6 Jan, 2023

“O SNS tem que ser reinventado e encontrar caminhos de cooperação com o privado e o social”

Rui Nunes, candidato a Bastonário da Ordem dos Médicos (OM), defende uma “revisão profunda” das carreiras médicas no SNS, assim como a criação de carreiras no setor privado. Considera ainda que a sua candidatura é a “única” que consegue unir todos os médicos.

Quais são as principais propostas que leva a sufrágio nesta eleição?

Esta candidatura, que surge no final de julho deste ano, tem determinados pressupostos. Um deles é ser uma candidatura completamente livre e independente, ou seja, não está dependente de forças políticas nem de grupos empresariais. O meu único objetivo é afirmar a profissão médica num contexto em que a Medicina se encontra especialmente perturbada por diferentes fatores e motivos. Uns prendem-se logicamente com a ineficácia do sistema de saúde – que tem de ser profundamente reformulado – e também com questões estritamente médicas que importa acautelar e ultrapassar. Apresento uma série de propostas centrais para, no fundo, afirmar e dignificar a profissão. Todavia, temos um longo caminho a percorrer.

Em primeiro lugar, e não sendo a OM um sindicato – nem pretende sê-lo -, temos que obviamente pugnar para que a qualidade do exercício da Medicina seja acompanhada por um nível salarial adequado, justo e proporcional às responsabilidades que os médicos têm em mãos. Nesse sentido, é com muito orgulho que posso dizer que uma das bandeiras eleitorais é nivelar os vencimentos médicos de acordo com as unidades de saúde familiar (USF) modelo B, no caso da Medicina Geral e Familiar, e essa proposta já foi aceite pelo Sr. Ministro da Saúde.

Em segundo lugar, proponho uma revisão profunda das carreiras médicas. Quem fez a carreira médico-hospitalar como eu fiz, tem plena noção de como as carreiras são um agente muito poderoso de qualificação dos médicos e das médicas. Devem ser revisitadas, para se evitar estar anos à espera para se atingir aquilo a que se tem direito. E, de forma inovadora, vamos querer apostar nas carreiras médicas no setor privado, já que temos profissionais qualificados e unidades com idoneidade formativa que também devem ter esse benefício. Pode inclusive estabelecer-se um intercâmbio e interoperabilidade entre os setores público e privado nesta matéria.

E quanto aos jovens médicos?

A agenda também é muito ambiciosa em relação aos jovens médicos, porque algo que constatei nos últimos 5 meses, visitando o país de lés a lés, é que há profissionais em mais de uma centena de hospitais e centros de saúde que estão desmotivados. Muitos pretendem mesmo abandonar a Medicina! Se queremos reter os médicos, temos que fazer com que se sintam acarinhados e respeitados, dispondo de todas as condições técnicas e humanas para o desempenho da sua profissão. Isso passa por um vasto conjunto de medidas muito concretas para que os jovens possam olhar para a Medicina como uma profissão nobre e honrada. A mais emblemática das medidas será a duplicação da formação, o que a OM já vai tendo, mas que tenciono aprofundar e com uma gestão rigorosa dos recursos da OM.

Quando fala na questão da carreira médica no setor privado, sente que a OM se tem focado mais no Serviço Nacional de Saúde (SNS)?

É óbvio que desde a criação do SNS, nos anos 70, o principal enfoque era precisamente o serviço público de saúde. O SNS é um pilar da nossa sociedade, mas tem que ser reinventado e encontrar caminhos de cooperação com os setores privado e social. Esta é uma realidade insofismável, basta andar pelo país e ver as muitas unidades hospitalares privadas que foram criadas. O sistema de saúde é já hoje um sistema híbrido entre a componente pública e a privada. Contudo, tem se articular melhor. Se houve um crescimento exponencial, sobretudo nos últimos anos, do privado, é natural que daqui para a frente a OM tenha esta preocupação. No passado não teve, porque a realidade era outra. Os próprios jovens médicos veem este intercâmbio entre setores – e a mobilidade geográfica – como natural, logo a OM tem que acompanhar esta evolução. Os sistemas evoluem e a OM não pode ficar estática no tempo como se nada tivesse mudado nos últimos 40 anos.

Um dos seus compromissos é criar a ligação direta entre a OM e cada unidade de saúde. Na sua opinião, isso não tem acontecido?

Essa interconexão existe, mas é sempre possível fazer melhor. A OM tem de estar próxima das pessoas! Não se trata de corporativismo, mas simplesmente cumprir com as suas funções, porque quando as coisas correm mal, os doentes também são afetados. Proponho aprofundar esta conectabilidade direta entre a OM, os seus dirigentes, os Colégios de Especialidade e os profissionais no terreno. A OM tem de ser aberta, plural, englobando todos nas suas diferenças, para se conseguir gerar compromissos para uma efetiva mudança.

Também pretende que haja uma alteração na idade da reforma dos médicos. Na prática, isso não poderá agravar a falta de médicos no SNS?

Não, porque em Portugal não há falta de médicos. De acordo com a OCDE, Portugal é o terceiro país com mais médicos por mil habitantes, por isso não existe escassez de médicos em termos absolutos. O problema é a dificuldade em reter os médicos no SNS, algo que tem de mudar, para se evitar que a medicina pública se degrade de ano para ano. Existe falta de capacidade de gestão, de organização e também, presumo, de meios financeiros.

Que alterações defende em termos de organização da própria OM?

Não querendo fazer qualquer crítica à atual gestão, os sistemas evoluem e na minha opinião há duas mudanças que são centrais. A primeira é que a OM seja mais próxima dos médicos e das médicas – que se sintam em casa e não sintam a OM como uma entidade estranha. Devem ter um atendimento mais personalizado, deve-se recorrer mais às tecnologias de informação – para reforçar o trabalhado já iniciado. Também defendo uma gestão muito rigorosa daquilo que é o património financeiro da OM. É a minha maneira de estar e de ser, em todos os locais por onde passei, tive sempre uma gestão muito rigorosa e criteriosa. O objetivo é que os médicos possam confiar na OM e que a vejam como a entidade que os pode defender.

Como avalia os dois mandatos do Dr. Miguel Guimarães?

Naturalmente, acho que foi um excelente Bastonário! Para mim, isso é indiscutível. Não apenas a profissão médica, mas também a sociedade em geral, tem de estar grata à OM, em geral, e ao Dr. Miguel Guimarães, em particular. Aliás, o Presidente da República reconheceu-o no último Congresso Nacional de Medicina. Mas, estatuariamente, vai ter de haver um ciclo novo, com novos protagonistas. Tenho a convicção que vou ganhar as eleições para unir a classe médica. De acordo com a Comissão Eleitoral, a minha candidatura foi a que teve mais assinaturas. Até seria bom que houvesse uma votação expressiva logo na primeira volta…

“… de forna inovadora, vamos querer apostar nas carreiras médicas no setor privado”

Foi a última candidatura, por que resolveu avançar?

Após uma rigorosa análise das outras candidaturas, não percebi que houvesse nenhuma com capacidade de agregar a Medicina num projeto identitário único. A leitura que fiz é que as outras candidaturas irão aprofundar a divisão da classe médica. Basta ver as intervenções de alguns candidatos que propõe medidas divisionistas junto da classe médica.

Os médicos devem votar em si para evitar essa falta de união?

Sim, temos que ter um projeto comum, com determinação para se conseguir a mudança necessária a todos os médicos e médicas. É a candidatura mais livre, mais independente e a única que pode efetivamente unir e agregar todos os médicos para que se respeite a nossa profissão e, por conseguinte, se consiga prestar cuidados de excelência aos doentes.

SO

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