2 Set, 2020

Covid-19: Estudo indicia infeção pelo ar em ambiente fechado e mal ventilado

Estudo analisou surto comunitário de Covid-19 numa cidade budista em janeiro, onde uma passageira infetada assintomática num autocarro infetou mais 23 pessoas.

Num artigo publicado ontem na revista médica JAMA Internal Medicine, investigadores de centros chineses de controlo de doenças indiciam que o novo coronavírus é transmissível pelo ar, contribuindo possivelmente para a transmissão sobretudo em ambiente fechado e mal ventilado.

O objeto de estudo é o surto comunitário na província Zhejiang. Os investigadores, de centros chineses de controlo de doenças, analisaram a forma como passageiros transportados num  autocarro para um evento budista na cidade de Ningbo, a 19 janeiro, num percurso de 50 minutos, com um indivíduo infetado com SARS-CoV-2 assintomático, tinham maior risco de infeção, em comparação com os passageiros que seguiam noutro autocarro para o mesmo evento.

Tanto num autocarro como no outro, os passageiros não usaram máscara. Os passageiros realizaram também um percurso de volta de 50 minutos nesses dois autocarros.

A passageira infetada sexagenária e assintomática foi provavelmente o caso inicial, tendo tido contactos anteriores com pessoas de Wuhan, onde a epidemia começou. Esta, sentada do lado direito, a meio do veículo 2, entre dois passageiros, terá contagiado um terço do seu autocarro mal ventilado – num total de 23 passageiros (entre 68) -, durante um trajeto inferior a uma hora.

Visto que no autocarro número 1, idêntico, não houve nenhuma infeção registada, os investigadores tomam estes dados como um indício de que o coronavírus é transmissível pelo ar.

A tese da transmissão do vírus pelo ar que cada um expira e inspira, ao invés das grandes gotículas expelidas por espirros e tosse, foi inicialmente negligenciada pelas autoridades sanitárias no mundo, antes de uma reviravolta neste verão face à pressão de muitos especialistas em vírus respiratórios e de um acumulado de estudos sobre a presença de partículas virais em microgotículas aerotransportadas exaladas pela mera fala.

Contudo, neste estudo verificou-se que o círculo de infeções era muito mais alargado do que as filas em torno da pessoa de 60 anos, com pessoas infetadas na parte da frente e na parte de trás do autocarro. Segundo os investigadores, se o vírus se transmitisse apenas em gotículas de grande dimensão, o círculo expectável seria menor, sendo que seria de esperar que as partículas caíssem dentro de um perímetro de um a dois metros.

Por outro lado, o paciente inicial não tinha sintomas no momento da viagem, pelo que não tossiu.

O sistema de climatização do carro fez recircular o ar dentro do veículo e não o renovou, o que, provavelmente, contribuiu para propagar o vírus, concluíram os autores da investigação.

“Este inquérito sugere que, em ambientes fechados onde o ar recircula, a SARS-CoV-2 é uma doença altamente transmissível”, escreveram.

O estudo coorte, minucioso e que inclui um plano do veículo com a posição de cada pessoa contaminada, junta-se a outros no mesmo sentido, nomeadamente o caso de múltiplas contaminações entre mesas de um restaurante em Cantão, provavelmente potenciadas por um sistema de ventilação que não renova o ar no interior.

LUSA/SO

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