8 Abr, 2022

Doentes com cancro chegam em estado mais avançado ao IPO do Porto

"Os rastreios [para diagnosticar a doença numa fase mais precoce] devem ser retomados em grande escala”, defende a diretora clínica do IPO do Porto.

A diretora clínica do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto alerta que há doentes com cancro do pulmão, da mama e digestivos a chegar em estado mais avançado, uma consequência da pandemia que urge ser invertida.

“Essa é uma realidade em várias patologias. No cancro do pulmão, temos doentes a chegar em fases mais avançadas. Foi algo que se agravou com a pandemia [da covid-19]. Nos digestivos também se verifica, por exemplo, em doentes com cancro do cólon. No caso da mama, menos, mas também ocorre, porque os rastreios estiveram parados durante algum tempo”, analisou Marta Soares.

Em entrevista à agência Lusa, a diretora clínica do IPO do Porto apontou que “é muito difícil falar em recuperar o que está para trás, porque há coisas que não são recuperáveis” e sublinhou a importância dos rastreios, bem como da referenciação, pedindo “atenção aos sintomas” por parte dos doentes e médicos de família.

“Os rastreios [que servem para diagnosticar a doença numa fase mais precoce] devem ser retomados em grande escala”, disse a especialista.

Marta Soares analisou os três rastreios (colo do útero, cólon e mama) de base populacional que são feitos em Portugal e explicou que “às vezes mais do que investimento em recursos”, é necessária “divulgação” junto da população.

“O rastreio do [cancro do] colo do útero tem, na região Norte, uma cobertura muito boa. Teve algum decréscimo [durante a pandemia], mas neste momento já está em níveis normais. No que se refere à mama, talvez se pudesse fazer um bocadinho mais, mas a Liga [Portuguesa Contra o Cancro] faz um bom trabalho e temos uma cobertura mais ou menos adequada. Já sobre o cólon, precisamos de um bocadinho mais de investimento. Não pela falta de capacidade, mas sim na adesão das pessoas”, descreveu.

Marta Soares considerou que a zona Norte é “um exemplo em todos estes rastreios”, enquanto a área de Lisboa e Vale do Tejo “precisaria de mais reforço”.

Sobre o cancro do cólon, a especialista insistiu na necessidade de divulgação junto das pessoas, alertando para sintomas como alteração do funcionamento normal do intestino, bem como presença de muco ou sangue nas fezes.

Quanto ao cancro do pulmão, a médica reforçou o pedido de atenção à população de risco e aos médicos de família, referindo que o doente fumador não deve desvalorizar alterações ao seu padrão habitual de tosse e deve recorrer a uma consulta se notar o aparecimento de sangue na expetoração ou falta de ar.

Questionada sobre a possibilidade de se virem a fazer rastreios ao cancro do pulmão, algo que já é feito nos EUA, mas em contexto europeu está circunscrito a alguns projetos piloto, a diretora clínica do IPO do Porto admitiu que junto de fumadores “já há alguns ensaios que mostraram benefício na realização desse rastreio”.

“Não seriam para a população em geral, mas para a população fumadora e através da realização de um exame uma vez por ano. Mas isso exige recursos. Não é só a existência da TAC [Tomografia computadorizada, um exame complementar de diagnóstico], mas se encontrarmos algum nódulo, temos de ter capacidade para o estudar. Há nódulos que não têm significado, mas depois de diagnosticados, têm de ser avaliados e seguidos”, explicou.

À Lusa, Marta Soares apontou que a referenciação a nível hospitalar “sofreu um decréscimo” em 2020, porque as pessoas tiveram medo de ir aos hospitais e os centros de saúde estiveram vocacionados para o acompanhamento da covid-19.

Mas, em 2021, a referenciação foi “já muito semelhante” a 2019 e, em 2022, “está a ser bastante superior” à registada no pré-pandemia, concluiu.

SO/LUSA

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