O aumento das doenças crónicas e fatores de risco associados, como a obesidade e a poluição, nos últimos 30 anos, criou as condições para “alimentar” as mortes pelo novo coronavírus, defendem os cientistas.

Num estudo hoje publicado na revista The Lancet, os especialistas revelam que o aumento da exposição aos principais fatores de risco (incluindo hipertensão, açúcar elevado no sangue e colesterol elevado), combinado com o crescimento das mortes por doenças cardiovasculares em alguns países, “sugere que o mundo pode estar a aproximar-se de um ponto de inflexão nos ganhos em esperança média de vida”.

Segundo o estudo, embora a expectativa de vida saudável global tenha aumentado continuamente (em mais de 6,5 anos) entre 1990 e 2019, não cresceu tanto quanto a expectativa de vida geral em 198 dos 204 países avaliados neste estudo e as pessoas estão a viver “mais anos com problemas de saúde”.

A deficiência, mais do que a morte precoce, tornou-se uma parcela cada vez maior da carga global de doenças, passando de 21% em 1990 para mais de um terço (34%) em 2019. Nalguns países (11, incluindo Singapura, Islândia, Noruega, Irlanda, Nova Zelândia e Qatar), mais de metade de todas as perdas de saúde (medida por anos de vida ajustados com as deficiências – DALYs) devem-se a problemas causados por doenças não transmissíveis e lesões.

As conclusões são do Global Burden of Disease Study (GBD), que envolve especialistas que trabalham em mais de 1.100 universidades, centros de pesquisa e agências governamentais de 152 países e fornecem um novo olhar sobre como os países foram preparados em termos de saúde para a pandemia de Covid-19 e estabelecem a verdadeira escala do desafio que representam as novas ameaças de pandemia.

Ganhos em saúde a estagnar – e até reverter – nos países desenvolvidos

Os especialistas apontam para “ganhos impressionantes na saúde” em países em desenvolvimento devido em grande parte devido aos esforços “bem sucedidos conta doenças infeciosas maternas e neonatais.

Por contraste, os sistemas de saúde destes países “não estão bem equipados para lidar com a crescente carga das doenças não transmissíveis – que subiu de cerca de um terço da carga geral de doenças em 1990 para quase dois terços em 2019”, levando a que o número de mortes por doenças não transmissíveis esteja a aumentar.

nos países desenvolvidos, “as melhorias na saúde começaram a estagnar” e, nalguns casos, “até mesmo reverteram”, em particular nos Estados Unidos, onde “a taxa de perda de saúde padronizada por idade aumentou quase 3% na última década”.

Os autores acreditam que este cenário de falta de progresso seja alimentado pelo aumento das taxas de obesidade, pela diminuição do potencial para reduzir o tabagismo e para fazer mais melhorias na cobertura dos tratamentos para hipertensão e colesterol alto.

 

Principais fatores para perdas em saúde nos últimos 30 anos em todo o mundo

Doença cardíaca isquémica, diabetes, acidente vascular cerebral, doença renal crónica, cancro do pulmão e perda auditiva relacionada com a idade, que afetam amplamente adultos mais velhos.

HIV/SIDA, problemas musculoesqueléticos, dor lombar e distúrbios depressivos, causas mais comuns desde a adolescência até a velhice.

O estudo refere que o impacto dos fatores de risco varia amplamente entre regiões.

Em grande parte da América Latina, Ásia e Europa, a hipertensão, açúcar elevado no sangue, IMC alto e uso de tabaco são os que mais contribuem para problemas de saúde, enquanto na Oceânia os principais riscos são a desnutrição e a poluição do ar.

As diferenças mais marcantes estão na África Subsaariana, que é dominada pela desnutrição.

 

É necessário reforçar prevenção e olhar também para fatores sociais

As ações ou os incentivos governamentais para potenciar comportamentos mais saudáveis e o acesso a recursos de saúde não está a ter os mesmos resultados em todo o mundo, dizem os autores.

Entre os principais desafios estão “aqueles relacionados com a qualidade da dieta, ingestão calórica e atividade física, em parte devido à política inadequada de atenção e financiamento para saúde pública e pesquisa comportamental”, afirma Christopher Murray, da Universidade de Washington (EUA), que liderou o trabalho.

Na última década “houve aumentos particularmente grandes e preocupantes (mais de 0,5% ao ano em todo o mundo) na exposição a vários riscos altamente evitáveis”obesidade, açúcar elevado no sangue, uso de álcool e uso de drogas -, que estão a contribuir para o peso crescente das doenças não transmissíveis.

“O maior impacto cumulativo na saúde vem do aumento notável dos riscos metabólicos (Índice de Massa Corporal [IMC] elevado, níveis elevados de açúcar no sangue, hipertensão e colesterol alto), que subiram 1,5% ao ano desde 2010”, explicam os autores, sublinhando que entre os principais riscos de doenças não transmissíveis, apenas o tabagismo diminuiu substancialmente.

Os autores lembram ainda que vários destes fatores de risco e destas doenças não transmissíveis, incluindo a obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares, estão associados ao aumento do risco de doenças graves e morte por Covid-19.

Apesar disto, os investigadores frisam que há um reconhecimento tardio da importância do desenvolvimento social e económico para a saúde geral e apontam a necessidade de uma abordagem muito mais ampla, que preste mais atenção “a todos os impulsionadores da saúde da população”, como as políticas e estratégias que estimulam o crescimento económico, ampliam o acesso à educação e melhora a condição das mulheres.

“As doenças não interagem apenas biologicamente, elas também interagem com fatores sociais. É preciso uma ação urgente para abordar a coexistência de doenças crónicas, desigualdades sociais e Covid-19”, defende Murray, referindo-se à interação de várias epidemias que exacerbam a carga de doenças em populações já sobrecarregadas e que aumentam sua vulnerabilidade.

Simplesmente fornecer informações sobre os malefícios desses riscos não é suficiente”, afirma a coautora Emmanuela Gakidou, acrescentando: “Uma vez que as escolhas individuais são influenciadas por considerações financeiras, educação e disponibilidade de alternativas, os governos devem colaborar globalmente em iniciativas para tornar o comportamento mais saudável possível para todos”.

“E, tirando lições de décadas de controlo do tabagismo, quando há um grande risco para a saúde da população, como obesidade, pode ser necessária uma ação governamental concertada por meio de regulamentação, tributação e subsídios”, sublinha.

Num editorial que acompanha o estudo na revista The Lancet é ainda deixado o alerta:

“A menos que as desigualdades estruturais enraizadas na sociedade sejam combatidas e que uma abordagem mais liberal às políticas de imigração seja adotada, as comunidades não serão protegidas de futuros surtos infeciosos e a saúde da população não alcançará os ganhos que os defensores da saúde global buscam”.

Lusa/SO

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