“As Unidades de Internamento de Geriatria existem para receber doentes idosos muito complexos”

João Gorjão Clara vai ser homenageado no Congresso Multidisciplinar da Dor pelo seu trabalho e dedicação à Geriatria. Em entrevista, conta como o interesse pela área começou em 1978 e como tem lutado para que haja ensino da Geriatria, unidades de internamento, profissionais com formação geriátrica e o reconhecimento da especialidade numa sociedade cada vez mais envelhecida.

“As Unidades de Internamento de Geriatria existem para receber doentes idosos muito complexos”

Tem sido uma grande luta pela Geriatria. O que sente ao receber mais um prémio?

A minha luta pela Geriatria começou em 1978, quando publiquei um artigo sobre “Hipertensão Sistólica no doente idoso”. Na época tive o apoio do meu mestre Prof. Nogueira da Costa, quando ainda era muito difícil falar-se sobre cuidados geriátricos em Portugal.

A maioria dos meus colegas dizia-me que era uma especialidade inútil, porque todos sabiam tratar muito bem os velhos. Na sua opinião não havia justificação para que houvesse uma disciplina de Geriatria, quer na faculdade quer no hospital. Diziam que a medicina dos adultos e dos velhos era igual.  Foram necessários muitos anos para se lutar contra esse preconceito, para que se entendesse que a Geriatria é uma especialidade que tem um papel tão importante como a Pediatria. Ocupa o espaço final da vida, tal como a Pediatria o do início da vida. As características do envelhecimento condicionam a manifestação, a prevalência e as opções terapêuticas nas diversas patologias. É preciso aprender.

Quando me interessei pela Geriatria, ouvia nos corredores do hospital que tratar os velhos era como os adultos, desde que se utilizassem doses mais pequenas de fármacos. Este argumento é um desconhecimento total do que é a Geriatria! Na realidade, esta área da saúde tem mais de 100 anos e foi-se desenvolvendo e espalhando por todo o mundo.

Por exemplo, em Espanha, Brasil ou EUA, a Geriatria desenvolveu-se ao longo dos anos de forma muito evidente, tendo-se criadas unidades nos hospitais, consultas multidisciplinares, a especialidade, revistas e associações nacionais e internacionais de medicina geriátrica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2006, ciente desta realidade, afirmou que nenhum aluno deveria terminar o curso sem conhecimentos básicos neste campo. Enumerou, inclusive, os 15 temas geriátricos que deviam ser ensinados aos novos médicos.

Em Portugal temos levado mais tempo. Há cerca de 15 anos que iniciamos o caminho na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tive a enorme satisfação de ser o primeiro regente desta disciplina. Hoje, a Geriatria é reconhecida como uma necessidade por parte dos alunos de Medicina. Muitos dos meus colaboradores foram-se diferenciando e espalhando conhecimento por todo o país.

“A nossa primeira participação foi em Espanha, em Málaga em 2011, onde apresentámos um cartaz com a experiência da Consulta Multidisciplinar de Geriatria – que incluía apoio domiciliário – que instalamos no Hospital Pulido Valente”

Atualmente, temos o PROGRAMMING, que junta diferentes países a nível da União Europeia para a promoção da Geriatria. Portugal está representado. Isso também permite um outro reconhecimento do que se tem feito nos últimos anos, apesar do atraso inicial?

Há duas ou três pontos muito importantes para que o país fosse reconhecido além-fronteiras. Primeiro: o curso que tirei na European Academy for Medicine of Ageing, na Suíça – fui o primeiro português a frequentá-lo, o que me permitiu entrar em contacto com colegas da Europa e de outras partes do mundo.

Segundo: fui convidado para membro da European Union Geriatric Medicine Society (EGMS) como Full Board Member. Terceiro: fui, ainda, Full Board Member da European Union of Medical Specialists – Geriatric Section.

Estes três marcos foram decisivos para que se olhasse para a Geriatria em Portugal. Posteriormente, começámos a participar dos congressos europeus e mundiais de Geriatria. A nossa primeira participação foi em Espanha, em Málaga em 2011, onde apresentámos um cartaz com a experiência da Consulta Multidisciplinar de Geriatria – que incluía apoio domiciliário – que instalamos no Hospital Pulido Valente.

Foi um cartaz ingénuo, porque demos a conhecer algo que já era habitual noutros países. O comentário habitual dos outros colegas era: “Mas vocês [portugueses] ainda estão nesta fase?”

