9 Mar, 2022

“Reduzir a carga de fármacos retrovirais é uma necessidade real na infeção por VIH”

No âmbito das 13ªs Jornadas de Atualização em Doenças Infeciosas do Hospital de Curry Cabral, realizou-se, no dia 24 de fevereiro, a mesa-redonda sob o mote “Infeção por VIH”, que contou com a moderação do infeciologista Fernando Maltez e da diretora do serviço de Infeciologia do Hospital Fernando Fonseca, Patrícia Pacheco.

“Reduzir a carga de fármacos retrovirais é uma necessidade real na infeção por VIH”, introduziu a especialista em Doenças Infeciosas, Marta Boffito, ao mostrar a sua intenção de discutir os dados mais recentes sobre a disponibilidade de combinações de fármacos com longa duração de ação e de fazer um ponto de situação sobre o uso de terapêutica dupla na infeção por VIH.

De acordo com a professora da Imperial College of London, é crucial “garantir que os tratamentos antivirais são simples e bem tolerados. É fundamental tentar evitar ao máximo interações entre medicamentos e, acima de tudo, garantir que o vírus se mantém indetetável, porque indetetável significa intransmissível, o que é muito importante do ponto de vista da Saúde Pública”.

Neste sentido, com base num estudo recentemente publicado, a especialista acredita que “a verdadeira revolução da combinação de fármacos no contexto de terapêutica dupla corresponde ao Dolutegravir, porque se caracteriza por ter uma alta barreira genética e não tem a desvantagem de ser necessário um reforço”.

Acima de tudo, para tratar doentes com esta infeção, “precisamos de considerar o histórico, diagnosticar, prevenir, gerir comorbidades, otimizar a polifarmácia e avaliar a dimensão social do ciclo em que os utentes se encontram”, concluiu Marta Boffito.

Além de promover intervenções terapêuticas, é fundamental prevenir. Tendo isto em consideração, o professor de Doenças Infeciosas da Universidade de Paris, Jean-Michel Molina, procurou explorar de que modo a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) – capaz de prevenir 98% das infeções por VIH – pode impedir o desenvolvimento de outras infeções sexualmente transmissíveis (IST).

“O que pode explicar o aumento de IST em pessoas que aderiram à PrEP?”, questionou o segundo palestrante. “Com a implementação da PrEP, temos visto uma alta taxa de relações sexuais em pessoas que usam este método de prevenção e, consequentemente, uma taxa elevada de pessoas com IST”.

Segundo analisa Jean-Michel Molina, “o aumento de infeções, na verdade, seguiu-se ao reconhecimento da evolução do tratamento do VIH e da possibilidade de carga viral indetetável em pessoas em terapêutica, o que levou as pessoas a preocuparem-se menos com o risco de infeção, fomentando-se o sexo desprotegido”.

“A elevada taxa de IST não pode comprometer a alta eficácia da PrEP especialmente em pessoas em risco. O alto risco de doenças que pode surgir em pessoas em PrEP não deve ser motivo para as pessoas não usarem este método de prevenção”, sendo fundamental investir-se em “testes frequentes, diagnóstico precoce, tratamentos rápidos e melhores meios de notificação de parceiros sexuais”, concluiu o investigador.

Já com um olhar no futuro, o psicólogo e investigador do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), Teymur Noori, procurou analisar o caminho percorrido pela Europa para “atingir zero novas infeções, zero mortes pela doença provocada pela infeção VIH e zero discriminação até 2030”, sendo estes objetivos propostos pela UNAIDS.

“Para atingir estas metas, até 2020, pelo menos 90% de todas as pessoas com VIH deviam ter sido diagnosticadas, 90% deviam estar em tratamento e, das que estão em tratamento, 90% não devem ser discriminadas”, explica o responsável pela monitorização do VIH na Europa e Ásia Central, que confirma: “não estamos no caminho certo, a menos que resolvamos algumas das principais lacunas”.

Entre aqueles que são diagnosticados, um dos problemas principais prende-se com o diagnóstico tardio: o prognóstico piora à medida que a identificação da infeção se atrasa, sublinha o orador. Consequentemente, mesmo após a confirmação do diagnóstico, há pessoas que não aderem ao tratamento. Entre aquelas que aderem, é importante relembrar que a supressão viral não é imediata, o que pode não impedir a replicação de infeções.

SO

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