27 Fev, 2020

Tratamentos com agonistas de opioides reduzem risco de overdose fatal em 80%

Investigadores referem a necessidade de apostar em estratégias de adesão ao tratamento com agonistas de opioides para assegurar prevenção da overdose.

Os doentes com transtorno de uso de opioides (OUD) que receberam tratamento com agonistas de opioides (nomeadamente fármacos como metadona ou buprenorfina) tiveram um risco 80% menor de morrer de overdose de opioides em comparação com pacientes em tratamento sem o uso de medicamentos.

A nova descoberta, publicadas online a 25 de fevereiro na revista Addiction, resulta de um trabalho de investigação com a colaboração de investigadores da NYU Grossman School of Medicine, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, do Departamento de Saúde de Maryland e de várias agências do Estado de Maryland.

A maioria das pesquisas que analisam a eficácia do tratamento medicamentoso para OUD em estudos populacionais foi realizada fora dos EUA e compara pacientes que recebem tratamento com aqueles fármacos com os que não recebem tratamento. Este é um dos primeiros estudos de base populacional nos Estados Unidos da América (EUA), referem os investigadores, a comparar o risco de overdose entre duas populações de pacientes em todo um Estado, em cujos braços do estudo incluem medicamentos agonistas e um grupo de controle que recebe intervenções psicossociais sem medicamentos agonistas.

Além disso, a equipa de especialistas constatou que estar em qualquer programa de tratamento para OUD (com ou sem medicação) é protetor contra a overdose em comparação a não estar a receber qualquer tratamento. No entanto, nenhum dos tipos de tratamento oferece proteção adicional contra a overdose letal quando os doentes abandonam o tratamento.

Nos Estados Unidos da América, aproximadamente 60% dos pacientes que entram em programas de tratamento especializado para o OUD não recebem medicação e muitos doentes com acesso ao tratamento medicamentoso interrompem prematuramente os cuidados. A descontinuação da terapêutica, geralmente, ocorre devido ao estigma persistente em relação ao uso de medicamentos para tratamento de OUD, ao qual se juntam as barreiras logísticas envolvidas no acesso ao tratamento medicamentoso, o que, por sua vez, pode levar a recaídas e a overdoses.

Os pesquisadores também descobriram que tomar agonistas durante o tratamento da dependência não ofereceu proteção contra overdose fatal de opioides se os doentes deixarem o tratamento. “Essa falta de proteção pós-tratamento destaca a necessidade de promover melhores estratégias de retenção terapêutica para que os pacientes possam permanecer em tratamento enquanto este continuar a ajudá-los”, disse a Dr.ª Noa Krawczyk, professora assistente no Centro de Epidemiologia e Política de Opioides no Departamento de Saúde da População da NYU Langone Health e principal autora do estudo.

A equipa também observou que o risco de overdose era mais alto no primeiro mês após o fim do tratamento para a dependência de opioides, tanto para os grupos de tratamento com medicamentos quanto para os que não usavam medicamentos.

Como o estudo foi conduzido

A Dr.ª Noa Krawczyk e a restante equipa examinaram os registos administrativos de programas de tratamento de dependência de opioides em ambulatório com financiamento público em 2015 a 2016, com registo de 48.274 doentes com diagnóstico primário de transtorno de uso de opioides. A equipa cruzou essas informações com os dados de mortalidade fornecidos pelo Gabinete do Médico-legista de Maryland. Setenta e dois por cento dos pacientes em tratamento receberam medicação durante o período analisado pelo estudo, enquanto 28% não receberam terapêutica, percentagens que diferem significativamente do cenário nacional, onde menos de 40% dos pacientes em tratamento recebem medicação para OUD.

OS pesquisadores compararam quatro grupos distintos de indivíduos: pessoas a receber tratamento sem medicação, pessoas a receber tratamento com medicação, pessoas que já não estavam em tratamento, mas que deixaram o tratamento sem medicação, e pessoas que deixaram o tratamento com medicação.

Iniciar o tratamento medicamentoso é um ótimo primeiro passo, mas a retenção no programa de tratamento é igualmente importante“, afirmou a Dr.ª Noa Krawczyk. “Por isso, precisamos remover barreiras à continuação do atendimento, adotar mais abordagens de redução de danos e empregar melhores estratégias para incentivar e permitir que as pessoas continuem em tratamento”, concluiu.

RV/Science Mag

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