9 Mar, 2021

Centros de Saúde. “O reforço de profissionais já é necessário há largos meses”

Em entrevista, o presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar alerta para a falta de profissionais para manter a atividade assistencial regular e, ao mesmo tempo, vacinar e testar a população em larga escala.

Como está a decorrer o processo de vacinação nos cuidados de saúde primários (CSP)?

Está a correr bem, apesar de todas as vicissitudes e todas as questões relacionadas com a convocatória e a logística das próprias vacinas. A USF-AN considera que tem havido demasiado ruído negativo à volta deste processo. Temos o hábito de focar nas situações negativas e esquecer o que de positivo se faz. Obviamente que se devem investigar aquelas situações menos claras e tomar as medidas corretivas necessárias para que não volte a acontecer. No entanto, estas situações não podem abafar o trabalho feito por todas as equipas de vacinação.

Qual a maior falha que aponta a este processo até esta altura?

Está a falhar a transmissão da informação. A USF-AN alertou em dezembro para a necessidade de fornecermos informação clara e concreta para os profissionais e para os utentes. Sugerimos a divulgação de vídeos informativos para a população, que poderiam passar em horário nobre na televisão, nos jornais, nas plataformas digitais e até através de panfletos. O objetivo era clarificar como a questão da convocatória, quem iria ser chamado, o que teriam de fazer.

A verdade é que, agora que o processo já começou, ainda não estamos a chegar às pessoas. Sabemos que este processo automatizado, através de SMS, não é simples, principalmente para pessoas com mais de 80 anos. Muitas vezes o que tem acontecido é que as pessoas ligam para a unidade de saúde depois de receberem a mensagem. No entanto, ainda vamos a tempo de melhorar o processo.

“Processo [de vacinação] já começou” e informação “não está a chegar às pessoas”

No que diz respeito à convocatória, há zonas do país que estão a convocar as pessoas de forma aleatória dentro dos dois grupos incluídos nesta 1ª fase (pessoas com mais de 50 anos e doença grave e pessoas com mais 80 anos), como acontece com a região de Lisboa e Vale do Tejo, enquanto outras estão a dar prioridade aos mais velhos. Preocupa-o esta falta de critério na chamada para vacinação?

Preocupa-me a falta de orientação nacional. Não temos uma orientação conjunta da DGS, da task-force e do Ministério da Saúde e isso acaba por permitir que existam diferentes critérios a nível regional. Isso não devia acontecer. Não faz sentido que num país tão pequeno haja atuações tão díspares. Obviamente que as ARS tiveram de agir para que não criasse o ruído que se viu com a vacinação dos profissionais de saúde.

O coordenador da task-force admitiu recentemente que até 70% dos enfermeiros dos centros de saúde poderão ser desviados para centros de vacinação no segundo trimestre, quando a vacinação acelerar. Como olha para essa possibilidade?

Isso já está a acontecer agora na maior parte do país. As equipas das USFs, UCSPs, UCCs e Unidades de Saúde Pública já estão a formar equipas para irem vacinar aos centros de vacinação já criados. Obviamente as necessidades vão depender muito de quantos centros de vacinação existem e quantas pessoas temos de vacinar por Aces ou por concelho.

“O reforço de profissionais já é necessário há largos meses”

Há recursos humanos, nomeadamente enfermeiros, suficientes para concretizarem o processo de vacinação, quando este já estiver em velocidade-cruzeiro e para, ao mesmo tempo, realizar as restantes tarefas nos centros de saúde?

Infelizmente não houve reforço do número de enfermeiros nos cuidados de saúde primários. Os profissionais têm de se desdobrar em múltiplas tarefas. Sendo a vacinação prioritária, o que se poderá fazer é adaptar a carteira básica de serviços nas unidades e, ao mesmo tempo, realizar parte da vacinação em horas extraordinárias – sempre de forma limitada, porque os profissionais estão muito cansados, física e psicologicamente. Tem de haver uma boa organização, tendo sempre em conta que os recursos são os mesmos.

Ainda assim, na sua opinião, era possível levar a cabo a vacinação em maior escala com os enfermeiros que existem nos CSP?

