9 Mar, 2026

Obesidade. “Deve ser garantida a presença do nutricionista no Serviço Nacional de Saúde”

Liliana Sousa, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, alerta para o problema da obesidade e como é essencial apostar em medidas integradas e multidisciplinares a curto, médio e longo prazo. Em entrevista, realça, ainda, o papel do nutricionista no Serviço Nacional de Saúde, nas escolas, nas autarquias e no setor social.

Obesidade. “Deve ser garantida a presença do nutricionista no Serviço Nacional de Saúde”

De acordo com os estudos, 67,6% da população adulta vive com excesso de peso, sendo que 28,7% apresenta obesidade. O que contribui para estes dados?

O excesso de peso mantém-se como um dos determinantes mais críticos da saúde em Portugal, com tendência de crescimento nos últimos 20 anos, impactando tanto em qualidade de vida como a mortalidade O excesso de peso e a obesidade resultam de um conjunto de fatores. Destacam-se padrões alimentares desequilibrados, com consumo elevado de alimentos ultraprocessados, ricos em sal, açúcares e gordura, aliados a níveis insuficientes de atividade física. A estes fatores juntam-se determinantes sociais, económicos e ambientais que influenciam as escolhas alimentares dos cidadãos, tais como a disponibilidade alimentar e o preço dos alimentos. Trata-se, por isso, de um problema complexo que exige respostas estruturadas e intervenções multicompetentes.

Entre as crianças dos 6 aos 8 anos, 31,9% têm excesso de peso e 13,5% vivem com obesidade. O problema está essencialmente na alimentação ou mais no sedentarismo, já que muitas crianças deixaram de brincar na rua?

A obesidade não surge de forma repentina. É o resultado acumulado de múltiplos fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais. Por isso, a sua prevenção deve começar o mais cedo possível – idealmente antes do nascimento, e estender-se de forma contínua ao longo da vida, com ações concretas em todas as fases do desenvolvimento humano. A prevenção exige uma abordagem em ambientes-chave da vida das crianças:

Família: Os comportamentos alimentares aprendem-se sobretudo por imitação. Crianças que crescem em lares onde há refeições em família, alimentos saudáveis disponíveis e onde se valorizam rotinas alimentares tendem a ter um risco menor de excesso de peso.

Escola: A escola deve ser um espaço promotor de saúde. A oferta alimentar escolar deve ser equilibrada e saudável. A educação alimentar deve ser transversal a várias disciplinas e envolver toda a comunidade escolar (alunos, professores, auxiliares, encarregados de educação).

Atividade física: As recomendações internacionais sugerem, para crianças e jovens, pelo menos 60 minutos de atividade física diária. A promoção da mobilidade ativa (a pé, de bicicleta) e o acesso a espaços ao ar livre são igualmente importantes.

O excesso de peso e a obesidade são ainda o reflexo de ambientes e sistemas que promovem escolhas menos saudáveis: publicidade dirigida às crianças, alimentos ultraprocessados acessíveis do ponto de vista económica e de disponibilidade, ausência de espaços para brincar, entre outros. Considera-se, assim, essencial:

– Criar políticas que melhorem o ambiente alimentar, como a taxação de bebidas açucaradas, a isenção de IVA em alimentos essenciais e a rotulagem nutricional clara e compreensível;

– Proteger as crianças da publicidade alimentar a géneros alimentícios com elevado valor energético, teor de sal, açúcar, ácidos gordos saturados e ácidos gordos trans, especialmente no ambiente digital;

– Promover ambientes urbanos saudáveis, com espaços verdes, percursos seguros e acessíveis para caminhar ou andar de bicicleta;

– Reforçar o acesso aos cuidados de saúde primários, com nutricionistas, que possam acompanhar desde cedo as famílias, dando ferramentas práticas de prevenção e gestão do peso.

“É necessária a implementação de políticas estruturais, incluindo o Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade e o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, reforçando a prevenção”

Entre 2000 e 2021, a mortalidade associada ao excesso de peso aumentou 14% e a perda de anos de vida saudáveis cresceu 28%. Ao longo destes anos também tem aumentado a informação sobre alimentação saudável. O que está a falhar?

A Direção-Geral da Saúde divulgou muito recentemente o estudo Global Burden of Disease 2023, que veio revelar que nestes últimos 20 anos (entre 2000 e 2021) se verificou um aumento de 23% no contributo do excesso de peso para a perda de anos de vida saudável e de 22% para o total de mortes associadas ao IMC elevado.

Ou seja, apesar do aumento de informação sobre alimentação saudável, muitos ambientes onde nos movimentamos diariamente continuam a favorecer escolhas alimentares menos saudáveis. A desinformação em nutrição e alimentação constitui um risco adicional para a saúde pública, afetando tanto os nutricionistas como os cidadãos. Se, por um lado, é colocada em causa a credibilidade de uma profissão que baseia a sua atividade exclusivamente em evidência científica, por outro, a população fica suscetível a informação não controlada e não validada, que pode, em muitas situações, colocar a saúde em risco. A elevada prevalência e os fatores de risco modificáveis têm contribuído para desacelerar ou inverter avanços em saúde, no que respeita ao excesso de peso e de obesidade.

É necessária a implementação de políticas estruturais, incluindo o Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade e o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, reforçando a prevenção, facilitando o acesso a cuidados de nutrição adequados e promovendo literacia alimentar e nutricional para escolhas mais informadas.

