24 Nov, 2021

Ativistas do GAT lutam há 20 anos por tratamentos nas áreas do VIH e hepatites

A completar 20 anos, o Grupo Ativistas em Tratamentos ainda luta para eliminar falta “a complacência” em relação a estas epidemias. O GAT tem uma equipa de mais de 100 pessoas a tempo inteiro.

O Grupo Ativistas em Tratamentos (GAT) nasceu em 2001 e trabalhou quatro anos sem orçamento, mas hoje orgulha-se dos projetos que desenvolve na área do VIH, para os quais recebeu 2,75 milhões de euros para 2022.

Em entrevista à agência Lusa, o presidente do GAT, Luís Mendão, recordou o nascimento da organização e o seu papel na introdução e disseminação em Portugal dos testes rápidos para o VIH, na chegada das terapêuticas que permitem a cura da hepatite C e alterações legislativas que protegem as pessoas em maior vulnerabilidade.

“O GAT nasceu como uma organização para a melhoria e o acesso de todos aos melhores tratamentos do VIH e para continuarmos a investigação para procura de melhores medicamentos”, recordou Luís Mendão, um dos rostos da luta contra a sida em Portugal.

Luis Mendão era membro da associação Abraço e procurou em todas as organizações ligadas ao VIH/sida pessoas interessadas nesta área e foi assim que surgiu o GAT, com “o objetivo muito específico” de ser um conselho consultivo da comunidade para a indústria, para a saúde, para as instituições de saúde, incluindo o Infarmed.

Em 2004, houve “uma cisão” na Abraço e os ativistas decidiram alargar os objetivos da organização às políticas de saúde nas áreas das migrações, das drogas, prisões e à comunidade LGBTI.

Um ano mais tarde alargaram a intervenção à tuberculose, às infeções sexualmente transmissíveis e às hepatites virais e começaram a desenvolver serviços-piloto.

“Foi aí que houve um salto, quer no número de pessoas que trabalham no GAT, quer na necessidade de financiamento, porque até aí nem tínhamos orçamento anual”, sublinhou.

Até 2005, a organização tinha um “orçamento zero e zero pessoas pagas”. Nesse ano, entraram as primeiras quatro pessoas para trabalhar no GAT, que passou a ter um orçamento de 50 mil euros.

“Neste momento, temos 109 pessoas a trabalhar a tempo inteiro e mais uma série de profissionais de saúde que trabalham a recibo verde”, sobretudo, médicos e enfermeiros que trabalham no SNS e que prestam umas horas por semana na organização.

E o orçamento para 2022, aprovado no domingo, é de 2,75 milhões de euros, disse Luis Mendão com orgulho. O orçamento é financiado por várias entidades, entre as quais o Ministério da Saúde e a Câmara Municipal de Lisboa.

“A organização não tinha sido desenhada para isto e temos que estar constantemente a reformar para poder ter capacidade organizativa, política, administrativa para gerir uma organização que cresceu muitíssimo e a contraciclo até com as outras nestes últimos 20 anos”, salientou.

Luís Mendão foi diagnosticado com sida em 1996, um ano que foi “um marco histórico” no desenvolvimento de um tratamento altamente eficaz, mas que tinha muitos efeitos secundários graves, havendo dificuldade de adesão.

Começou o tratamento com 10 tomas diárias e era isso que o GAT queria ajudar a mudar, o que foi conseguido: “A partir de 2003, 2004 temos regimes muito eficazes e bem tolerados, o que não quer dizer que ainda não possam ser melhorados e têm sido”.

Mas 40 anos depois de a sida ter sido diagnosticada ainda faltam duas coisas fundamentais: a vacina e a cura.

Neste momento, “os grandes desafios” são contribuir para o investimento nesta área e para fazer “um outro salto no tratamento”, passar de terapêuticas diárias, mesmo que só com um comprimido, para tratamentos de ação prolongada.

“Isso é uma revolução para pessoas que têm dificuldades de adesão ou que têm dificuldades na família ou no trabalho, de mostrar que têm de tomar comprimidos todos os dias”, defendeu.

Por outro lado, apontou, ainda falta “a eliminação da complacência” em relação ao VIH, às hepatites e, provavelmente, à tuberculose, “que se instalou não só em Portugal como no mundo e que significa que deixou de haver prioridade e compromisso verdadeiro do ponto de vista político” para conseguir eliminar estas epidemias até 2030, enquanto problemas de saúde pública.

LUSA

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