27 Jul, 2022

Entrevista. “Rastreio universal [à Hepatite C] já devia estar no terreno”

O diretor do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João realça a necessidade de rastrear a população para o vírus da Hepatite C e de ir ao encontro das populações vulneráveis, que não procuram os cuidados de saúde.

O também presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) desafia a tutela a disponibilizar um envelope financeiro que permita concretizar o “verdadeiro rastreio universal” durante esta legislatura.

Haverá cerca de 40 mil pessoas com Hepatite C ainda por diagnosticar. Quais os desafios que se colocam a nível do diagnóstico?

O diagnóstico é um dos nossos maiores problemas. Trata-se de identificar pessoas que não têm sintomas, que não imaginam que podem ter Hepatite C. A única forma de identificar estas pessoas é fazer uma testagem sistemática na população para perceber quem tem positividade no teste da Hepatite C. É um teste barato, que se pode fazer em qualquer análise de rotina. Qualquer médico pode fazer um pedido de teste da Hepatite C. Na verdade, todos os adultos, nalguma fase da vida, deveriam fazer este teste, uma vez que essa será a única forma de rastrearmos as pessoas incluídas no sistema de saúde.

Defende por isso um rastreio universal à hepatite C em Portugal?

Sim, à semelhança do que está a ser feito noutros países desenvolvidos. Parece-me a estratégia mais realista, no sentido de promover uma identificação atempada dos doentes. Podemos fazer isso ao longo de vários anos, mas, se queremos cumprir as metas com que nos comprometemos com a OMS, penso que será muito difícil chegar ao objetivo sem promover o rastreio universal. Isto já devia estar no terreno. Uma parte dos casos por diagnosticar está na população em geral, sobretudo no grupo etário com mais de 50 anos – isto porque a probabilidade de contacto desta população com o vírus da Hepatite C foi muito grande, houve muitas mudanças de higiene sanitária, utilização de materiais não reutilizáveis, etc. Isto aumentou o risco de contacto com produtos contaminados. Muitas pessoas podem ter-se infetado na adolescência e idade adulta, nos anos 70, 80 ou 90.

Quão frequente é o pedido de rastreio, por parte de utentes e profissionais de saúde, ao vírus da Hepatite C?

Não é muito frequente. Por isso temos vindo a tentar sensibilizar os nossos colegas da Medicina Geral e Familiar para que, pelo menos uma vez, façam a determinação do teste ao vírus da Hepatite C aos seus utentes. A identificação da infeção permite a cura em poucas semanas. Podemos fazer a diferença dessa forma.

Por outro lado, temos as pessoas que estão fora do sistema de saúde, ou seja, populações vulneráveis, que estão marginalizadas do circuito tradicional do apoio em saúde. Estamos a falar de atuais ou antigos consumidores de drogas por via intravenosa mas não só. Essas pessoas precisam de uma abordagem individualizada, tem de ser o sistema de saúde a procurá-los e não esperar que eles vão ao encontro do sistema. Estas pessoas são um grupo muito importante de reservatório do vírus da hepatite C que precisa de ser procurado.

De que forma de poderia impulsionar o rastreio nessas populações vulneráveis?

Temos de ter uma ação concertada, fazendo com que as instituições que têm articulação com o sistema estejam próximas destas populações. No nosso hospital [de São João, no Porto], temos procurado fazer essa centralização e integração de cuidados com uma série de estruturas. Começámos com as prisões, no Estabelecimento Prisional do Porto, e também com os albergues noturnos. Estamos orientados agora para o DICAD [Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências]. Tentamos dar o exemplo da proximidade que achamos que o sistema deve ter. A procura é será a única forma de promover a eliminação da Hepatite C. Pelo menos a microeliminação conseguiremos, isto é, uma estratégia de eliminação a uma escala geográfica mais reduzida.

Por isso, se queremos falar de um verdadeiro rastreio universal tem de haver este binómio: por um lado, haver uma indicação para o teste no sistema de saúde, e, por outro, haver uma procura ativa das populações vulneráveis. Isto tem custos, é da responsabilidade da tutela, que tem de garantir um envelope financeiro que permita fazer isto num relativamente curto espaço de tempo. Parece-me um objetivo concretizável para uma legislatura.

SO

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