14 Mai, 2024

Novo modelo de banda desenhada para ações de sensibilização e investigação na área da saúde

Uma equipa de investigação, liderada pela Universidade de Coimbra (UC), conduziu um estudo para analisar a utilização de banda desenhada na comunicação de ciência – em particular em temáticas na área da saúde –, com o objetivo de criar um modelo que possa ser replicável.

No artigo científico “Comics in Science and Health Communication: Insights from Mutual Collaboration and Framing a Research Practice”, publicado no “International Journal of Qualitative Methods”, a equipa interdisciplinar – que envolveu biólogos, ilustradores e sociólogos – apresenta as várias etapas a considerar no processo de produção de uma banda de desenhada para fins de sensibilização na área da saúde (como a adoção de comportamentos saudáveis ao longo da vida, desde a infância), explicando e exemplificando vários aspetos, que vão desde a discussão dos tópicos a destacar à criação das várias personagens e enredos.

O caso de estudo desta investigação foi a banda desenhada  “Um Fígado Equilibrado é Meio Caminho Andado!” criada pela mesma equipa de investigação em 2021 e editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra – destinada à sensibilização para as doenças do fígado e para a prevenção e tratamento de patologias do metabolismo (como a diabetes ou a obesidade), transmitindo mensagens que incentivam a promoção de hábitos e estilos de vida saudáveis através de momentos de interação entre as várias personagens.

Ao longo do processo criativo, a equipa de investigação foi percebendo que “continuavam a ser pouco estudados e documentados processos e métodos associados à criação e impacto da banda desenhada na comunicação de ciência e saúde”, explicam os coordenadores do estudo Anabela Marisa Azul e João Ramalho-Santos, investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC (CNC-UC).

Assim, os investigadores decidiram contribuir para colmatar esta lacuna, conduzindo uma investigação que “documenta etapas, abordagens e quadro teórico que acreditamos ser reproduzíveis noutros contextos de comunicação e de investigação”, avança a investigadora. Anabela Marisa Azul sublinha ainda que a banda desenhada “é um importante recurso didático e educativo para abordar e explicar temas complexos de ciência, sobretudo quando se procura dar voz a vários interlocutores, neste caso, pessoas com doença, profissionais de saúde, investigadores, com a mesma relevância”.

Neste estudo “é detalhada a abordagem participativa e interdisciplinar de investigação a partir da criação do desenho – estrutura e propósito –, que se espera que possa contribuir para melhorar a compreensão de conteúdos de ciência e saúde e para motivar para a mudança de comportamentos”, contextualiza o primeiro autor do estudo e estudante de doutoramento do CNC-UC, Rui Tavares.

Para tal, o artigo lança um modelo para o desenvolvimento de banda desenhada, reunindo métodos qualitativos (entrevistas e metodologias visuais, como esboço de diagramas científicos) e quantitativos (como questionários). “Partilhamos um quadro teórico, métodos visuais e o processo reflexivo entre os membros da equipa, que resultaram na criação do desenho”, explica Anabela Marisa Azul.

Entre as linhas orientadoras partilhadas pela equipa de investigação estão “a seleção de tópicos de ciência e saúde da temática a abordar como, por exemplo, mecanismos celulares do metabolismo e doença, a resistência à insulina ou os benefícios da dieta mediterrânica e da atividade física”, destaca a investigadora. Outra dimensão relevante é “a escolha das personagens, das ligações entre os diferentes atores e o ambiente”, acrescenta.

Outros aspetos incluem a persuasão e empatia a partir das personagens enquanto modelos de comportamentos, associando crenças, atitudes, intenções e autoeficácia. Neste caso, a banda desenhada teve em consideração um modelo positivo (por exemplo, uma pessoa com doença crónica que articula tratamento com hábitos saudáveis, como uma alimentação com consumo de legumes e frutas); um modelo antagonista (tal como uma personagem com doença que não adota um estilo de vida saudável), e um modelo proativo (por exemplo, uma criança inicialmente com um padrão não saudável que se entusiasma com a sua atitude em prol da saúde, consumindo legumes, ajudando nas rotinas de casa, brincando ao ar livre).

 “As experiências entre equipa de investigação e as pessoas com doença contribuíram para a criação e evolução do desenho. A partir deste trabalho em rede conseguimos simplificar eventos celulares e metabólicos e incorporar hábitos e rotinas”, conclui a investigadora.

Esta investigação foi desenvolvida no âmbito dos projetos de doutoramento de Rui Tavares e Mireia Alemany i Pagès, estudantes do Programa Doutoral em Biologia Experimental e Biomedicina da UC, com orientação de João Ramalho-Santos (também docente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC) e de Anabela Marisa Azul. Colaboraram no estudo a investigadora do Centro de Estudos Sociais, Sara Araújo, e o docente da Universidade de Tilburg (Países Baixos), Neil Cohn.

O estudo foi financiado por fundos nacionais, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do Programa Operacional Regional do Centro (CENTRO 2020); e europeus, do Horizonte 2020 da União Europeia, da rede europeia de doutoramento do programa Marie Sklodowka-Curie Actions (MSCA) e do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (COMPETE 2020).

 

COMUNICADO

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