Cancro da mama: sete anos de dados e uma ‘revolução’ que chega à sobrevivência global
A apresentação dos dados mais recentes sobre o uso de uma terapêutica em contexto adjuvante no cancro da mama marcou um dos momentos centrais do 22.º Congresso Nacional de Oncologia, realizado no Fórum Braga. Integrado no Simpósio Lilly, dedicado ao tema “avançando no tratamento do cancro da mama RH+ HER2-: estamos prontos para a revolução?”, o encontro reuniu clínicos, investigadores e profissionais de saúde em torno de uma evidência que, sete anos depois do arranque do ensaio MonarchE, continua a consolidar-se na prática clínica.

A sessão contou com a moderação de José Luís Passos Coelho, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia e médico oncologista do Hospital da Luz Lisboa, e de Luís Costa, da ULS Santa Maria, e teve como principais intervenientes Miguel Abreu, médico oncologista no IPO do Porto, e Nuno Tavares, médico oncologista na ULS São João.
Sete anos de follow-up e um benefício que se mantém
Coube a Miguel Abreu abrir a sessão com a apresentação dos dados mais recentes do ensaio MonarchE, um estudo clínico de fase III que avaliou a eficácia do abemaciclib, comercializado como Verzenios, em associação com terapêutica endócrina, em doentes com cancro da mama inicial de alto risco, RH positivo e HER2-negativo.
“Vou apresentar os últimos dados do follow-up a sete anos do abemaciclib, em contexto adjuvante, em carcinoma da mama. O MonarchE acabou por alterar aquilo que é o nosso tratamento adjuvante, introduzindo aqui um benefício de um novo fármaco à terapêutica, quer endócrina, quer standard”, começou por afirmar Miguel Abreu, enquadrando desde logo o impacto do estudo na prática clínica quotidiana.
O oncologista recordou que o ensaio se centrou, em particular, nas doentes incluídas na coorte 1 e na coorte 2, caracterizadas por critérios de elevado risco de recorrência. “Estamos a falar de doentes com mais de quatro gânglios metastizados, ou com um a três gânglios, mas com pelo menos uma característica adicional de alto risco”, explicou, sublinhando que estes critérios passaram a integrar a decisão terapêutica de forma rotineira.
À medida que o follow-up foi sendo prolongado, os resultados mantiveram-se consistentes. “Logo nos primeiros resultados percebemos que os endpoints primários, nomeadamente a sobrevivência livre de doença invasiva e a sobrevivência livre de doença à distância, eram positivos”, recordou. A dúvida inicial residia na possibilidade de um eventual carry-over effect perder força com o tempo. “Os dados aos 54 meses mostraram que o benefício era sustentado e, agora, com o follow-up a sete anos, isso confirma-se de forma clara”.
Os números apresentados reforçam essa leitura. Segundo Miguel Abreu, o ensaio demonstra “reduções de risco de 27,4% na sobrevivência livre de doença invasiva e de 25,4% na sobrevivência livre de doença à distância”, com um benefício que surge de forma precoce, logo no primeiro ano de tratamento, e que se mantém ao longo do tempo, à medida que as curvas se afastam.
Pela primeira vez, o estudo apresenta também dados maduros de sobrevivência global. “O estudo é positivo. Temos uma redução do risco de morte de 16,5% numa população de muito alto risco”, afirmou, destacando o rigor metodológico exigido pelas autoridades regulatórias, que implicou um número elevado de eventos antes da análise final. “Estamos a falar de um ensaio de fase III, multicêntrico, mundial, e isso também é importante sublinhar”.
Segurança, ajustes de dose e prática clínica
Outro dos pontos centrais da apresentação de Miguel Abreu foi o perfil de segurança do abemaciclib. “Com os follow-ups mais prolongados, percebemos que os padrões de segurança se mantêm exatamente iguais”, afirmou, acrescentando que a maioria dos eventos adversos surge nos primeiros meses de tratamento.
Apesar de cerca de 43,4% das doentes necessitarem de reduções de dose, essa necessidade não se traduziu numa perda de eficácia. “Já sabemos, com dados publicados do MonarchE e também com dados de vida real dos Estados Unidos, que esses ajustes não diminuem o benefício do tratamento, e isso é algo muito importante para a prática clínica”, sublinhou.

