21 Mai, 2021

“A pandemia teve um impacto positivo no controlo das IACS e das infeções na comunidade”

A diretora do Serviço de Infecciologia do Hospital Pedro Hispano (ULS Matosinhos), Isabel Neves, destaca o importante papel da Microbiologia no controlo de infeções.

Em entrevista à Saúde Notícias, a diretora do Serviço de Infecciologia do Hospital Pedro Hispano (ULS Matosinhos), Isabel Neves, destaca o importante papel da Microbiologia no controlo de uma infeção – sejam elas na comunidade ou associadas a cuidados de saúde – e da resistência crescente aos antibióticos.

Qual é a incidência de infeções nosocomiais em Portugal e quais são as mais frequentes?

Segundo o último inquérito de Prevalência Europeu (PPS 2, 2017) em que Portugal participou, a Prevalência Global de Infeção Hospitalar foi de 7,8%, sendo as principais a infeção do trato urinário, a pneumonia e a infeção do local cirúrgico. Pela primeira vez foram avaliadas prevalências regionais, que mostraram diferenças regionais nos principais tipos de infeções.

Em unidade de cuidados continuados integrados (UCCI), a prevalência de infeção foi de 4% (HALT 3, 2017), sendo as principais a infeção do trato urinário, a infeção respiratória e a infeção da pele e tecidos moles.

Em 2017, Portugal registou uma melhoria destes indicadores face a 2012: a taxa de infeção associada aos cuidados de saúde (IACS) em hospitais de agudos passou de 10,5% em 2012 para 7,8% em 2017; e a taxa de IACS em UCCI de 10,2% em 2012 para 4% em 2017.

Existem equipas dedicadas à prevenção e controlo de infeções? Estas são obrigatórias? Em caso afirmativo, em que tipos de instituições?

O Despacho nº 15423/2013, de 18 novembro, foi um marco histórico no Controlo de Infeção em Portugal porque criou o Programa de Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA) da Direção-Geral da Saúde (DGS) como um programa de saúde prioritário com liderança única, normalizando a criação de equipas dedicadas à prevenção e controlo de infeção:  Grupos Coordenadores Regionais (GCR -PPCIRA) em cada administração regional de saúde (ARS) e Grupos Coordenadores Locais (GCL- PPCIRA), equipas multidisciplinares com alocação de competências e horas específicas, em todas as unidades de saúde (hospitalares, cuidados primários e continuados), uniformizando objetivos: redução da taxa de infeção associada aos cuidados de saúde, promoção do uso correto de antimicrobianos e diminuição da taxa de microrganismos com resistência a antimicrobianos e obrigando de forma transversal a Programas de Vigilância epidemiológica e Monitorização de consumo de antimicrobianos.

Quais são as principais medidas a tomar a nível hospitalar para prevenir a transmissão de IACS?

A estratégia para prevenir as IACS é multimodal e centra-se num trinómio de objetivos sinérgicos: 1. diminuir as IACS; 2. adequado consumo de antimicrobianos; 3. diminuição da emergência de microrganismos multirresistentes.

Estas estratégias vão desde a aplicação das precauções básicas em controlo de infeção, onde se inclui a higiene das mãos, aplicação das precauções baseadas na via de transmissão do microrganismo, estratégias de rastreio e contenção para microrganismos multirresistentes, formação dos profissionais, normas de boas práticas, materiais de uso clínico adequados, Programas de Apoio à Prescrição Antibiótica (PAPA), dotação de profissionais adequada, partilha de informação intra e inter institucional, formação e informação aos utentes. Por exemplo, m dos problemas que hoje mais nos preocupa é a emergência de enterobacteriales produtoras de carbapenemases, enzimas capazes de inativar a ação dos carbapenemos, a última linha de tratamento antibiótico destas bactérias. Uma das estratégias de contenção é efetuar rastreio aos doentes percebendo se estão colonizados e usar isolamento de contato, diminuindo o risco de infeção cruzada. Mas, esta estratégia isolada não resultará se não existir também uma avaliação de risco na admissão do doente, se os profissionais não tiverem informação/formação sobre o tema, se não existir um PAPA que promova a utilização judiciosa dos carbapenemos, condições para isolamento dos doentes, dotação de profissionais adequada se necessário fazer coorte, informação partilhada aquando da alta do doente com médico/enfermeiro de família ou outra instituição de saúde que recebe o doente. Todas estas ações concertadas e usadas coerentemente é que possibilitarão a redução da emergência destas bactérias. Ou seja, para serem eficazes, as estratégias devem ser multimodais, com intervenções simultâneas em áreas de fonteira.

