Diabetes. “As estratégias de prevenção e diagnóstico precoce devem envolver as organizações de base comunitária”

Num manifesto recentemente apresentado, a APDP aponta três desafios estratégicos no combate à diabetes e na promoção da saúde em Portugal: redução do risco, integração de cuidados e garantia do acesso aos cuidados de saúde. Ao SaúdeOnline, o presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, José Manuel Boavida, instiga toda a sociedade a envolver-se nesta luta, que extravasa a esfera da saúde.

A “call for action” que marca a edição deste ano do Dia Mundial da Saúde é “Construir um mundo mais justo e saudável”. Em que medida a missão da APDP e este manifesto em concreto se enquadram neste mote?

A pandemia da covid-19 veio realçar as desigualdades existentes. Todos os dias assistimos a exemplos de discriminação em função dos mais diversos fatores sociais e económicos. A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) é uma instituição que mantém alta a bandeira de respeito pelas pessoas com diabetes e de defesa da sua autonomia e integração social e, nessa medida, tem na sua génese a mesma demanda assinalada este ano no Dia Mundial da Saúde, por um mundo mais justo e saudável.

O manifesto é todo ele um apelo de implementação de medidas que contribuam para a construção desse mundo desejado, no âmbito específico das doenças crónicas e em particular da diabetes. A investigação científica e o desenvolvimento tecnológico, o aumento da literacia em saúde, a educação terapêutica, a reforma do sistema de saúde, o reforço dos cuidados de proximidade e dos cuidados integrados, todos estas ações são prioritárias para alcançar justiça e equidade no acompanhamento de todas as pessoas com diabetes e para promover a saúde das populações.

Podemos afirmar que garantir o acesso universal à Saúde – desafio n.º 3 deste manifesto – e minimizar os efeitos causados pela covid-19, responsável pelo agravamento das assimetrias sociais a nível mundial, bem como a mobilização de decisores políticos e da sociedade civil para a resolução deste problema tem sido um desiderato da APDP?

Em 1926, a APDP foi pioneira nos cuidados de saúde integrados e multidisciplinares para as pessoas com diabetes, por iniciativa do médico Ernesto Roma. Continua a sê-lo, com várias referências nacionais e internacionais a destacar o seu trabalho como um exemplo de boas práticas. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o trabalho desenvolvido pela APDP, tendo já produzido dois relatórios onde refere o papel da associação no apoio às pessoas com diabetes durante a pandemia da covid-19.

A par com a sua vertente clínica, a APDP mantém uma vertente social bastante forte através da qual procura colaborar no desenvolvimento de políticas públicas centradas nos direitos e nas necessidades das pessoas com diabetes, participando ativamente nos movimentos comunitários na área da saúde e procurando ser auscultada pelos decisores políticos.

Olhando para o desafio n.º 1 deste manifesto, considera que a prevenção continua a ser o “calcanhar de Aquiles” na diabetes, à semelhança do que acontece em outras doenças crónicas, nomeadamente as cardiovasculares, em que somos bons a tratar e menos bons a prevenir?

A prevenção é melhor que a cura e isto é um facto para toda a sociedade. É necessário acabar com a visão de que a diabetes é uma doença provocada pelo estilo de vida, sem considerar a sua complexidade, a influência da genética, dos ambientes obesogénicos e o impacto das desigualdades sociais. Uma abordagem da “saúde em todas as políticas” ajuda a projetar comunidades mais favoráveis à saúde e não à doença, através de melhores condições de habitação, emprego, transportes, entre outras políticas sociais. As escolas, de todos os níveis de ensino, devem integrar no seu currículo perspetivas práticas de educação para a saúde. As estratégias de prevenção e diagnóstico precoce devem envolver as organizações de base comunitária, além das unidades de saúde.

A integração de cuidados – desafio n.º 2 – é outro conceito que ainda não saiu do papel/teoria para a prática? Quais têm sido os grandes entraves, nomeadamente no que diz respeito à abordagem da pessoa com diabetes?

A integração dos cuidados é fundamental na resposta às doenças crónicas, ainda mais numa doença tão complexa como a diabetes. É fundamental reforçar os cuidados de proximidade, assegurando a sua agilização, garantindo um médico para cada cidadão, e criando uma forte articulação com as autarquias e o sector social.

Os principais entraves passam pela falta de planeamento estratégico que contemple a criação de novos modelos de prestação de cuidados com unidades integradas e multidisciplinares, a exemplo do trabalho desenvolvido pela APDP, com objetivos centrados em resultados de saúde relevantes para as pessoas e que promovam a autonomia e os cuidados personalizados e centrados na avaliação de necessidades.

Considera que o atual contexto pandémico pode ser uma janela de oportunidade para uma mudança efetiva no sentido de uma melhoria no plano da autogestão da doença?

Não considero o contexto pandémico como uma janela de oportunidade. Pelo contrário, muitas oportunidades se perderam com a pandemia. O que considero é que a pandemia pôs à prova a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de uma forma nunca antes vista. A resposta aos desafios e aos imprevistos em saúde será tanto mais eficaz quanto melhor formos capazes de desenhar e implementar decisões em saúde numa perspetiva colaborativa que inclua a sociedade civil organizada e as pessoas com doença.

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