Saúde Online | Quais os principais riscos resultantes da implantação de um dispositivo eletrónico cardíaco?

Dr. Hipólito Reis | Os dispositivos cardíacos electrónicos implantáveis (DCEI), grupo que engloba os pacemakers, os cardioversores-desfibrilhadores implantáveis, os sistemas de ressincronização cardíaca e os detectores de eventos subcutâneos, têm vindo a ocupar um papel de destaque no tratamento e monitorização das arritmias, permitindo melhorar a qualidade de vida dos doentes, a estabilização clínica e em muitos casos a sua sobrevida.

Com a utilização crescente destes aparelhos, associada a alguns factores como o envelhecimento da população, bem como ao aumento das comorbilidades, tem-se assistido, em paralelo, a um aumento das complicações,  sendo a infecção associada aos DCEI uma das mais temidas, pois para além de estar relacionada com uma morbilidade e mortalidade significativas, representa um impacto económico relevante, devido aos internamentos prolongados e à necessidade quase sempre da explantação de todo o sistema.

Qual é probabilidade de um doente em que foi colocado um implante vir a desenvolver uma infeção? O risco varia consoante o tipo de dispositivo?

O risco de desenvolvimento de infecção está calculado em 1 – 4% dos casos, sendo diferente em relação aos diversos aparelhos, menor para os pacemakers, maior para os cardioversores desfibrilhadores implantáveis (CDI´s) e, ainda, mais prevalente nos sistemas de ressincronização cardíaca – procedimentos mais complexos e mais demorados.

Também está comprovado maior risco de infecção para as situações de substituição de gerador ou de qualquer revisão cirúrgica.

Envelope bacteriano

Como se tratam infeções deste tipo?

As infecções constituem situações graves que obrigam quase sempre a um internamento hospitalar, com necessidade de tratamentos prolongados com antibióticos endovenosos e, na maioria dos casos, à extracção de todo o sistema (gerador e eléctrodos) que constitui um procedimento complexo, com risco muito significativo para o doente.

Quais as consequências de uma infeção para o doente? Uma infeção reduz o risco de sucesso do implante ou não tem influência?

Como foi explicada a infecção coloca em causa a terapêutica, obrigando muitas vezes a modificar a estratégia da aplicação do dispositivo que, em alguns casos, passa mesmo pela cirurgia, quer para extracção do aparelho, quer para colocação do novo sistema, por vezes com soluções menos apropriadas para a situação clínica.

A colocação destes dispositivos cardíacos tem vindo a aumentar, bem como as infeções associadas?

Sim, observa-se um volume crescente de implantações de todos estes aparelhos, que acompanha o envelhecimento da população, o melhor diagnóstico e a expansão das indicações para a sua utilização.

Associado a este maior volume de dispositivos tem-se vindo a constatar um maior número de infecções, dada a maior complexidade dos aparelhos e das características dos doentes tratados.

O que pode levar ao aparecimento da infeção? Quais os fatores de risco?

Existem vários factores que podem levar ao aumento do risco de infecção e que estão relacionados quer com o doente, como por exemplo doentes imunodeprimidos, com doença renal crónica, diabéticos, ou a fazer terapêuticas anti-trombóticas (os hematomas aumentam cerca de 15 vezes o risco de infecção), quer com o tipo de cirurgia – procedimentos mais complexos, nomeadamente nos mais prolongados, uma vez que maior tempo significa maior risco de complicação.

Em que consiste o ‘envelope bacteriano’, que foi avaliado através do estudo WRAP-IT, apresentado no congresso da European Heart Rhythmn Association (EHRA) 2019?

Trata-se de um dispositivo médico constituído por uma rede de polímero que está impregnado com antibióticos (minociclina e rifampicina), que são libertados de forma lenta, pelo menos duramente 7 dias e cuja estrutura é completamente reabsorvida pelo organismo num período de até 9 semanas. Tem a forma de um envelope e vai envolver quer o gerador quer a porção restantes dos eléctrodos na loca, ajudando também a estabilizar o dispositivo.

Quais as potencialidades deste envelope para prevenir infeções? Esta solução já está a ser utilizada em Portugal?

A utilização deste envelope pode reduzir as infecções relacionadas com o procedimento de forma muito significativa, em 61-100%, sem aumentar o risco de outras complicações, conforme demonstrado pelo Estudo WRAP-IT. Esta solução já está disponível em Portugal, que também participou neste estudo com 2 Centros, e na sequência dos excelentes resultados pode ser expectável uma utilização regular em casos seleccionados.

Tiago Caeiro

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