Miguel Abreu alertou ainda para a perceção, por vezes generalizada, de que a doença luminal recidiva mais tarde e tem um prognóstico mais favorável. “Quando olhamos para esta população de muito alto risco, percebemos que, aos sete anos, cerca de 11% das doentes tratadas apenas com terapêutica standard já morreram. Isto deve sensibilizar-nos para a agressividade desta doença em determinados subgrupos”.
Na discussão subsequente, questionado pela moderação sobre a necessidade frequente de ajustes de dose na prática clínica, o oncologista foi claro: “Num centro de alto volume, como é o meu, temos de tudo. Doentes que toleram muito bem, outras em que é preciso reduzir a dose. A preocupação é garantir adesão, sobretudo em doentes que já passaram por quimioterapia, cirurgia e radioterapia. Se queremos que adiram durante dois anos, temos de explicar bem os benefícios e gerir os efeitos secundários de forma pragmática”.
O puzzle terapêutico e a visão global
A segunda palestra do simpósio ficou a cargo de Nuno Tavares, sob o tema “O contributo de Verzenios para uma revolução terapêutica: estamos prontos?”. O oncologista da ULS São João propôs-se dar uma visão panorâmica sobre o papel do abemaciclib ao longo de todo o espectro da doença luminal, do estádio precoce ao metastático.
“Foi-me pedido que encaixasse as peças de um puzzle que os ensaios MonarchE foram construindo ao longo dos últimos anos”, afirmou, começando pelos dados pré-clínicos que distinguem o abemaciclib de outros inibidores das ciclinas. Entre as características destacadas estão a maior seletividade para a CDK4, a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica e o regime de administração contínua. “Esta inibição contínua pode traduzir-se numa maior eficácia ao nível do controlo do ciclo celular e da indução de senescência e apoptose”, explicou.
Seguiu-se a análise do programa clínico MonarchE, que, segundo Nuno Tavares, “cobre todo o espectro da doença luminal, tanto precoce como metastática”. No contexto adjuvante, salientou que se trata do único ensaio com inibidores das ciclinas que recrutou doentes em Portugal após o início da terapêutica endócrina. Já em situação de doença metastática, o fármaco demonstrou benefício tanto em doentes sensíveis como resistentes à hormonoterapia.
Os dados de eficácia foram apresentados de forma detalhada. “Temos um benefício claro na sobrevivência livre de progressão e na sobrevivência global”, afirmou, referindo medianas de sobrevivência livre de progressão de 29 meses no MonarchE 3 e de 16,9 meses no MonarchE 2. Em termos de sobrevivência global, destacou valores de 66 meses com abemaciclib associado a inibidores da aromatase e de 46 meses em associação com fulvestrant.

Qualidade de vida e trabalho em equipa
A segurança e a qualidade de vida voltaram a surgir como peças fundamentais do puzzle terapêutico. “Os dados mais prolongados não mostram sinais de alarme novos”, garantiu Nuno Tavares, sublinhando que a diarreia, embora frequente, é maioritariamente de baixo grau, manejável e reversível. “As taxas de descontinuação por diarreia são residuais, na ordem dos 2 a 4%”.
O oncologista enfatizou ainda a importância do acompanhamento multidisciplinar, antecipando os testemunhos de Armandina Esteves, responsável pela consulta farmacêutica oncológica da ULS São João, e de Anabela Amarelo, enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação na ULS – Gaia/Espinho.
“Na consulta farmacêutica, o principal objetivo é apoiar o doente para que consiga aderir ao tratamento de forma segura, informada e confiante”, explicou Armandina Esteves, detalhando um acompanhamento que inclui reconciliação terapêutica, educação para a saúde, monitorização precoce de efeitos adversos e apoio contínuo, presencial e à distância. “O farmacêutico, integrado na equipa multidisciplinar, é um elemento-chave para maximizar a probabilidade de o doente beneficiar dos ganhos de eficácia agora demonstrados”.
Já Anabela Amarelo sublinhou que a adesão à terapêutica oral começa na relação. “Na consulta de enfermagem começamos por perceber quem é a pessoa, o que sabe, o que a preocupa e quais são as suas expectativas”, afirmou. “A adesão nasce dessa relação e, quando a pessoa se sente segura, compreendida e acompanhada, consegue gerir melhor o tratamento e reportar mais cedo os sintomas”.
Um novo paradigma em consolidação
No encerramento da sessão, Nuno Tavares sintetizou o impacto global do abemaciclib na prática oncológica. “Temos eficácia comprovada em ensaios de fase III, múltiplas combinações possíveis com terapêutica endócrina, um perfil de segurança estabelecido e a possibilidade de reduzir doses sem comprometer a eficácia”, resumiu, recordando que o fármaco está disponível em Portugal para doença metastática desde 2019 e para doença precoce desde 2024.
Com mais de 270 mil doentes tratados em todo o mundo até 2024 e uma estimativa de 350 mil em 2025, o oncologista concluiu que “estas são as peças do puzzle que mostram o impacto no paradigma terapêutico. A evidência está construída. A pergunta que se coloca agora é se estamos, de facto, prontos para esta revolução”.
SO
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