DPOC. “Só 2% dos doentes têm acesso à reabilitação respiratória”

"Há um problema de organização dos serviços de saúde respiratória" e faltam centros especializados em Portugal, alerta a Dra. Isabel Saraiva, vice-presidente da associação Respira. 1.ª edição do Prémio Luísa Soares Branco premeia projeto nesta área.

Que tipo de doentes necessitam, habitualmente, da reabilitação respiratória?

Os doentes respiratórios crónicos, de um modo geral, mas, sobretudo, os doentes com DPOC. Não serão todos, isso será avaliado caso a caso, conforme o estadio da doença. Essa reabilitação vem dar mais qualidade de vida às pessoas. O objetivo é diminuir a ocorrência de tosse, a falta de ar, de exacerbações.

Como é feita a reabilitação na prática?

Inclui o acompanhamento do doente a um nível multidisciplinar (nutricionista, psicólogo) e um plano de exercícios físicos. A DPOC deixa as pessoas muito fatigadas e as pessoas têm tendência para não se mexerem. Entra-se aqui num ciclo vicioso: as pessoas estão cansadas e não se mexem; e não se mexem porque estão cansadas. O objetivo é que não caiam neste ciclo de imobilidade e fadiga.

Como está, neste momento, o acesso à reabilitação em Portugal?

Com algumas dificuldades. Estimamos que só 2% dos doentes com DPOC tenham acesso à reabilitação. Há poucos centros e isso cria dificuldade de acesso. Os centros que existem estão localizados no litoral, o interior está muito desprotegido. Há um problema de organização dos serviços de saúde respiratória.

2% traduz-se em quantas doentes?

Muitos poucos. Admitimos que nem todos os doentes precisariam mas, ainda assim, estamos a falar de muito gente que não tem acesso. Outro problema é que não temos verdadeiramente ideia de quantas pessoas existem em Portugal com DPOC (há dados que indicam 400 mil, outros 500 ou 800 mil).

Em que consiste o projeto que foi o vencedor da primeira edição do Prémio Luísa Soares Branco, precisamente na área da reabilitação respiratória?

É um projeto na área do Sotavento Algarvio que, para as várias áreas (cessação tabágica, doenças respiratórias, saúde oral), fez uma visão integrada de forma a ajudar as pessoas que vivem com DPOC. Começando pela reabilitação respiratória e indo mais longe, fazendo também rastreios de cancro oral, indo, assim, ao encontro dos fumadores – A esmagadora maioria das pessoas com DPOC são fumadores.

Este projeto foi o escolhido pelo júri e mereceu especial distinção pela sua abrangência, pela ligação à comunidade. Isto traduz-se, na prática, na ida dos doentes aos centros de saúde, onde fazem a reabilitação respiratória, os rastreios.

Este projeto visa melhorar o controlo e gestão da DPOC e das respetivas comorbilidades, promover a adesão à terapêutica, a autogestão da doença, diminuir as exacerbações, reduzir o número e/ou a duração dos internamentos e a utilização de recursos de saúde. Este Programa de Proximidade desenvolvido pelo Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Algarve III – Sotavento mostrou-se eficaz e eficiente, registando uma melhoria na saúde e qualidade de vida dos doentes com DPOC que usufruíram do programa.

TC/SO

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