“A prescrição cultural reconhece os determinantes sociais de saúde e permite complementar o modelo biomédico”
Sofia Bodas de Carvalho é médica de família e artista e, em entrevista, aborda a importância de se avançar com projetos de Prescrição Cultural. A redução dos sintomas de ansiedade e depressão, a diminuição do stress e da sensação de solidão são alguns dos benefícios deste tipo de abordagem.

Em que consiste a Prescrição Cultural?
A prescrição cultural é uma abordagem centrada na pessoa que permite encaminhar utentes para atividades artísticas, criativas e culturais existentes na comunidade, como visitas a museus, teatro, música, dança, leitura, escrita criativa… Destina-se sobretudo a pessoas que enfrentam situações de solidão, isolamento, stress ou sintomas ligeiros a moderados de ansiedade e depressão.
Mais do que o desenvolvimento de competências técnicas ou psicoterapia formal, o objetivo é criar oportunidades de participação, expressão e ligação aos outros. Estas atividades devem decorrer em ambientes acolhedores e livres de estigma, promovendo o bem-estar, a criatividade, o sentido de pertença e o envolvimento na comunidade. Trata-se, portanto, de uma intervenção complementar aos cuidados de saúde tradicionais, que reconhece a importância das dimensões sociais da saúde.
“… a prescrição cultural é um modelo específico dentro do espectro da prescrição social. Ambas reconhecem que a saúde é influenciada pelos vários determinantes da saúde”
Quais as mais-valias para utentes e profissionais de saúde, em particular médicos de família?
Para os utentes, os benefícios mais frequentemente descritos na literatura incluem a redução dos sintomas de ansiedade e depressão, a diminuição do stress e da sensação de solidão, bem como uma melhoria do bem-estar geral e da qualidade de vida. A participação em atividades culturais pode também reforçar a autoestima, a confiança, o sentido de propósito e a capacidade de cada pessoa assumir um papel mais ativo na gestão da sua saúde.
Para os médicos de família, a prescrição cultural representa uma ferramenta adicional para responder a problemas que nem sempre têm uma solução exclusivamente clínica. Muitas das dificuldades que encontramos diariamente nos cuidados de saúde primários estão relacionadas com isolamento social, perda de redes de apoio ou outras circunstâncias da vida que influenciam a saúde. A prescrição cultural reconhece os determinantes sociais de saúde e permite complementar o modelo biomédico com respostas comunitárias, reforçando uma abordagem mais integrada, humanizada e centrada nas necessidades reais das pessoas.
Este projeto não acaba por ser também Prescrição Social? Como se poderá conjugar/articular com as unidades onde já se aposta na Prescrição Social?
Sim, a prescrição cultural é um modelo específico dentro do espectro da prescrição social. Ambas reconhecem que a saúde é influenciada pelos vários determinantes da saúde e que, por vezes, a resposta mais adequada vai além de uma intervenção estritamente médica.
A diferença é que, enquanto a prescrição social abrange respostas tão diversas como apoio financeiro, habitacional, grupos de caminhada ou clubes de jardinagem, a prescrição cultural foca-se exclusivamente na participação em dinâmicas criativas, artísticas e culturais.
Nas unidades que já desenvolvem projetos de prescrição social, a integração da componente cultural surgirá de forma natural. Trata-se, sobretudo, de incluir na rede de parceiros locais, museus, bibliotecas, associações culturais, grupos artísticos e agentes culturais da comunidade.
Maria João Garcia
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