19 Out, 2016

Neurologistas contestam decisão da OMS de incluir AVC no grupo das doenças do aparelho circulatório

Raad Shakir, presidente da Federação Mundial de Neurologia defende que a última decisão da OMS no âmbito da revisão do CID-10, relativa ao AVC deve ser revertida de modo a salvaguardarem-se os cuidados prestados ao doente

“O racional médico que sustenta a classificação do acidente vascular cerebral como uma doença do cérebro é esmagador”. Esta é a mensagem-chave de um apelo urgente lançado por um grupo dos mais conceituados especialistas mundiais de Neurologia na última edição do The Lancet.
Os especialistas tornam desta forma pública a sua preocupação com a classificação do AVC constante da proposta de revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), elaborada por técnicos da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A versão atualmente em vigor do CID (CID-10), publicada em 1992 pela OMS, baseia-se em conhecimentos e conceitos médicos da década de oitenta, muitos deles já ultrapassados. A nova versão (CID-11), em construção desde 2009, procura integrar as lacunas da versão anterior resultantes a enorme evolução que se registou, quer na ciência médica, quer na prática clínica.
“Existe uma boa base de fundamentos com os quais concordámos há cinco anos atrás, num processo transparente e após um debate extenso realizado pelo Grupo Consultivo para a Área das Neurociências e com representantes da OMS, de que todos os tipos de acidente vascular cerebral devem formar um único bloco na nova classificação e que este deve fazer parte do capítulo dedicado às doenças do sistema nervoso”, explica o professor Raad Shakir, presidente daquele órgão consultivo e da Federação Mundial de Neurologia, organização fundada em 1957 e que representa sociedades científica nacionais de 118 países. “Todas as manifestações da doença cerebrovascular estão relacionadas com disfunções do cérebro. E a sua relação com a demência, particularmente com a doença de Alzheimer, está a tornar-se cada vez mais clara”, acrescenta.
De acordo com Raad Shakir, a decisão unilateral dos técnicos da OMS, tomada a 9 de outubro, de transferir o recentemente criado bloco “cerebrovascular” da Neurologia para o grupo das Doenças do Aparelho Circulatório é, não apenas incompreensível, mas também “não respeita a transparência expectável do processo de tomada de decisão da OMS”.
Para o especialista, “O principal objetivo de uma classificação permanente deve ser o de servir os interesses dos doentes, o que não é o caso, a menos que acidente vascular cerebral seja reconhecido como uma doença cerebral”.
No artigo publicado no Lancet, Shakir defende que “a última decisão de classificação relativa ao AVC deve ser revertida de modo a salvaguardarem-se os cuidados prestados ao doente e a garantir a informação e o financiamento adequados à prestação de cuidados de saúde”.

Bibliografia:
1 Revising the ICD: stroke is a brain disease. Raad Shakir, Steve Davis, Bo Norrving, Wolfgang Grisold, William M Carroll, Valery Feigin, Vladimir Hachinski; The Lancet, published online 13 October 2016

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