19 Mai, 2022

“A inovação deveria ser uma prioridade dos gestores do SNS”

A propósito do lançamento do livro “Inovação em Saúde por quem a pratica”, falámos com o professor universitário Pedro Pita Barros, um dos autores, que aponta grandes assimetrias na inovação em saúde em Portugal, defendendo que as “entidades de saúde, têm de ter a capacidade de olhar para a inovação e fazê-la parte do seu pensamento habitual”.

Que oportunidades de inovação estão por explorar em Portugal, e que identificaram neste livro?

O objetivo do livro foi tentar perceber se as entidades portuguesas (empresas e universidades) estão preparadas para aproveitarem as oportunidades de inovação na área da saúde, e não tanto descobrir o produto ou serviço em que Portugal pode inovar. Hoje em dia temos muita tendência para procurar métricas e estatísticas. No caso da inovação, é difícil quantificá-la com uma métrica exata. Por isso, a nossa preocupação foi perceber se existe uma forma sistemática de inovar em saúde em Portugal. Fomos então procurar respostas junto das organizações, no sentido de percebermos o que estão a fazer para que a inovação surja. Encontrámos aspetos facilitadores de inovação e outros onde há margem para melhorias.

Que lacunas identificaram no processo de inovação?

A ideia do conceito de inovação e do que se deve procurar quando a intenção é fazer inovação é algo que todas as empresas que analisámos têm, ou seja, não encontrámos nenhuma a chamar inovação a algo que não fosse inovador. Mas depois há uma grande diferença entre criar oportunidades de inovação ou aproveitar uma oportunidade que aparece no caminho. E vimos que umas entidades estão mais ativas na procura e outras são melhores a aproveitar as oportunidades.

Um aspeto interessante é que nem todas as organizações estão preparadas para aproveitarem as oportunidades de inovação. É algo que pode ser melhorado.

O que foi algo surpreendente foi perceber que apenas uma pequena parte das entidades está preocupada com as probabilidades de sucesso quando começam um processo de inovação e com o retorno que esse processo pode gerar. Muitas vezes, a inovação começa sem que haja uma preocupação com a probabilidade real de gerar um produto ou serviço que tenha capacidade de gerar retorno suficiente para pagar o investimento feito.

Outro desafio é a passagem da dimensão nacional para uma dimensão internacional. Isto porque é difícil que uma determinada inovação seja rentável e sustentável só com aplicação no mercado português. O que vimos foi que as empresas que tiveram mais sucesso na internacionalização acabaram por fazer parte da cadeia de valor de outros produtos. Não temos a preocupação de internacionalizarmos a inovação. A verdade é que Portugal nunca terá dimensão suficiente para ter uma grande empresa na área da saúde a fazer inovação de uma forma sustentada.

Outra lacuna que poderíamos suprir tem a ver criação de inovação pela observação do que concorrentes e parceiros fazem. É preciso treinar os colaboradores da empresa para pensarem o que pode propiciar a inovação, até a partir de uma necessidade de um cliente.

 

“O nível de inovação na área da saúde em Portugal é de três, de zero a cinco. Temos grandes assimetrias”

 

Como classificaria o nível de inovação que temos em Portugal na área da saúde?

Daria um nível três de zero a cinco. Temos grandes assimetrias, com empresas e organismos públicos muito virados para a inovação, mas depois temos pequenas e médias empresas que podiam ter maior capacidade de perceber as necessidades e que não têm ideias inovadoras. Neste trabalho quisemos sair do perímetro da indústria farmacêutica, onde existem muitas entidades portuguesas a terem sucesso, para pensar noutras inovações noutras áreas. Por exemplo, há uns anos, vi em Inglaterra mobiliário urbano adaptado para pessoas com dificuldades de locomoção – uma inovação com impacto na saúde e que não veio diretamente da área da saúde. A inovação em saúde não é só o grande medicamento, mas tudo o que envolve as pessoas e que as pode ajudar a viver melhor.

Dentro da saúde, existe, na sua opinião, alguma área com maior potencial de inovação que não esteja a ser aproveitada?

Poderíamos aproveitar melhor o nosso potencial na área das life sciences. Devemos ser capazes de ligar a biologia à tecnologia e à imagem. Nestas áreas, temos centros universitários e empresas com grande capacidade, mas falta interligação entre eles, nomeadamente no que diz respeito ao que cada uma destas entidades sabe e faz e as necessidades dos prestadores dos cuidados de saúde. Se o fizermos, conseguimos ter mais inovação.

Muitas vezes falha a ligação da academia ao terreno?

Exatamente. Temos de, a partir das necessidades do sistema de saúde, passarmos para a parte económica e produtiva. Para impulsionarmos essa ligação, temos de criar os mecanismos para juntar três vertentes: entidades de saúde, universidades e pequenas e média empresas que já tenham ligação à área da saúde. Umas têm o conhecimento de como fazer, outras o conhecimento teórico sobre os mecanismos que podem usar para inovarem, outros têm a necessidade. De forma sistemática, tanto quanto sei, não são desenvolvidos projetos desta forma na área da saúde.

 

“A inovação em saúde não é só o grande medicamento, mas tudo o que envolve as pessoas e que as pode ajudar a viver melhor”

 

A inovação deveria ser mais apoiada em Portugal por fundos públicos?

O importante é haver um acompanhamento às empresas, para pensar desde logo na internacionalização. Parte do ónus tem de ficar do lado das empresas e outras entidades, que têm de aproveitar as oportunidades de inovação. Os mecanismos de apoio públicos estão lá, o que falta é aproveitar esses mecanismos. A parte privada, as entidades de saúde, têm de ter a capacidade de olhar para a inovação e fazê-la parte do seu pensamento habitual, no sentido de criar valor e que possa gerar retorno. E não pensar na lógica do “o que posso tirar ao SNS para poder sobreviver”. O SNS não tem de ser promotor da atividade económica em saúde, nem tem de fomentar a sustentabilidade económica das empresas. O SNS tem de se preocupar com os seus objetivos – grosso modo, melhor a saúde da população. O que o SNS pode fazer é ajudar a identificar oportunidades de inovação, estando na linha da frente das ideias. E temos capacidade de o fazer.

Neste momento, considera que a inovação não é uma prioridade para os gestores do SNS?

Neste momento, não é. Mas deveria ser, na medida em que permite dar melhores cuidados de saúde à população.

SO

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