22 Mar, 2022

“Quase 20% da população acima dos 40 anos sofre de incontinência urinária”

Segundo Paulo Temido, a incontinência urinária afeta mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo pelo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) identificou esta patologia como um problema major de saúde pública "sendo necessário sensibilizar a população para a importância de tratar esta doença".

Em entrevista exclusiva ao SaúdeNotícias, o presidente da Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia (APNUG), Paulo Temido, descreve quais os principais tipos de incontinência urinária existentes, bem como as formas de tratamento. Sendo esta é uma disfunção que tem tratamento em 85% dos casos, o urologista incentiva os utentes a procurarem ajuda médica “sem vergonha, ou tabus”.

 

O que é a incontinência urinária?

A incontinência urinária é definida pela International Continence Society como a perda involuntária de urina. Representa um problema de saúde com impacto em múltiplos domínios, nomeadamente aspetos sociais, psicológicos, físicos ou sexuais com impacto profundo na qualidade de vida de muitos doentes.

Que tipos de incontinência urinária existem?

Na verdade não se deve falar de incontinência, mas de incontinências, pois existem diversos tipos. A incontinência urinária é frequentemente classificada em três tipos principais: incontinência de urgência (bexiga hiperativa), incontinência de esforço e incontinência mista (quando ambos os tipos estão presentes).

Outros tipos incluem a enurese noturna (urinar a dormir), incontinência urinária contínua, incontinência insensível, incontinência postural e incontinência por estravasamento.

Todas estas têm causas, métodos de diagnóstico e tratamento diferentes, pelo que carecem sempre de uma cuidada avaliação médica.

Quais são os principais fatores de risco e sintomas associados?

A incontinência urinária é um sintoma que, nas mulheres, está frequentemente relacionado com diminuição da função dos músculos pélvicos. Fatores de risco importantes e comuns são a gravidez e os partos por via vaginal, sobretudo traumáticos, bem como o estado de pós-menopausa. A incontinência pode igualmente associar-se a prolapso de órgãos pélvicos (bexiga, reto ou útero “descaídos”), cirurgias pélvicas e à obesidade.

Nos homens, a hiperplasia benigna da próstata e as cirurgias prostáticas estão frequentemente envolvidas.

Tanto em homens como em mulheres, outro tipo de doenças, podem estar na origem ou contribuir para o agravamento da incontinência urinária – são exemplos as infeções urinárias, diabetes, insuficiência cardíaca ou doenças neurológicas. Estas últimas são responsáveis por uma percentagem significativa das incontinências difíceis de tratar e que carecem de maior atenção.

Que comportamentos é que as pessoas podem adotar, de modo a prevenir o seu surgimento?

O tratamento ou controlo dos fatores de risco pode ajudar a prevenir a incontinência. São exemplos, o controlo de peso, hábitos de vida saudáveis, a ginástica pré-parto e o controlo das doenças concomitantes.

Qual é a prevalência em Portugal de cada um dos tipos?

Atinge cerca de 35% das pessoas com mais de 60 anos, sendo 2 vezes mais comum nas mulheres que nos homens. A sua frequência aumenta com a idade, estimando-se que 50-85% dos idosos que residem em lares sofram desta patologia.

A incontinência associada à urgência miccional e bexiga hiperativa ocorre em cerca de 17% dos homens e mulheres com mais de 40 anos, com uma prevalência crescente. A IUE afeta 4%-35% das mulheres adultas, com um aumento de prevalência com a idade.

Um estudo epidemiológico português de 2008, promovido pela Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia e Associação Portuguesa de Urologia e realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto – Prevalência E Tratamento Da Incontinência Urinária Na População Portuguesa Não Institucionalizada – concluiu que quase 20% da população com mais de 40 anos sofre de incontinência urinária.

Quais as soluções/ tratamentos disponíveis?

A incontinência urinária tem tratamento em 85% dos casos, pelo que é essencial quebrar o tabu e a vergonha ligada a este problema e incentivar os doentes a consultar o médico.

O tratamento desta patologia é muito variado e faseado. Revestem-se de particular importância os tratamentos conservadores que devem estar sempre presentes em todas as fases da doença. Incluem mudanças do estilo de vida e reabilitação do pavimento pélvico (fisioterapia pélvica).

As mudanças do estilo de vida passam por alterações alimentares (evitar alimentos picantes, álcool, café, chá, bebidas gaseificadas) e treino vesical em doentes com incontinência de urgência; gestão de líquidos ingeridos; regularização da função intestinal – tratar a obstipação – e perda de peso.

A reabilitação do pavimento pélvico é utilizada para melhorar o seu suporte muscular. É efetuada com recurso a exercícios do pavimento pélvico. Pode ser utilizada na generalidade dos casos (incontinência de esforço ou de urgência), mas é particularmente útil na grávida e no pós-parto, bem como nos homens com incontinência pós-cirurgia prostática.

Os programas de reabilitação devem ser supervisionados e dirigidos por profissionais de forma a otimizar os resultados.

Como complemento aos tratamentos conservadores existe, para a incontinência de urgência e bexiga hiperativa, tratamento farmacológico (em comprimidos) que melhora os resultados.

Nos caos em que não se alcança o resultado desejado, pode-se recorrer a técnicas cirúrgicas minimamente invasivas (injeção de toxina botulínica ou neuromodulação de raízes sagradas).

A incontinência de esforço, quando não é possível tratar com medidas conservadoras, tem tratamento geralmente cirúrgico (colocação de fita para sustentação da uretra). É uma cirurgia minimamente invasiva e com elevada taxa de sucesso.

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