A crise económica e social que assola a Venezuela há anos está a fazer disparar o número de crianças malnutridas que chegam aos hospitais públicos. O observatório venezuelano da saúde diz que mais de 60% da população infantil do país está subnutrida. A Cáritas divulgou um número alarmante: todas as semanas entre 5 e 6 crianças morrem à fome na Venezuela, mesmo depois de serem hospitalizadas.

Esta sexta-feira, por exemplo, fontes do hospital de Maturín, uma zona pobre nos subúrbios de Caracas, confirmou a morte dentro do hospital de pelo menos 18 crianças nos últimos dois meses. “No primeiro mês deste ano, 25 crianças deram entrada, apresentando quadros clínicos de desnutrição crónica e em fevereiro registaram-se mais quatro admissões. Desses 29 casos, apenas 11 sobreviveram”, afirmou a chefe de pediatria do Hospital Universitário Dr. Manuel Núñez Tovar. Segundo Yacirka Vásques, as vítimas vão de lactantes até crianças com menos de quatro anos de idade.

Yacirka Vásques explicou que perante a falta de recursos económicos para comprar leite ou fórmulas lácteas, as mães dão água de arroz, massa ou aveia a crianças com menos de um ano, o que tem originado doenças intestinais. Por outro lado, revelou que foram registados quatro casos de meningite e que as vacinas para tratar essa doença estão esgotadas desde o começo do ano.

A Cáritas detectou níveis alarmantes de desnutrição infantil nas províncias de Miranda, Vargas, Zulia e Distrito Capital. O jornal americano Epoch Times conta a história da mãe de Germain, que diz não saber como ajudar seu filho, que pesa metade do que deveria aos 11 anos de idade. A mesma preocupação tem a avó de Agnely: a sua neta, com 7 anos de idade, pesa 18 quilos porque come apenas uma ou duas vezes por dia.

Ainda segundo a Cáritas, 33% da população infantil já dá mostras de um atraso no crescimento”, o que causa “danos físicos e mentais” que se manterão ao “longo de toda a vida”.

O jornal New York Times (NYT) esteve cinco meses na Venezuela a investigar as condições em que funcionavam 21 hospitais públicos. Ao longo da investigação, os médicos garantiram que as salas de emergência estavam cheias de menores com “desnutrição severa”. “As crianças estão a chegar em condições muito precárias de desnutrição”, disse Huníades Urbina Medina, o presidente da Sociedade Venezuelana de Puericultura e Pediatria. Os médicos garantem estar a presenciar quadros de desnutrição tão extrema como a que ocorre em campos de refugiados.

O jornal norte-americano revela a história de Kenyerber, um menino de 17 meses que sucumbiu à fome. “Um pai saiu da morgue do hospital antes de amanhecer para o levar para casa. Carregou o bebé esquelético e entregou-o a um trabalhar funerário que faz visitas ao domicílio a famílias venezuelanas que não têm dinheiro para realizar um funeral”, descrevem os jornalistas Meridith Kohut and Isayen Herrera.

Com a espinha dorsal e as costelas à vista, o bebé foi colocado num caixão com duas asas recortadas em cartão – prática comum entre os venezuelanos, que acreditam que assim a alma chega mais facilmente ao céu.

Segundo o NYT, à porta das clínicas de esterilização vêem-se filas de mulheres que querem evitar uma gravidez por saber que não vão conseguir alimentar os seus filhos. O jornal diz que jovens são obrigados a deixar as suas casas para se juntarem a grupos que de outros jovens que procuram comida, com os seus corpos a carregarem cicatrizes das lutas com os grupos rivais.

“Em 2017, o aumento dos pacientes malnutridos tem sido terrível”, acrescentou. “As crianças chegam com o mesmo peso e altura de um recém-nascido”, lamenta o Dr. Milagros Hernández, médico de um hospital infantil da cidade de Barquisimeto, no Oeste do país.

O governo venezuelano tenta encobrir a gravidade da crise, não publicando estatísticas de saúde. Contudo, os números que existem são alarmantes. Em 2016, segundo relatórios do ministério da Saúde venezuelano que foram depois apagados, 11.446 crianças menores de um ano morreram – o que equivale a um aumento de 30% em 12 meses. Há até médicos com medo de registarem óbitos associados à malnutrição com receio de consequências.

“Nunca na minha vida vi tantas crianças com fome”, garantiu a pediatra Livia Machado, que dá consultas gratuitas na sua clínica privada para crianças hospitalizadas no hospital Dr. Domingo Luciani, na capital, Caracas. Há hospitais que recusam tratar crianças subnutridas alegando já não terem recursos suficientes.

No último ano, 2800 casos de desnutrição infantil foram registados no país, sendo que 400 menores morreram. Cada vez mais, viver na Venezuela é uma agonia constante.

SO/ Fotos: NYT

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