Suplementação de ferro na Mulher: Muito Além da Anemia
Quando se fala em ferro, automaticamente pensamos em anemia. Esta associação, embora legítima, dado que cerca de 90% dos casos de anemia são ferropénicas, é muito redutora. Sabemos que ferro está envolvido em dezenas de processos fisiológicos: desde a produção de energia à regulação da função tiroideia, passando pela síntese de neurotransmissores e pelo suporte do sistema imunitário.
A deficiência de ferro é a uma das doenças nutricionais mais prevalentes em todo o mundo! A suplementação com ferro na anemia é conhecida desde o século XVII, pelo físico inglês, Thomas Sydenham, mas só no século XIX, surgiram os primeiros estudos controlados e randomizados e estudos observacionais, procurando a associação entre os sintomas de fadiga, cansaço, astenia em pacientes sem anemia, mas só nos finais dos anos 70 é que se provou a eficácia da suplementação de ferro nos casos de deficiência de ferro sem anemia.
A anemia é, na realidade, a última etapa de uma longa cadeia de depleção de ferro. Muito antes de ter tradução analítica no hemograma e na hemoglobina, o organismo já está a sofrer as consequências de reservas insuficientes, e é aqui que entra a ferritina.
A ferritina, é a proteína que armazena ferro no interior das células, a nível do fígado, baço e medula óssea. O valor que aparece nas análises de sangue reflete diretamente essas reservas. É, por isso, o marcador mais precoce e sensível do estado do ferro no organismo.
Nas mulheres, a avaliação da ferritina é particularmente relevante, uma vez que, as suas situações fisiológicas aumentam a perda ou a necessidade de ferro. A menstruação regular é uma das principais causas de redução das reservas de ferro, sobretudo em mulheres com cataménio intenso e em casos de hemorragia uterina anómala. Durante a gravidez e amamentação a necessidade de ferro aumenta significativamente.
Assim, uma parte significativa das mulheres vive com ferritina baixa sem o saber. A fadiga persistente e desproporcional ao esforço é o sintoma mais comum. Mas a lista é longa: dificuldade de concentração e memória, queda de cabelo difusa, unhas quebradiças, intolerância ao frio, palpitações, irritabilidade, síndrome das pernas inquietas e baixo humor. Em mulheres com hipotiroidismo, a deficiência de ferro pode agravar significativamente os sintomas da tiroide, uma vez que o ferro é necessário para a produção das hormonas tiroideias.
O desafio reside nos valores de referência utilizados. Inicialmente estabelecido como “normal” qualquer valor acima de 12 a 15 ng/mL. Vários estudos mais recentes indicam que sintomas significativos podem surgir com ferritina abaixo de 30 a 50ng/mL, especialmente em mulheres em idade fértil.
Na tabela 1, são apresentados os valores de referência de ferro sérico e ferritina na mulher, nas diferentes fases da vida, baseados em diferentes metanálises.
No estudo de sintomas que nos fazem pensar em anemia (fadiga, astenia, mialgias), pedir apenas o hemograma completo não é suficiente. A hemoglobina pode estar dentro dos valores normais enquanto a ferritina se encontra em níveis criticamente baixos. Para um diagnóstico preciso, é necessário pedir a ferritina sérica em conjunto com o ferro sérico e a saturação de transferrina.
A evidência mais atual, recomenda a suplementação de ferro nos casos sintomáticos, mesmo sem anemia, com valor alvo de ferritina de 100mg/L. O tratamento deverá ser continuado até normalização de valores analíticos e melhoria substancial dos sintomas, com seguimento analítico a cada 6 a 12 meses. Para além da ingesta, a suplementação oral é a primeira linha, guardando as formulações endovenosas, para situações resistentes.
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