Velhice, longevidade e outras conversas
Especialista em Medicina Geral e Familiar

Velhice, longevidade e outras conversas

No início do século XX, a esperança de vida à nascença não chegava aos 50 anos. As vidas eram cortadas por mortes rápidas, digamos assim: traumatismos e doenças infecciosas. Quando nascemos, começamos um caminho ou uma luta que vai concluir-se com a morte. Tomamos uma estrada de sentido único, que passa célere pela juventude, que disso se não apercebe. O que não desmerece a noção maioritária de que os velhos estão mais apegados à vida do que os mais jovens.

Jean-Jacques Rousseau, o grande filósofo gaulês do século XVIII, interrogava-se sobre se seria no momento em que se vai morrer, que valeria a pena ou sentido aprender como se deveria ter vivido…

Na verdade, embora possamos aprender durante toda a vida, é durante a juventude que o devemos fazer e, depois, praticar ao longo do que resta da saúde do corpo… Quanto mais velhos, mais saudáveis fomos, afirma o senso comum.

Mas a discussão entre envelhecimento e longevidade vai gerando novas pistas de investigação e esboços de estratégias várias. Também se conhecem inúmeros vigaristas e charlatões que sugerem, apregoam e comercializam segredos e milagres para vidas longas.

No entanto, os países mais desenvolvidos confrontam-se com uma crise demográfica, marcada pelo declínio populacional, o que agrava as questões em torno da sustentabilidade dos sistemas públicos de saúde e de segurança social.

Urge, portanto, a definição de uma racionalização e planificação para viver mais tempo e melhor, controlando os estados de fragilidade extrema e degenerativos que liquidam os orçamentos dos países ocidentais.

Não podemos deixar de pensar no crescendo de indivíduos centenários. Sabemos que evidenciam, designadamente, doença cardiovascular bem mais tarde do que os outros, décadas depois…

Os genes poderão ser responsáveis por cerca de 20 a 30% da variação global de duração de vida humana. E, por outro lado, será essa relação com os genes que nos elucidará, por exemplo, sobre o facto de a patologia aterosclerótica matar muito mais gente do que o cancro?

Certamente que haverá muitos ângulos mortos sobre o entendimento do que possa promover a doença ou o risco de doença e o seu peso na mortalidade. Este é claramente um ponto relevante e evocaria o caso da diabetes, onde sabemos que a instituição do diagnóstico surge sempre atrasada relativamente ao início da doença.

Na doença vascular, a nossa avaliação do risco cardiovascular, ou do score de risco, vai igualmente a reboque da linha cronológica e evolutiva da doença.

Não tentar nada, não arriscar pensar, não é um jeito que me assente bem. Qualquer prevenção, todo e qualquer gesto ou medida nesse sentido, terá de começar muito precocemente, compreendendo que a idade é uma ameaça exponencial de exposição aos riscos de doenças múltiplas, vasculares, neurodegenerativas ou oncológicas, essencialmente!

E não devemos ignorar obviamente os impactos de questões ligadas a uma panóplia vasta de doenças profissionais e outras, menos estudadas, associadas aos factores ambientais e climáticos e suas interacções.

Junto-me, assim, a quem defende a ideia de “eliminar” ou “erradicar” o conceito ou o limiar do que designamos de baixo risco. Carecemos, como médicos e como cidadãos, de novas estratégias para viver mais tempo e melhor.

Certo é que parece pouco ajuizado, a aflição com o aguardar da morte enquanto existimos. Epicuro, na naturalidade generosa de um ainda tardar a morte, recordava que esse momento não ocorre se estamos vivos e, chegado entretanto, não existimos mais…

 

*O autor escreve de acordo com o A.A.O.

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