Atualmente, o excesso de peso representa 7,5% da mortalidade nacional e é o segundo principal fator de risco para a carga global de doença em Portugal. Que medidas precisam de ser tomadas a curto, médio e longo prazo para evitar o excesso de peso e a obesidade e o impacto social e económico da doença?

A Direção-Geral da Saúde divulgou muito recentemente o estudo Global Burden of Disease 2023, que veio revelar que a mortalidade atribuída ao excesso de peso aumentou ligeiramente (de 7,5% para 8,6%). De seguida apresentam-se propostas de medidas:

Curto prazo: Independentemente da abordagem escolhida para o tratamento da obesidade – seja ela farmacológica, cirúrgica ou baseada em mudanças comportamentais – o nutricionista é sempre o ator principal. A sua intervenção é essencial para garantir uma alteração sustentada dos hábitos alimentares e para a promoção da literacia alimentar e nutricional, elementos-chave na obtenção de ganhos reais e duradouros em saúde. Face ao exposto, deve ser garantida a sua presença no Serviço Nacional de Saúde, mas também nas escolas, autarquia e no setor social, de modo a que haja uma continuidade na implementação de estratégias ao longo do ciclo de vida.

Médio prazo: garantir a criação e implementação de políticas públicas que promovam ambientes alimentares mais saudáveis, desde escolas a locais de trabalho, combinando educação alimentar, informação e apoio para a adoção de estilos de vida mais saudáveis e ativos. A este respeito, retoma-se a importância da obtenção de dados atualizados sobre os hábitos alimentares dos portugueses, sendo de cabal importância a realização de um novo inquérito alimentar nacional. Este novo retrato ganha uma especial importância devido às alterações estruturais que a população portuguesa atravessou nos últimos anos, tais como a pandemia, digitalização, inflação, conflitos geopolíticos e alterações demográficas que poderão influenciar os seus hábitos alimentares.

Longo prazo: investir de forma consistente na prevenção e promoção de estilos de vida saudáveis ao longo do ciclo de vida, através de uma articulação efetiva entre saúde, educação, autarquias e outros setores da sociedade; implementar e consolidar o Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade e o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade; reforçar intervenções nos primeiros 1000 dias de vida; promover ambientes alimentares mais saudáveis em todos os contextos onde a alimentação esteja presente; desenvolver iniciativas para promoção de literacia alimentar e nutricional da população. A operacionalização consistente destas medidas é essencial para reduzir a prevalência da obesidade e o seu impacto social e económico.

“… os fármacos devem ser entendidos como uma ferramenta complementar, integrada num plano de tratamento mais amplo, que promova mudanças sustentadas no estilo de vida e melhores resultados em saúde a médio e longo prazo”

A introdução de novos fármacos para a obesidade poderá relevar para segundo plano a adoção de hábitos de vida saudável? Mesmo sendo uma doença, as pessoas com obesidade beneficiam da mudança de estilos de vida.

A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial, cujo tratamento exige uma abordagem integrada, multidisciplinar, contínua e centrada na pessoa, assente na melhor evidência científica disponível. Os novos fármacos representam uma opção terapêutica importante para algumas pessoas com obesidade, mas não substituem a adoção de hábitos de vida saudáveis. Contudo, a evidência também demonstra que não existe uma solução única ou universal, sendo necessário adaptar as intervenções às características clínicas e ao contexto de cada indivíduo. A intervenção para a modificação comportamental, que inclui a melhoria dos hábitos alimentares e a promoção da prática de atividade física, é uma componente transversal e indispensável em todas as abordagens terapêuticas, incluindo a terapêutica farmacológica. Por isso, os fármacos devem ser entendidos como uma ferramenta complementar, integrada num plano de tratamento mais amplo, que promova mudanças sustentadas no estilo de vida e melhores resultados em saúde a médio e longo prazo.

Importa ainda considerar que algumas terapêuticas farmacológicas podem induzir perdas de peso rápidas, que exigem acompanhamento clínico adequado para garantir que a redução ponderal ocorre de forma nutricionalmente equilibrada e com preservação da massa muscular. Neste contexto, a adequação do padrão alimentar e a prática regular de atividade física assumem um papel determinante, reforçando a importância do acompanhamento por profissionais qualificados, nomeadamente nutricionistas.

Atualmente, face aos atuais dados, o futuro não parece muito positivo. Apesar disso, acredita que ainda é possível minimizar o impacto deste problema de saúde nos próximos anos?

Sim, é possível, mas exige que as políticas e estratégias existentes sejam efetivamente concretizadas e articuladas entre si, com foco na melhoria da saúde pública. Portugal dispõe atualmente de um quadro estratégico nacional que define ações concretas para travar a obesidade nos próximos anos. A implementação consistente do Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade, do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade e de políticas estruturais de promoção de ambientes alimentares saudáveis e de atividade física pode contribuir para reduzir de forma relevante o impacto desta doença.

Contudo, é fundamental que as medidas passem do papel à ação no terreno, garantindo que chegam efetivamente às pessoas que precisam. Neste contexto, torna-se essencial assegurar a presença de nutricionistas nos locais onde podem ter maior impacto, como o Serviço Nacional de Saúde, as escolas, as autarquias e o setor social, promovendo o acesso a cuidados de nutrição de qualidade ao longo do ciclo de vida.

Por último, relembrar a necessidade de termos sistemas de monitorização robustos e de dados epidemiológicos atualizados que permitam acompanhar a evolução desta epidemia e apoiar a definição de políticas públicas que sejam adaptadas ao contexto atual.

 

Maria João Garcia

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