Bastonário da Ordem dos Médicos critica falta de ambição no reforço do SNS
Para Carlos Cortes, “não bastam discursos muito simpáticos” sobre a importância do SNS quando as “ações concretas” ficam “muito aquém do discurso oficial”.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, criticou a falta de ambição do Governo para o SNS até 2028, considerando negativa a manutenção do número de médicos de família. O Quadro Global de Referência para o SNS 2026-2028 demonstra que “para os próximos anos vamos manter o mesmo número de médicos de família”, afirmou.
“Se nós, logo à partida, dizemos que não vamos conseguir atraí-los, convenhamos que é uma mensagem negativa que está a passar. Devia haver aqui mais ambição, mais vontade”, defendeu Carlos Cortes.
O bastonário falava aos jornalistas, em Sines, no distrito de Setúbal, no segundo dia de uma visita ao Litoral Alentejano, dedicada ao contacto com os profissionais e à avaliação das condições de prestação de cuidados de saúde nesta região.
O jornal Diário de Notícias divulgou, hoje, que o Quadro Global de Referência prevê o reforço do SNS com 3.162 profissionais em três anos, um número inferior aos 3.913 contratados apenas em 2025. O documento, aprovado pelos ministros das Finanças e da Saúde e publicado em 04 de setembro, é um instrumento de planeamento para três anos.
Questionado pela agência Lusa, Carlos Cortes defendeu que o objetivo deveria passar por garantir médico de família a “todos os portugueses” e “não somente [a] pouco mais de 80%”. “Mas logo à partida nós apostamos abaixo, é evidente que nem essa meta provavelmente iremos conseguir atingir”, argumentou.
No entanto, o bastonário considerou que “ainda há espaço de intervenção”, acrescentando que a Ordem dos Médicos vai remeter, na altura da apresentação do Orçamento do Estado, “um conjunto de medidas” para atrair médicos para o SNS.
Estas medidas, indicou, “sem grande impacto financeiro”, deverão permitir atrair médicos para as áreas da medicina geral e familiar e outras especialidades, como a medicina interna. Trata-se de “mecanismos para atrair estes médicos para estas zonas com menos população, mas que têm que ter, obviamente, os mesmos direitos do que outras pessoas que vivem em grandes centros urbanos”, defendeu.
O bastonário criticou ainda o Ministério da Saúde de “andar distraído” sobre a defesa do SNS. “Porque é que o Ministério da Saúde parece andar distraído e parece ter deitado já a toalha ao chão, desistiu do Serviço Nacional de Saúde”, questionou.
Para Carlos Cortes, “não bastam discursos muito simpáticos” sobre a importância do SNS quando as “ações concretas” ficam “muito aquém do discurso oficial”.
Sobre a visita ao litoral alentejano, o bastonário voltou a alertar para a “enorme dificuldade em atrair” profissionais para uma Unidade Local de Saúde com “menos de 100 médicos” e a ter de “recorrer a prestadores de serviço”. Segundo o responsável, apenas 70% da população abrangida pela Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano tem médico de família.
“Há serviços hospitalares no nosso país, em hospitais mais centrais, que têm mais médicos do que tem esta região”, realçou.
SO/LUSA
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