27 Fev, 2024

Psicologia e gestão de emoções no pós-AVC

Artigo de opinião de Janina Fontoura, Neuropsicóloga.

O acidente vascular cerebral (AVC) tem uma cada vez maior importância na atualidade e é reconhecido como um problema de saúde mundial, sendo a maior causa de incapacitação, podendo atingir pessoas de todas as faixas etárias. Em Portugal, é a principal causa de morte e a primeira causa de incapacidade. A grande maioria dos eventos resultam em algum tipo de sequela, seja motora, cognitiva ou emocional.

No que concerne às alterações emocionais e comportamentais pós-AVC, estas podem ser resultantes de alterações biológicas ou podem ser reativas aos desafios, medos e frustrações inerentes, com consequências muito variáveis. Não existe uma reação puramente “cerebral”, destituída de sentimentos e emoções, sendo a perceção subjetiva e a avaliação da situação do doente refletidas por meio dos aspetos psicológicos.

Por um lado, a reação emocional pode refletir falta de preocupação face à sua condição neurológica, um fenómeno explicado pela presença de uma anosognosia ou por negação psicológica. Por outro lado, havendo consciência das diferentes perdas e das suas consequências, pode frequentemente originar ansiedade existencial profunda ou distress, não tendo necessariamente de remeter para um diagnóstico clínico, ainda que se caracterize por sintomas presentes em algumas patologias psiquiátricas.

Não obstante, a duração e qualidade do processo de reabilitação de lenta progressão e a incerteza face ao futuro contribuem como fatores de risco para o desenvolvimento de depressões reativas ou de outras patologias do foro emocional.

Em Portugal, a depressão é a perturbação psiquiátrica mais reportada após AVC e surge mais frequentemente nesta patologia do que noutras doenças médicas com incapacidade, efeitos adversos e reabilitação comparáveis. Por definição, a depressão pós-AVC é aquela que ocorre no contexto de um acidente vascular cerebral clinicamente aparente, o que difere da chamada depressão vascular associada a doença cerebrovascular silenciosa. É uma entidade bem conhecida com referência na DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), onde a depressão surge como consequência fisiopatológica direta dessa condição física. A depressão pode ser assim uma consequência do AVC, mas muitos são os estudos que a apontam também como causa do AVC e, portanto, como possível fator de risco.

Numa exploração adicional, a minha experiência nesta prática clínica em contexto de reabilitação corrobora as dificuldades psicoemocionais, sendo que as mesmas se repercutem durante o processo de reabilitação, com a diminuição no empenho e motivação por parte do sobrevivente.

Verificamos que experienciam uma mescla de sentimentos relacionados com o “self in relation to self” face à perceção individual quanto a gravidade e ao impacto da sua perda. Passam por um processo emocional de luto, uma vez que existe uma perda efetiva de competências. Estas modificações, podem ter repercussões significativas no seu potencial de reabilitação, no momento crítico de plasticidade cerebral, cujo desequilíbrio emocional pode ter um forte impacto na recuperação funcional, com implicações em comportamentos disfuncionais associados a cognições específicas, sendo as sequelas “invisíveis” as que mais perduram no tempo.

Este processo de luto implica diferentes tarefas de desenvolvimento e adaptação que são superadas de forma subsequente. Não se pode lidar com o impacto emocional de uma perda enquanto não se aceitar que ela tenha ocorrido. Chegar à aceitação da realidade da perda leva tempo, já que implica não só a aceitação intelectual, mas também emocional.

Quando falamos em dor, na sua definição mais ampla inclui, não só a dor física, mas também emocional e comportamental associada à perda. É necessário reconhecer e elaborar esta dor ou ela manifestar-se-á por meio de alguns sintomas ou por forma de comportamentos disfuncionais. É necessário, não só adaptar-se a papéis anteriores, enquanto pai, filho, marido, profissional, entre outros, mas também aprender a confrontar-se com os desafios de se ajustar ao seu próprio sentido de self.

Esta sensação de perda do self, questionando muitas vezes “Quem sou eu agora? Qual o meu papel na sociedade?”, pode levar a uma intensa regressão dado que a pessoa se percebe a si mesma como desamparada, inadequada, incapaz, infantil ou com uma crise de personalidade e uma posterior sensação de baixa autoestima. A eficácia pessoal é desafiada e podem atribuir a mudança a fatores externos e não à sua própria força e habilidade.

Assim, torna-se crucial um diagnóstico precoce e tratamento atempado, pelo que a reabilitação cognitiva e emocional deve assumir um papel preponderante para a melhoria e qualidade de vida do doente, a par de uma melhor compreensão dos condicionamentos para a “reconstrução de identidade”.

Não obstante, considerando o aumento de problemas de saúde mental e a relação bidirecional entre lesão cerebral e depressão, será necessário mobilizar recursos para colmatar a falta de investimento nesta área da saúde e reforçar a resposta no Sistema Nacional de Saúde, com prioridade para os cuidados de saúde primários, melhorando os seus circuitos de encaminhamento e referenciação.

Esta intervenção permitirá não só prevenir ou minorar as perturbações do foro psicológico mas também reduzir os custos com a saúde e, contribuir para a diminuição do impacto no conjunto de variáveis económicas e sociais. A promoção e prevenção da saúde mental torna-se fundamental, não só pelo impacto negativo inerente, mas também como fator protetor da resiliência necessária para enfrentar novos desafios.

If you want to heal the body, you must first heal the mind.” Plato

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