“Um dos desígnios da SPEDM é trabalhar em parceria com a MGF na luta contra a diabetes”

No Dia Mundial da Diabetes, João Jácome de Castro, Presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e Diabetes Mellitus (SPEDM), alerta para uma doença que continua a ser uma preocupação.

“Acesso a cuidados de Saúde” é a temática central do Dia Mundial da Diabetes 2022. Como avalia este acesso?

No que diz respeito à acessibilidade, podemos ter em conta três pontos essenciais: acesso aos cuidados, à terapêutica e às novas tecnologias. Todos eles são fundamentais e têm, como pano de fundo, o acesso à informação. Relativamente ao primeiro, com a pandemia registaram-se atrasos na prestação de cuidados de saúde, nomeadamente no rastreio da retinopatia diabética, e que tem de ser melhorado. É muito importante investir no acesso das pessoas com diabetes a rastreios e consultas. É preciso também formar equipas multidisciplinares que tratem os doentes, porque o endocrinologista não trabalha sozinho, mas com o médico de família, o internista, o enfermeiro, o nutricionista, entre outros.

Em Portugal  é ainda necessário agilizar a aprovação das novas terapêuticas, porque temos um atraso de cerca de 2 anos em comparação com os nossos pares europeus. Este é um trabalho que exige união entre todos, quer autoridades de saúde quer sociedades científicas. O acesso à tecnologia é outra área crucial, devendo-se disponibilizar os novos dispositivos de perfusão contínua também aos adultos com diabetes tipo 1, assim como é importante promover um acesso mais alargado aos equipamentos de monitorização contínua da glicemia.

 

É um trabalho conjunto e que também tem de envolver o doente?

Sim, sem dúvida, daí a relevância da educação para a saúde. A pessoa com diabetes tem de estar no centro dos cuidados, estando à sua volta os profissionais de saúde que tratam a diabetes de diferentes especialidades e grupos profissionais. Mas a pessoa tem de saber como fazer a autogestão da sua doença.

“A falta de especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) é claramente uma preocupação e tem repercussão no combate a esta doença”

 

No caso do acesso aos cuidados de saúde, surge o problema de, nalgumas regiões, haver muitos utentes sem médico de família. Pode ser um revés muito grande no combate à diabetes?

A falta de especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) é claramente uma preocupação e tem repercussão no combate a esta doença. Os  médicos de família são o pilar fundamental nos cuidados a prestar às pessoas com diabetes. A Endocrinologia pode ser um farol na área da diabetes, mas isso não significa uma luta solitária. Aliás, um dos desígnios da SPEDM é trabalhar em parceria com a MGF na luta contra a diabetes. Qualquer falha no sistema de saúde vai afetar, quer seja o não existir médicos de família suficientes quer seja não haver enfermeiros e nutricionistas, entre outros.

 

As unidades coordenadoras funcionais da diabetes (UCFD) avançaram nalgumas regiões, noutras não tanto. Considera que se deveria reforçar este modelo de prestação de cuidados?

O fundamental é haver unidades a que os doentes tenham acesso fácil e que prestem cuidados de forma multidisciplinar, não importa tanto a designação. O que importa é criar capacidades.

“Ao perder-se peso numa fase precoce, com os novos medicamentos, associados a hábitos saudáveis, será possível até que se entre em remissão no caso da diabetes tipo 2”

 

Face a todas as campanhas de educação para a saúde, tem esperança de que no futuro venhamos a ter menos casos de diabetes?

Sim, acredito que sim. Acredito que venha a haver menos casos de diabetes, porque os jovens já começam a adotar estilos de vida saudáveis e, quando a doença está instalada, as novas terapêuticas permitem um maior controlo da patologia e ajudam a perder peso de forma significativa e com segurança. Ao perder-se peso numa fase precoce, com os novos medicamentos, associados a hábitos saudáveis, será possível até que se entre em remissão no caso da diabetes tipo 2. Isso é possível, quando é detetada numa fase precoce, o que contribui para uma melhor qualidade de vida e para menos custos a longo prazo para o sistema de saúde.

SO

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