19 Mar, 2021

Sono. “Nos países mais ricos, a sua privação custa entre 1,3% e 3% do PIB”

De forma a compreender as implicações que a pandemia está a ter no sono dos portugueses, a neurologista Teresa Paiva está a desenvolver estudos para analisar o impacto de cada uma das vagas.

Assinala-se hoje, dia 19 de março, o Dia Mundial do Sono. Esta efeméride, que se celebra todos os anos na sexta-feira anterior ao equinócio da Primavera, foi instituída pela World Seep Society, com o objetivo de alertar a sociedade para os benefícios do sono e para os riscos da sua ausência. “Sono regular para um futuro saudável” é o mote deste ano.

De forma a compreender as implicações que a pandemia está a ter no sono dos portugueses, Teresa Paiva, neurologista e uma das mais reputadas especialistas do sono a nível mundial, está, em conjunto com a sua equipa, a desenvolver estudos para analisar o impacto de cada uma das vagas.

Se quiser participar no último inquérito sobre a terceira vaga de covid-19, e de que modo é que esta está a ter impacto na sua qualidade de vida, basta fazê-lo através do link respetivo.

 

 

  1. Após quase 40 anos a ensinar os portugueses a dormir, como observa que está a saúde do repouso dos portugueses?

Há muitas melhorias na medida em que há muitos mais profissionais a trabalhar na área do sono, a fazer publicações e a desenvolver um bom tralho. Nesse aspeto está melhor, pois há também uma maior atenção dado ao problema.

Mas dizer que os portugueses dormem bem, não o posso fazer. Pessoalmente recebo doentes muito difíceis e com situações bastante graves, o que me faz ver constantemente a pior faceta dos problemas que aí advêm.

Especialmente nestes últimos tempos, temos estado a realizar inquéritos sobre a qualidade do sono durante a pandemia e é um facto que temos muitas pessoas doentes. Esta é uma noção que Portugal tem de ter.

 

  1. A insónia, a síndrome das pernas inquietas e a apneia do sono continuam a ser os distúrbios mais frequentes do sono dos portugueses?

Esses continuam a ser os distúrbios mais frequentes, mas o maior problema atualmente é a privação do sono. As pessoas dormem muito menos do que deviam dormir e agora, durante a pandemia, começaram a ter horários muito tardios. Esse, com certeza, que é um problema muito importante, até porque está a atingir todas as idades. As crianças estão a dormir muito menos do que deveriam, devido aos “ladrões do sono”, como os telemóveis, tablets, consolas… e, portanto, a situação está preocupante e é preciso fazer muito trabalho nesse sentido.

 

  1. Várias são as pessoas que relatam dificuldades em adormecer e/ou acordar, desde o início da pandemia, e até distúrbios nos sonhos, que se tornaram mais agitados e perturbadores do sono, na sua generalidade. Isso é um motivo de preocupação?

Quando se dorme mais durante manhã, tende-se a sonhar mais. Portanto, quando em vez de acordar às 8h, se acorda às 10h, 11h ou meio-dia a pessoa vai sonhar mais, só pelo simples facto de estar a dormir de manhã. Há também associado a isso a preocupação generalizada com o próprio contexto atual. As pessoas têm um sono mais agitado, sonham mais, têm mais pesadelos (principalmente as mulheres), que são no fundo um reflexo das suas próprias preocupações.

 

  1. E que implicações é que pode ter futuramente e até estar já a ter no momento, no que concerne à saúde mental dos portugueses?

Nós lançámos recentemente um inquérito, relativo a esta terceira vaga da pandemia. O que o caracteriza é o facto de ter múltiplas várias perguntas, pois existem inquéritos que têm apenas meia dúzia de questões, e dos quais as pessoas até gostam muito porque estão ali entretidas a responder, mas os questionários muito curtos são, geralmente, pouco informativos.

O primeiro inquérito que fizemos, e do qual já temos três papers aceites, tinha 177 perguntas e questionava as pessoas sobre muita coisa, desde as doenças que tinham, os hábitos, o seu humor, sobre o que aconteceu antes e depois do surgimento do covid-19, sobre o sono, as suas atitudes, comportamentos, dependências, como se alimentavam e os seus hábitos de atividade física. Foi, por isso, muito complexo e possibilitou visões muito globais do problema.

Esta terceira vaga é um pouco diferente, pois se a primeira foi uma autêntica surpresa, na atual vaga as pessoas já estão fartas, pois já dura há demasiado tempo. E aparentemente não há um fim há vista, ou pelo menos não existe um limite temporal.

