Dor, Humor e Espiritualidade: Conexões e Desafios
Nuno dos Santos (Padre, Reitor do Seminário de Coimbra, Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa); Enfermeira na ULS Gaia e Espinho
10 Set, 2026

Dor, Humor e Espiritualidade: Conexões e Desafios

A dor acompanha a experiência humana e, em contexto de doença avançada, ultrapassa frequentemente a dimensão física. A perda, o medo, a solidão, a incerteza e a proximidade da morte podem provocar sofrimento emocional, social e existencial. Perante estas experiências, cada pessoa procura recursos para enfrentar a adversidade, preservar a dignidade e encontrar razões para continuar. Neste contexto, o humor e a espiritualidade podem constituir recursos importantes de cuidado, quando utilizados com respeito e sensibilidade.

O humor pode proporcionar alívio, reduzir a tensão emocional e favorecer uma mudança de perspetiva perante situações difíceis. Um sorriso partilhado pode humanizar a relação de cuidado e recordar que, mesmo perante a doença e a fragilidade, permanece uma pessoa com capacidade de comunicar, relacionar-se e esperar. Contudo, o humor não deve significar negação ou banalização da dor. Rir com alguém é diferente de rir da sua dor, exigindo escuta e respeito pelos limites individuais.

A espiritualidade constitui uma dimensão essencial do cuidado, relacionada com a procura de significado, propósito, esperança e transcendência (Benito et al., 2025). Importa distingui-la da religião alicerçada em crenças, práticas, rituais e tradições partilhadas, a espiritualidade relaciona-se com significado, propósito, ligação e transcendência, podendo ou não estar associada a uma religião (Jesus et al., 2023). A espiritualidade pode expressar-se pela fé e oração, mas também pelas relações humanas, natureza, reflexão sobre a vida ou legado (Gouveia et al., 2009). Em cuidados paliativos, podem surgir necessidades de reconhecimento, amor, sentido, perdão, esperança, expressão de crenças e resolução de assuntos pendentes (Bermejo, 2009).

A tradição cristã oferece uma perspetiva profunda sobre o sofrimento e a compaixão. Jesus aproxima-se de quem sofre, escuta, toca, comove-se e chora. No Getsémani, experimenta a angústia e, na cruz, enfrenta a radicalidade do sofrimento. Como afirma Ratzinger (2005), a cruz exprime uma vida “totalmente para os outros”. Esta perspetiva aproxima-se do acompanhamento defendido por Ricoeur (2007): a pessoa que sofre ou se aproxima da morte não é um “quase morto”, mas um “ainda vivo”, com história, relações, desejos e necessidades.

A avaliação e o acompanhamento espiritual em cuidados paliativos valorizam abordagens multidimensionais e centradas na pessoa. Persistem desafios relacionados com instrumentos de avaliação, formação profissional e intervenções culturalmente sensíveis. Torna-se fundamental uma abordagem interdisciplinar que respeite crenças, valores e escolhas individuais.

Cuidar não significa apenas tratar sintomas. Significa reconhecer a pessoa na sua totalidade e permanecer presente quando não existem respostas fáceis. O humor pode oferecer leveza; a espiritualidade pode favorecer sentido e esperança; e a compaixão pode oferecer presença.

A dor pede presença e escuta genuína. O humor, quando acolhedor e respeitoso, pode devolver liberdade perante o sofrimento. A espiritualidade, por sua vez, pode abrir espaço para a construção de sentido, ajudando a pessoa a encontrar recursos internos para enfrentar os desafios da doença e da vida.

 

Referências bibliográficas

 

  • Benito, E., Dones, M., Jiménez, E., Fornells, H., & Nabal, M. (2025). El acompañamiento espiritual en la clínica (I): Bases para su integración en cuidados paliativos. Medicina Paliativa, 32(1), 39–44. https://doi.org/10.20986/medpal.2025.1637/2025
  • Bermejo, J. C. (2009). Introducción al counselling: Relación de ayuda. Sal Terrae.
  • Gouveia, M. J. P. M., Marques, M. M., & Ribeiro, J. L. P. (2009). Versão portuguesa do questionário de bem-estar espiritual (SWBQ): Análise confirmatória da sua estrutura factorial. Psicologia, Saúde & Doenças, 10(2), 285–293.
  • Jesus, G. T. de, Freitas, F. G., Bispo, D. B. S., Pereira, J. V., Gomes, R. V., & Araújo, L. M. B. (2023). O papel da espiritualidade no contexto dos cuidados paliativos. Research, Society and Development, 12(1), e19812139531. https://doi.org/10.33448/rsd-v12i1.39531
  • Ratzinger, J. (2005). Introdução ao cristianismo: Preleções sobre o Símbolo Apostólico. Principia.
  • Ricoeur, P. (2007). Vivo até à morte: Seguido de fragmentos. Edições 70.

 

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