3 Mai, 2024

Diabetes e as diferentes fases da vida da mulher: “Uma relação bidirecional”

“Diabetes e a Mulher” é o mote da 10.ª Reunião Temática do Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus(NEDM) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Mónica Reis, coordenadora do núcleo, refere que se trata de um tema ainda pouco abordado. A necessidade formativa é grande, até porque a mulher tem diferentes especificidades ao longo das diferentes fases da vida, que, não sendo bem geridas, podem ter impacto na sua diabetes e vice-versa.

Qual a necessidade de se abordar a temática da diabetes especificamente na mulher? 

Quando se fala em diabetes e na mulher, de forma geral, pensa-se em diabetes gestacional. Porém, a vida da mulher não se resume ao seu estado de gravidez ou de preparação para a mesma e às implicações da diabetes nesse período da vida.

Há outras fases em que a diabetes tem também uma influência importante. Digamos que se trata de uma relação bidirecional, ou seja, a diabetes implica na vida da mulher e a vida da mulher implica na própria gestão da diabetes.

Percebemos que, realmente, havia necessidade de formação e de informação sobre os vários períodos da vida cronológica da mulher, dentro do que é a verdadeira assunção do ser mulher: a transição para a vida adulta; a fase jovem; a de preparação da gravidez, quando há uma diabetes já existente; a diabetes gestacional; e a fase em que a mulher entra na menopausa.  O facto de ser diabética tem implicações no seu estado de saúde, estado este  também alterado por esta multiplicidade de alterações  hormonais associadas a cada uma destas fases de vida. As implicações podem não ser favoráveis se a diabetes não for devidamente gerida.

Há pouca informação em relação a esta área, obviamente com exceção dos colegas de Ginecologia e Obstetrícia que estarão mais despertos para estas questões mas que terão, eventualmente, pouca formação na área da diabetes. As especialidades que lidam de forma direta com a diabetes como a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar têm pouca formação na área da saúde da mulher. Consideramos por isso que seria uma boa temática, e, de facto, estamos a ter uma adesão enorme.

 

Considera que há falta de sensibilidade para a questão da diabetes na mulher, que, muitas vezes, poderá ser tratada da mesma forma que o homem? 

De certa maneira, sim. Olhamos para a diabetes, independentemente de a pessoa ser homem ou mulher. Porém, a mulher tem nuances e é importante termos noção dessas diferenças. Obviamente, o homem também as tem, mas na mulher têm um impacto maior ao longo da sua vida. Inicialmente com a menarca, depois numa fase já adulta, muitas vezes com gestações, e posteriormente, com a menopausa. Esta relação é bidirecional com implicações importantes em todos os momentos da vida da mulher.

“O aumento do risco cardiovascular com a menopausa, entre outros aspetos, estão pouco presentes na nossa mente quando abordamos a mulher com diabetes.”

Quais os principais desafios e em que fase da vida estão mais patentes? 

Diria que em todas as fases, com as respetivas características de cada uma. Por exemplo, o facto de a mulher ser diabética pode implicar uma diminuição da fertilidade ou acarretar um desenvolvimento menos favorável do feto no período de gestação. Por esta razão, é importante fazer uma boa preparação numa fase pré-gestacional, ou seja, ter a doença bem controlada antes de engravidar para que seja mais fácil engravidar e ter uma gestação mais tranquila e sem qualquer complicação, tanto para a mãe, como para o feto.

Depois, na fase da menopausa, em que as alterações hormonais têm impacto na diabetes, que muitas vezes passa por um período de descontrole metabólico associada a estas alterações. A menopausa leva também a um aumento do risco cardiovascular, numa doente que, por si só, já tem um risco cardiovascular aumentado, porque é diabética logo outro aspeto a ter em consideração na abordagem da mulher.

Se olharmos de forma cronológica para as várias fases da vida da mulher, em todos os momentos há pormenores que são importantes termos presentes, uma vez que se traduzem em impactos importantes na vida e na saúde da mulher.

 

Qual a prevalência da diabetes na mulher? É superior à dos homens? 

Segundo dados da IDF a prevalência da diabetes na mulher, a nível mundial, é ligeiramente menor sendo que esta diferença esbate-se à medida que a idade avança. A prevalência é de 10.2% na mulher versus 10.8% no homem entre os 20 e os 79 anos. Em Portugal, na fase etária acima dos 65 anos a prevalência é de 24% na mulher versus 30% no homem.

 

As suas expectativas são boas?

Sim, a 10.ª Reunião Temática está a ter uma adesão muito superior ao habitual, vamos ter casa cheia. Penso que esta adesão se deve à relevância do tema.

Na maioria dos programas de outras reuniões, realizadas ao longo dos últimos anos com a  temática da diabetes, o tema  “Mulher” nunca foi  abordado desta forma. A questão resumia-se habitualmente à diabetes gestacional tal como mencionei anteriormente. Não se aborda as outras fases da vida da mulher, que têm um impacto importante e com as quais nos confrontamos no nosso dia a dia. Claramente, há uma necessidade de formação nesta área.

Espero que esta reunião seja uma mais-valia para os participantes e que, acima de tudo, fiquem mais despertos para estas especificidades, para que consigamos dar o melhor aos nossos doentes, neste caso à mulher diabética.

 

SM

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