Sim, embora seja preciso haver um reforço para que a atividade assistencial não sofra consequências. É impossível os enfermeiros estarem nas unidades nos ADRs, nas equipas de testagem, na vacinação regular e na vacinação das estruturas residenciais para idosos e ainda garantir a atividade assistencial normal. O reforço de profissionais já é necessário há largos meses. A USF-AN tem-se batido por isso, porque há um défice de recursos humanos em todas as classes, nomeadamente nos secretários clínicos – que são o grupo com mais carências a nível nacional nos UCSP e USF e que são muito importantes porque muitas das tarefas de sobrecarga são burocráticas.

Relativamente à testagem, considera que os centros de saúde teriam capacidade de assegurar a testagem em larga escala em lares, escolas, fábricas e outras instituições, como está definido na nova norma da DGS?

Temos de dar uma resposta Covid e não-Covid. E sendo os recursos os mesmos, é impossível a restante atividade assistencial não ser afetada. Mesmo sem pandemia, nós não teríamos excesso de profissionais.

“Houve, durante a pandemia, um aumento brutal de chamadas” para os CSP

Neste ano de pandemia, considera que os doentes não-Covid tiveram a resposta adequada por parte dos CSP?

A resposta não faltou mas é evidente que uma resposta telefónica não é igual a uma resposta presencial.

Havia também a promessa de que, até ao final do ano, se iram instalar as centrais telefónicas virtuais em nuvem, que ainda ninguém tem, e que iriam permitir, por exemplo, aos utentes deixarem uma mensagem pedindo que os contactem. A dificuldade de os doentes contactarem com o centro de saúde teve a ver, numa primeira fase, com a banalização do uso do email – era impossível dar resposta, porque havia unidades que recebiam centenas por dia. No que diz ao telefone, a dificuldade já existia antes da pandemia e houve nesta fase um aumento brutal de chamadas. Parte das unidades tinham poucas linhas telefónicas, ou seja, só podiam receber e fazer duas a três chamadas ao mesmo tempo – o que é insuficiente. Estamos a falar, por exemplo, de unidades funcionais com 15 mil utentes e que recebiam 1500 chamadas por dia.

“Chegamos a passar meses com material em falta”

Em Setembro, a USF-AN denunciou a falta de material básico em várias unidades. Essa situação tem vindo a ser resolvida?

As faltas de material mantêm-se, embora não com a magnitude dessa altura. São falhas de material de consumo clínico e de medicamentos, o que é pouco compreensível porque estas compras são centralizadas. Falo de material para tratamento de feridas, compressas, luvas, soro. Chegamos a passar meses com material em falta. Neste momento há falta de seringas para a vacinação, por exemplo.

Do total de unidades de CSP, quantas são USF em 2021?

Neste momento, temos 580 USF e 330 UCSP.

Seria benéfico que todas as unidades evoluíssem para USF?

Sim, seria benéfico mas nós queremos USF com qualidade – senão bastava mudar o nome. É preciso que a tutela defina o que quer para os CSP. Não chega a retórica de sempre, que diz que os CSP são o pilar do SNS. Para isso, são necessárias medidas que vão ao encontro desse discurso. Infelizmente, na prática, não as temos visto. A aposta total e real nas USF não tem acontecido.

É fundamental que se cumpram os princípios da USF: o da adesão voluntária e o da mútua escolha. Têm de haver condições de trabalho para as equipas, tanto a nível de material como de espaço físico. A verdade é que a maioria dos nossos espaços não tem condições para prestar de saúde em segurança. O acesso aos cuidados devia ser igual em todo o país. Temos unidades com 14 anos sem manutenção. Temos de deixar de estar em espaços de habitação alugados, nos quais pagamos rendas altíssimas.

Em 2020, nenhuma USF evoluiu para o modelo B. Que comentário lhe merece?

O modelo B é o ideal, da discriminação positiva, da compensação pelo desempenho. São as unidades funcionais mais eficientes e com maior qualidade de cuidados e de acesso, os vários estudos realizados ao longos dos anos comprovam isso mesmo. Nos últimos quatro anos, tivemos dois anos sem transições. Temos de decidir: o modelo B é o melhor e merece uma aposta ou não? As transições são limitadas, de uma dificuldade extrema. Há unidades que têm parecer técnico (PT) aprovado desde 2019. Estamos a falar de uma espera de mais de um ano, já com o trabalho de auditorias e da equipa regional de acompanhamento concluído. A transição com PT aprovado deveria ser automática.

Não devia haver quotas das unidades a transitar, por exemplo. Todas as que tivessem PT aprovado deveriam transitar.

“A aposta total e real nas USF não tem acontecido”

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