23 Fev, 2022

Muitos suicídios poderão ter sido evitados pelos isolamentos e proximidade das famílias

Pandemia trouxe "uma proximidade familiar, física, durante o confinamento que fez com que as pessoas ficassem de alguma forma vigiadas", diz o investigador Adalberto Dias de Carvalho.

A pandemia trouxe quadros depressivos, mas para muitas famílias foi também sinónimo de uma proximidade física forçada pelos isolamentos, que garantiu que se vigiassem umas às outras, controlando um possível aumento de suicídios, segundo o investigador Adalberto Dias de Carvalho.

Ainda não há estudos sobre os efeitos da pandemia de covid-19 num eventual aumento dos suicídios em Portugal, mas o investigador afirmou que “há a suspeição ou a ideia” de que isso possa acontecer, tendo em conta o que aconteceu noutras epidemias, como a de SARS em Hong Kong, mas também em contextos culturais diferentes.

“Sabemos que a pandemia traz situações que se aproximam da depressão, da solidão, mas em muitos casos trouxe uma proximidade familiar, não necessariamente afetiva, mas uma proximidade física durante o confinamento que fez com que as pessoas ficassem de alguma forma vigiadas umas em relação às outras”, afirmou à agência Lusa o diretor do Observatório da Solidão do ISCET – Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo.

No seu entender, talvez esta situação possa explicar porque, havendo uma expectativa do aumento de suicídios, tal não tenha acontecido, pelo menos, até ao momento, ressalvando que não há estudos conclusivos.

Analisando o fenómeno do suicídio em Portugal, Adalberto Dias Carvalho afirmou que, em média, registam-se entre três e quatro por dia.

Explicou que, apesar de haver uma tendência para valorizar os aspetos psicológicos do suicídio, relacionados “com a desvalorização do eu”, e as doenças mentais, como a depressão ou a esquizofrenia, há outras condicionantes de ordem cultural e sociológica que podem levar a este ato.

No caso português, tem a ver com “a presença forte dos valores do cristianismo”, independentemente de se ser ou não católico.

“Mesmo numa sociedade laica como a nossa há uma presença muito forte das nossas referências culturais que tem a ver com o matar o outro, mas também com o matar-se si mesmo” que é considerado “um pecado extremo, porque é atentar contra a obra de Deus”.

Uma análise feita pela investigadora Luísa Loura da Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, para a Lusa indica que entre 2016 e 2019, último ano para o qual há dados disponíveis, revela que os distritos com maior taxa de suicídios nos últimos quatro anos foram Évora, Beja e Faro.

“No distrito de Beja houve uma clara tendência de descida e no Algarve uma ligeira subida”, referem os dados, baseados nos números do Instituto Nacional de Estatística, apontando que os distritos onde houve tendência de subida e onde foi mais significativa foram Vila Real e Porto.

Fazendo uma análise por regiões NUTS III, Luísa Loura salienta que a situação é “especialmente preocupante” no Alentejo Litoral que, apesar da tendência de descida da taxa de suicídios, apresenta ainda os valores mais elevados”.

Como razões para este fenómeno no Alentejo, Adalberto Dias de Carvalho apontou o clima, o isolamento. “Até há uma coincidência cronológica que quando sopra o vento suão aumenta a taxa de suicídios”.

Além disso, explicou, a força da religião no Sul do país não é tão forte como no Norte, contando que nos anos 50/60, “o Alentejo era considerado terra de missão para a Igreja”.

“Era quase como ir para África para cristianizar aquelas populações que inclusivamente não tinham rituais religiosos, como no Norte em que havia procissões”, que foram sendo introduzidas progressivamente no Sul do país.

Segundo o investigador, as tendências suicidas tendem a ser maiores em pessoas que a sua vida familiar ou profissional fracassou.

“É importante que se fale do suicídio para que se previna, mas é preciso estar atento às causas profundas sociais, contextuais do suicídio como a pobreza, o desemprego, a violência doméstica, o bullying e atuar sobre elas.

Para o professor, “não se pode ter uma visão reducionista do suicídio”, sublinhando que “é uma responsabilidade coletiva”.

Ao longo dos últimos 45 anos, a taxa de suicídios por 100 mil habitantes situou-se quase sempre acima de 7,4, com exceção apenas no período de 1996 a 2001, referiu Luísa Loura.

Desde 2007 que o número de suicídios por 100 mil habitantes não desce abaixo dos 9, 10, acrescentou.

LUSA

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