Depois há ainda algo que eu acho que podia ter sido um pouco evitado, que é uma grande inconsistência nos assuntos: hoje diz-me uma coisa, mas depois contradiz-se o que se disse, depois afirma-se ainda uma terceira versão. Isto cria uma enorme insegurança nas pessoas. Eu não estou a criticar ninguém em particular, não é uma crítica, até porque eu acho que deve ser muito difícil estar em posições de poder neste momento. Mas simplesmente há decisões que condicionam muito o agravamento psicológico, bem como a situação económica.

Nós não somos feitos de gavetas, somos pessoas inteiras. Por isso não podemos decidir, “agora vou abrir a gaveta do sono, agora a das atitudes, agora a da alimentação, agora do trabalho”, pois não funciona assim, nós funcionamos como um todo e, é impossível olharmos para as coisas sem ver a marcada influência que isto tem nos fatores todos.

Por isso estou muito contente com toda a informação que já foi aceite. Temos um grupo enorme, com quase 50 pessoas a trabalhar em rede pelo país todo e é muito importante que estes estudos sejam feitos.

 

  1. E o que tem a dizer de comportamentos como a automedicação?

Acho muito mal. Eu, com a idade que tenho, e com as doenças e problemas que tive ao longo da vida nunca tomei um comprimido para dormir na minha vida. Portanto eu não sou favorável a que as pessoas tomem medicamentos para dormir.

Eu costumo dizer que saúde que nós temos é também uma responsabilidade individual. O estado tem uma obrigação de nos fornecer os serviços de saúde, mas os comportamentos que as pessoas têm de ter para ter uma boa saúde, são essencialmente uma responsabilidade de cada pessoa. É a pessoa que tem de tomar decisões ajustadas. Ela tem de saber que se quiser ficar várias noites acordada, a trabalhar loucamente durante semanas, é ela que vai sofrer as consequências e ficar doente.

A pessoa que decide tomar imensas medicações para dormir, vai ter alterações na própria estrutura do sono, induzidas por esses mesmos remédios. E o que acontece também é que as pessoas tomam medicamentos para muitos áreas e o que acontece é que por vezes os problemas de sono resultam dessas mesmas reações medicamentosas. Portanto há que ponderar bem qual a origem da insónia, pois esta muitas vezes melhora retirando exatamente algumas medicações.

 

  1. Quanto custa ao país, de forma direta ou indireta, ter os portugueses a dormir mal?

Nos países mais ricos do mundo como China, Japão, EUA, Alemanha, França e Canadá a privação do sono custa entre 1,3% e 3% do PIB desses países. São custos enormes que estes países têm, por isso conclui-se que o sono sai caro e a privação do sono sai cara.

A privação de sono tem risco de cancro, demência de morte mais precoce, de diabetes, de AVC, de hipertensão, sendo estas consequências muito graves! Para além destas tem ainda um aumento dos comportamentos de risco e dos comportamentos violentos. Portanto, o que é que estamos a fazer? Cada um de nós tem de assumir individualmente a sua responsabilidade, como também coletivamente.

A nossa cultura é uma cultura que tem muitas características fantásticas e outras muito disruptivas. A cultura do trabalho faz com que as pessoas pensem que é bonito e fino trabalhar horas excessivas, fazer multitasking e que achem que independentemente da hora a que sejam contactadas, que têm sempre de responder. Estas três ideias são completamente negativas do ponto de vista da produtividade das pessoas, pois esta é-lhes diminuída. E, simultaneamente, é-lhes aumentado o risco de insónias, de depressão, de burnout.

E o mais preocupante é que este “pequeno” problema que é aplicado aos adultos, que é stress e não é suposto ser feito, é ainda aplicado às crianças. Considerando que o horário de um adulto é de 35 horas, não se pode pensar que uma criança também tenha que trabalhar 35 horas; não faz sentido. E se reparar, estas são as regras em muitas escolas. E também em muitas universidades gabam-se desta ideia, e é por isso que muitos estudantes do ensino superior acabam os seus cursos com esgotamentos e outros distúrbios.

O que está a acontecer agora é que as pessoas estão com dificuldades em estabelecer um limite entre as horas de trabalho e a sua vida pessoa. E isso é fundamental que exista, a pessoa não pode melhorar tudo. Não há nada perfeito, mas tudo é perfeitamente ajustável.

Daniela Tomé

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