Qual é o papel do laboratório de Microbiologia no controlo das infeções? As técnicas de Microbiologia rápida podem melhorar a eficácia dos programas de prevenção e controlo das infeções?

O laboratório de Microbiologia tem um papel fulcral no controlo de infeção ao permitir identificar e evidenciar microrganismos causadores de infeção. O estudo da evolução da ecologia hospitalar permite diagnosticar quais os microrganismos mais prevalentes nas IACS e sua resistência aos antimicrobianos (RAM), a emergência de novas estirpes e sua capacidade patogénica, identificar surtos, conduzir programas de vigilância epidemiológica, aplicar programas de rastreio e elaborar normas de tratamento empírico. Não existe controlo de infeção eficaz sem suporte microbiológico. As técnicas microbiológicas de resposta mais rápida permitem vigilância epidemiológica mais eficaz, com medidas de controlo de infeção mais eficientes e de maior sustentabilidade.

De que maneira é que os PPCIRA em Portugal ajudam a reduzir a RAM?

Tal como já disse, em todas as unidades de saúde deve existir uma equipa PPCIRA, obrigada a aplicar estratégias que cumpram os três objetivos sinérgicos do programa: diminuir as IACS, adequado consumo de antimicrobianos e diminuição da emergência de microrganismos multirresistentes.

De acordo com a sua experiência, qual tem sido o impacto da covid-19 na prevenção e controlo de infeções?

O impacto da covid-19 no controlo de infeção foi positivo, quer a nível dos cuidados de saúde, quer da comunidade.

A nível dos cuidados de saúde as condições para impedir a transmissão da covid-19 nosocomial obrigaram a um esforço enorme das equipas PPCIRA, quer na validação e orientação para utilização dos equipamentos de proteção individual, quer no desenho dos circuitos limpos-sujos e alteração das estruturas que tiveram que se adaptar para receberem estes doentes. A cultura de controlo de infeção teve que ser integrada de uma forma mais visível e muitos, incluindo profissionais, perceberam que a mesma é fundamental para a prestação de cuidados seguros.

A nível da comunidade houve uma revolução cultural em termos de controlo de infeção. Os cidadãos aprenderam para que serve e se usa uma máscara, a higienizar as mãos com maior frequência, incluindo com solução antissética de base alcoólica, o que é o distanciamento social. Perceberam que estas medidas os protegem e regra geral integraram estas precauções na sua rotina diária (a título de exemplo, não tivemos gripe neste inverno).

A digitalização está a transformar a forma como trabalhamos em diferentes campos e o campo da saúde é um deles. Como é que os sistemas de gestão e análise de dados laboratoriais ajudam na comunicação e no controlo epidemiológico das infeções?

Programas de gestão em controlo de infeção são essenciais. Estes programas integram diferente informação de forma digital, cruzando dados demográficos, epidemiológicos, clínicos e laboratoriais, permitindo produzir indicadores in time. A possibilidade que esta informação de análise integrada nos traz permite, por exemplo, perceber em poucos minutos que um surto está a acontecer no hospital, ou fazer a rastreabilidade de contatos de doente infeccioso, promovendo medidas corretivas precoces, verificar curvas de consumos de antimicrobianos e sua evolução in time, perceber a incidência diária de IACS… As possibilidades são infinitas e desafiantes, possibilitando cuidados de maior qualidade e cada vez mais seguros.

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