Com a pandemia, desapareceram vários projetos de Geriatria no Serviço Nacional de Saúde (SNS). O problema do crescimento desta competência em Portugal, nos dias de hoje, está precisamente no SNS?

Sim, foi, aliás, uma das lutas que perdi. Foram dois anos (2014-2016) a reunir elementos, como o espaço físico, a equipa de profissionais, o encargo económico, o enquadramento jurídico… para criar a primeira Unidade de Internamento em Geriatria no Hospital Pulido Valente. Em Inglaterra, estas unidades existem desde 1948. Em Portugal nunca tivemos nenhuma. O objetivo é receber doentes com condições e características geriátricas. Muitas pessoas desconhecem o que isto significa. Uma Unidade de Geriatria não existe para tratar doentes com 85 anos ou mais, mas sim os que apresentam características particulares, como muitas doenças em simultâneo, de difícil controlo, em que a terapêutica de uma patologia poderá ter um impacto significativo numa outra, em que as intervenções diagnósticas são difíceis.

Infelizmente, não consegui criar a Unidade, apesar da promessa pública do então Presidente do Centro Hospitalar de Lisboa Norte na sua página do Facebook, após a apresentação que realizei na aula Magna do Hospital de Santa Maria, perante o Bastonário da Ordem dos Médicos, a Diretora do Hospital Pulido Valente e o Representante do Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.  A Diretora Clínica posterior chumbou o projeto e nada avançou.

Repare, que a unidade não se limitava a gerir estes doentes geriátricos, mas também daria formação aos alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Ainda hoje nos deparamos com esta lacuna: faltam unidades em Portugal para dar formação prática. A Geriatria é uma disciplina clínica, não teórica, precisa de avançar no curso do 3.º para o 5.º ano e ter possibilidade de promover o ensino prático em Unidades de Geriatria.

Felizmente, a Dr.ª Heidi Grüner, conseguiu criar a primeira unidade de internamento, em Lisboa, no Hospital Curry Cabral, em dezembro de 2024.

“Tendo em conta que a especialidade se foi afirmando e já existe em muitos outros países – sinal indiscutível de que é justificável, porque é eficaz -, não faz sentido continuar a negar a sua relevância”

A criação da competência em Geriatria foi um passo importante, mas, apesar de muitos internistas seguirem esta área médica, o Colégio da Especialidade de Geriatria da Ordem dos Médicos foi o único que se opôs. Ainda existe uma grande resistência por parte dos internistas?

As dificuldades em se reconhecer a Geriatria partiram sempre da Medicina Interna, que entende que esta competência está já integrada na especialidade e que a formação de internista é suficiente.

Esta posição da Medicina Interna tem, de facto, atrasado o reconhecimento da Geriatria como especialidade. Tendo em conta que a especialidade se foi afirmando e já existe em muitos outros países – sinal indiscutível de que é justificável, porque é eficaz -, não faz sentido continuar a negar a sua relevância e a necessidade de a termos reconhecida entre nós.

Acredita que Portugal ainda vai ter essa especialidade?

Sim! Além da sua eficácia, a sua existência é também uma questão de prestígio da classe médica, porque não podemos continuar a integrar os pouquíssimos países civilizados que a não têm.

“O mais compensador foi ver que os meus pares reconheceram o meu trabalho”

Mas o que é preciso para se chegar a esse patamar?

É necessário insistir e avançar com uma proposta. Em 1999, nas férias, elaborei as normas para a criação da especialidade e com outras pessoas ligadas à área entregamos em mão esse projeto ao então bastonário da Ordem dos Médicos. Mas até hoje não houve resposta.

Ao longo desta luta pela Geriatria, o que foi mais compensador e o que foi mais frustrante?

O mais frustrante foi não ter conseguido, por muito pouco, criar em Lisboa a primeira Unidade de Internamento de Geriatria, para a qual consumi muitas horas de trabalho. O mais compensador foi ver que os meus pares reconheceram o meu trabalho.

A Associação Portuguesa de Gerontologia Social, que me concedeu a Medalha de Mérito-Grau Ouro, a Ordem dos Médicos, que me atribuiu a Medalha de Mérito, o Prémio Carreira, distinção dos Prémios Júlio César Andrino, e agora a IM3M que me faz esta homenagem no Congresso Multidisciplinar da Dor, na Fundação António Cupertino de Miranda.

 

Maria João Garcia

 

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