a autora principal de um estudo que tem sido alvo de várias contestações por parte da comunidade médica psiquiátrica por a responsável considerar que “não há evidência científica sólida” de que a depressão esteja associada ou seja causada por uma baixa concentração de serotonina ou uma reduzida atividade deste neurotransmissor.

“A maioria dos estudos não encontrou evidências de uma redução da atividade da serotonina em doentes com depressão, comparativamente a quem não tem esta doença”, disse em declarações ao Expresso. Para a psiquiatra, as pessoas tendem a sentir-se melhor após tomar ISRS por estes “entorpecerem emoções como a tristeza e ansiedade” ou por um efeito placebo.

Referiu também que a teoria de que a depressão é causada por um desequilíbrio químico ainda é “muito influente” e é utilizada por psiquiatras como “justificação” para a prescrição de ISRS.

Várias contestações de uma “correlação selvagem”

Com receio do impacto deste estudo na adesão terapêutica, vários psiquiatras e institutos da área da saúde mental reagiram com críticas. Os peritos do Royal College of Psychiatrists, do Reino Unido, foram alguns dos que vieram a público garantir que estes fármacos são “eficazes”, como têm demonstrado vários estudos, e que não são recomendados somente para casos depressivos.

Em declarações ao jornal, alguns médicos portugueses também se mostraram preocupados. Gustavo Jesus, psiquiatra e docente na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, realçou que “nenhum destes fármacos [ISRS] é um inibidor de serotonina puro”, aumentando também a disponibilidade de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro). O BNDF é uma proteína que melhora a regeneração neuronal.

Além disso, referiu que “os vários neurotransmissores formam uma espécie de orquestra global”, ou seja, “quando mexemos num, isso tem implicações em muitas cadeias de neurónios”.

Sofia Brissos, psiquiatra no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, foi também mais uma das especialistas ouvidas pelo Expresso. “Hoje em dia, nenhum profissional sério acredita que a depressão é causada por baixos níveis de concentração de serotonina no cérebro.”

A médica acusa os autores da revisão de terem feito uma “correlação selvagem” ao concluírem que, só porque não encontraram provas de que a depressão esteja associada a baixos níveis de serotonina, então “os antidepressivos que aumentam a disponibilidade deste neurotransmissor no cérebro não servem para nada”.

Joanna Moncrieff respondeu às críticas dizendo que “não se pode esconder descobertas científicas só para evitar que as pessoas questionem os tratamentos que os médicos decidiram que são melhores para elas”.

Contudo, tal como os restantes colegas psiquiatras, alerta os doentes para não deixarem de tomar os medicamentos de forma abrupta, sem indicação médica.

 

SO/EXPRESSO

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