26 Jul, 2022

Entrevista. “É cada vez mais difícil encontrar doentes com Hepatite C”

O diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais reconhece, em entrevista, que é necessário procurar os casos ainda não diagnosticados “mais ativamente”. Rui Tato Marinho diz, no entanto que, para isso, é preciso também “mais dinheiro, nomeadamente para a execução de testes”.

Acredita que Portugal vai conseguir eliminar a hepatite C até 2030, meta com que se comprometeu com a OMS?

Acredito. Primeiro é preciso perceber que a eliminação não é chegar a zero casos. A meta definida pela OMS é a redução de novos casos em 90% e dos casos totais em 65%. Já tratámos cerca de 40 mil pessoas e temos alguns sinais que mostram que o número de doentes que ainda existe por tratar é menor. Em 2021, tratámos 2300 pessoas, este ano vamos a caminho das 2600.

O número de tratamentos tem vindo a aumentar no pós-pandemia e já se verifica uma diminuição do número de internamentos por cirrose associada à Hepatite C. É cada vez mais difícil, nesta fase, encontrar doentes com Hepatite C. Temos, no entanto, de procurar [os infetados] mais ativamente. Um dos objetivos do Programa [Nacional para as Hepatites Virais] é fazer o teste ao vírus da Hepatite C a todos os que tiveram um passado de consumo de drogas, que tenham feito transfusões, que tenham uma doença do fígado. Felizmente, durante a pandemia, o número de testes realizados aumentou em Portugal – fomos apontados como um bom exemplo em publicações europeias. Por outro lado, toda a gente deve, pelo menos uma vez na vida, fazer o teste não só à Hepatite C mas também à Hepatite B e HIV.

No entanto concordará que é difícil aumentar de forma significativa o número de testes realizados sem os profissionais de saúde, nomeadamente os especialistas em MGF, estarem sensibilizados para a necessidade de pedir o teste.

Para nós é extremamente importante que, aquando das análises de rotina, se inclua a análise do fígado, a chamada ALT (assim como se faz o hemograma, a glicemia ou o colesterol). Muitos especialistas em MGF já o fazem. A pouco e pouco vamos incluindo esta necessidade nas reuniões, nos objetivos que enviamos para as Administrações Regionais de Saúde. A doença do fígado é a quarta causa de morte precoce em Portugal antes dos 65 anos. Um dos objetivos do Programa é aumentar a literacia em saúde e fazer perceber às pessoas que a doença do fígado mata muito.

Muitos especialistas nesta área criticam alguma inércia na implementação de uma estratégia nacional de diagnóstico da Hepatite C e dizem até que este tema caiu no esquecimento. Concorda?

Estou de acordo com os meus colegas que acham que se poderia ter feito mais. E por isso é que estamos a fazer mais. Aumentámos o número de testes, o número de pessoas em tratamento, estamos a rever as normas de orientação, temos trabalhado com estruturas europeias, vamos trazer. Temos de trabalhar mais, ir mais para o terreno. Queremos que os DICADs – que têm alguns constrangimentos – façam cada vez mais testes, que se facilite o acesso à terapêutica, fazendo com que o acesso ao tratamento seja imediato. Temos tido reuniões com o Infarmed no sentido de facilitar o registo informático. Só o facto de se ter criado um programa nacional para as hepatites virais, autónomo, significa que se está a contrariar a falta de investimento nas hepatites nos últimos anos.

O que está a ser feito para diminuir ou mesmo eliminar os atrasos no acesso ao tratamento da Hepatite C, que, em alguns hospitais, rondam os seis meses?

Temos tido reuniões com o Infarmed. [Diminuir os atrasos] implica mudar uma circular normativa que envolve três instituições: a ACSS, a SPMS e o Infarmed. Estamos a trabalhar.

É necessária a alocação de mais verbas à estratégia nacional de eliminação da Hepatite C?

É necessário mais dinheiro, nomeadamente para a execução de testes, sim. É também verdade que há problemas na compra de testes a nível internacional.

Esta área ainda não é uma prioridade para a tutela, na sua opinião?

Durante dois anos a prioridade foi a Covid-19. No entanto, agora foi criado, pela primeira vez, o Programa Nacional Prioritário para as Hepatites Virais, com um diretor e com duas pessoas da DGS. Portanto, este tema foi colocado na agenda política. As hepatites virais estão melhores do que estavam há um ano. Agora, claro que há trabalho a fazer. Posso dizer-lhe que este ano, conto ter 180 reuniões com entidades nacionais e internacionais.

SO

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