24 Jun, 2025

Escala mede dependência de videojogos entre jovens portugueses

Uma equipa do Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra, adaptou para português europeu uma escala internacional que ajuda profissionais de saúde mental a identificar sinais de dependência de videojogos entre os mais jovens. A ferramenta avalia sete sinais de alerta e visa apoiar intervenções clínicas e estratégias de saúde pública.

Escala mede dependência de videojogos entre jovens portugueses

Uma equipa do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), sediado em Coimbra, adaptou para português europeu uma escala internacional utilizada para avaliar a dependência de videojogos entre jovens. A Game Addiction Scale-7 (GAS-7), criada pelo investigador holandês Jeroen S. Lemmens, passa assim a estar acessível à comunidade clínica portuguesa.

Composta por sete critérios — saliência, tolerância, alteração do humor, recaída, abstinência, conflito e problemas associados ao jogo — a escala permite uma avaliação rigorosa de comportamentos potencialmente aditivos no uso de videojogos. A sua principal função será auxiliar psiquiatras e psicólogos na identificação precoce de sinais de dependência, especialmente em adolescentes e jovens adultos.

Segundo a professora e investigadora do ISMT, Ilda Massano Cardoso, que coordenou o projeto, esta ferramenta “não faz diagnóstico clínico, nenhuma escala ‘per si’ o faz, mas é um complemento à eventual necessidade de um diagnóstico clínico”. Para a investigadora, a sua importância reside sobretudo no âmbito da prevenção, tendo em conta que “não existe uma prevalência muito bem definida da adição aos videojogos” em Portugal.

Entre os aspetos considerados mais preocupantes na escala estão a perda de contacto social, o isolamento, a necessidade de jogar para sentir felicidade ou o uso do jogo como fuga da realidade. “Nesta escala, as perguntas mais importantes relacionam-se com o deixar de ter o contacto social, o isolamento, o só se sentir feliz quando se está a jogar ou o facto de o jogar constituir alternativa à realidade”, apontou Ilda Massano Cardoso.

Através deste instrumento de avaliação psicológica, torna-se possível perceber se o hábito de jogar está a interferir de forma negativa na vida dos jovens, com manifestações como isolamento social, perda de interesse noutras atividades, sintomas de abstinência ou dificuldades em controlar o tempo dedicado aos videojogos.

“A maior utilidade da escala é permitir avaliar com clareza se o tempo passado a jogar está a tornar-se excessivo ou prejudicial, ou seja, quando é que o jogo deixa de ser lazer e passa a tornar-se uma dependência”, esclareceu a investigadora.

Na sua opinião, considerando o aumento do uso intensivo de videojogos, é crucial disponibilizar ferramentas fiáveis aos profissionais de saúde mental, com vista a prevenir e detetar precocemente situações de risco. Algumas das perguntas da GAS-7 são diretas, como por exemplo: “pensaste em jogar jogos todo o dia?” ou “descurou outras atividades, como ir à escola, ao trabalho ou praticar desporto, para jogar?”.

“O maior sinal de alarme surge quando o utilizador começa a desligar-se da vida real, deixando que o jogo ocupe um lugar central na sua existência”, alertou Ilda Massano Cardoso.

A investigadora defende que a existência de uma prevalência significativa deste problema deve motivar a implementação de estratégias de prevenção em saúde pública. Estas poderiam incluir programas de regulação do uso das tecnologias, ações educativas nas escolas, sensibilização de pais e educadores, apoio psicológico e formação de profissionais nas áreas da saúde e educação.

“Se não conseguimos medir um problema, também não conseguimos acompanhá-lo nem tratá-lo. A GAS-7 – PT dá-nos finalmente esse ponto de partida em Portugal”, sublinhou.

De acordo com os dados recolhidos durante o processo de validação em território nacional, os jovens do sexo masculino demonstraram níveis significativamente mais elevados de comportamentos aditivos relacionados com o jogo, um padrão que também tem sido observado noutros países.

O estudo que resultou da adaptação portuguesa da escala intitula-se “European Portuguese Version of the Game Addiction Scale-7: Factor Structure and Psychometric Properties” e foi publicado na revista científica European Addiction Research.

A investigação contou com a liderança de Ilda Massano Cardoso e envolveu ainda as investigadoras Filipa Nogueira, Sofia Carvalho Figueiredo e Ana Galhardo, tendo incluído a auscultação de jovens portugueses como parte do processo de validação.

SO/Lusa

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